quinta-feira, 29 de julho de 2010

Inês Pedrosa e as "mulherzinhas"

Num extenso exercício de "non sequiturs", Inês Pedrosa veio em ataque daquelas raras pessoas que, na nossa sociedade, se preocupam e batalham pelo reconhecimento do direito à vida do ser humano em fase de desenvolvimento intra-uterino.

Vejamos: vivemos numa sociedade que mata seres humanos por conveniência. Essa mesma sociedade tolera esses crimes, considera-os legais, financia os ditos crimes, procura coagir os funcionários do sistema de saúde a perpetrá-los abusando da liberdade de consciência, e propagandeia a viva voz que esse crime é "um direito".

Ora nessa sociedade, existe um punhado de lutadores e de lutadoras que gritam "basta" e que batalham por uma sociedade mais justa, com menos crimes. E a Inês Pedrosa, advogando que o tal crime é "direito", combate quem tem razão. Ora, pelas regras inflexíveis da lógica, não pode ter razão quem combate os que têm a razão do seu lado.

Claro que Inês Pedrosa não explica como é que o aborto, esse crime hediondo, é um "direito". Ela assume isso. E claro que, então, todo o seu texto sofre da falácia da petição de princípio: está assente sobre o vazio ético da falta de razões decentes para se legitimar a destruição de seres humanos inocentes.

Vejamos alguns dos aspectos errados do dito artigo:


«Há dias, na televisão, uma senhora de uma associação que se opôs ao direito à interrupção da gravidez fazia o balanço dos três anos da lei nesse astuto tom de luta em prol dos direitos das mulheres.»

Cá está a falácia da petição de princípio. De forma descarada, Inês Pedrosa insere a expressão "opôs ao direito", assumindo que o aborto é um direito. Obviamente não é, pois nenhum crime é direito, mas a autora não explica porque razão considera que matar um ser humano inocente é um direito.

«A ideia que se pretende passar é essa: ser contra a lei que permite a interrupção da gravidez é ser-se feminista. Porquê? Porque, desde que existe a lei, "as mulheres" ficaram mais "sozinhas" e são "obrigadas" a abortar. Quando o médico presente tentava demonstrar a insensatez do argumento, a senhora contra-atacava, repetindo: "Eu estou no terreno, eu oiço as mulheres." Ora, no terreno estamos todos: e ninguém no seu perfeito juízo pode acreditar que um brutamontes qualquer arraste a mulher (ou a filha, ou a amante) pelos cabelos para o centro de saúde - ao contrário do que podia fazer, em total impunidade, quando se tratava de a levar para a abortadeira clandestina.»

Na teatralidade encenada para dar ar de solidez a argumentos vácuos, Inês Pedrosa fala numa hipotética e improvável cena teatral do machista bruto que arrasta as mulheres pelos cabelos para abortar. Claro que ela omite, astuciosamente, os casos frequentes de poderio que oprimem a mulher do nosso tempo. Situações abundantes como a do patrão que diz à sua empregada grávida que ela "tem que resolver o assunto". Inês Pedrosa não conhece esses casos. Então é porque não existem!

«Chamo-lhe delírio, porque as gravidezes interrompidas não deixariam de existir se não houvesse a lei.»

Eis agora a falácia da inevitabilidade do aborto. Abortar é tão inevitável como respirar. Temos que respirar como temos que abortar. Claro está que esta falácia consiste em erradicar alternativas válidas ao aborto. À luz da filosofia da inevitabilidade do aborto, a mulher atrapalhada com uma gravidez indesejada não pode optar por não abortar, e o Estado não pode também optar por financiar as grávidas em dificuldades! O aborto aparece como uma inevitabilidade. Sendo inevitável, tanto como o sol nascer amanhã de novo, há que providenciar então condições para ele ser executado. Mas porque razão seria o aborto inevitável? Inês Pedrosa risca do cenário das possibilidades um Estado que apoie a maternidade, um estado que permita à mulher que é mãe ser mãe. Isso é triste. É desumano. E falacioso.

«A mim, esse crescimento dá-me satisfação: significa que o aborto clandestino está a desaparecer.»

A coisa boa do aborto clandestino, para usufruto de opinadores como Inês Pedrosa, é que é clandestino. Se não há números do aborto clandestino, podemos dizer que o aumento do número de abortos "legais" se deve à redução do clandestino. Pode-se dizer o que se quiser: é clandestino.

«Como é lógico, não basta que a lei entre em vigor para que as mulheres corram para os hospitais. Têm medo de ser vistas.»

Medo. Muito medo. E medo de voltar vezes e vezes seguidas, como indicam as estatísticas de múltiplos abortos por mulher.

«É preciso dar tempo para que as mulheres ganhem confiança no sistema de saúde.»

Exacto: mães, ganhem confiança naqueles que vos destroem os vossos filhos. Confiem nos abortadores. Nada como confiar em pessoas que destroem seres humanos.

«Eu também me lembro. Conheci demasiadas mulheres que perderam a saúde e a vida por abortos miseravelmente feitos.»

Nova falácia: um crime clandestino e medicamente perigoso é coisa má. Mas já um crime "legal" e medicamente perfeito seria coisa boa. Isto está errado. Há que ver que o problema ético do aborto não está nas circunstâncias do acto de abortar. O problema está mesmo no acto de abortar!

«Nenhuma mulher interrompe uma gravidez por ordem de outrem»

Como é que tem tantas certezas? Conhece todas as mulheres? Todos os casos? Frases começadas por "nenhum" ou "nenhuma" são afirmações absolutas. Devem ser usadas com cautela. E os casos de coacção que referi atrás? Não existem? Nenhum? O patrão que ameaça despedimento? O namorado que ameaça ir à sua vida? O pai ou a mãe que ameaçam colocar a adolescente fora de casa?

«O que realmente perturba os controleiros da moral dos outros»

É preciso explicar a Inês Pedrosa que não estamos a falar da moral dos outros! Isto é A MORAL. A moral de todos nós. Se a Inês Pedrosa preferir, estamos a falar da ética de todos nós. Essa coisa pública e de todos. Se matar está mal, se matar não é ético, uma sociedade civilizada não pode tolerar o aborto, entende? Se não avançar com um só argumento a legitimar, eticamente, a destruição deliberada de seres humanos inocentes, então o seu artigo é um vazio argumentativo. É uma interminável lista de "non sequiturs" e de falácias, sustentadas no vazio ético.

6 comentários:

Maria Teresa Sottomayor disse...

O problema do aborto radica em raizes mais profundas. Hoje temos uma sociedade que põe o prazer e a realização profissional, bem como usufruto de bens materiais, acima do amor entre um homem e uma mulher. O amor conjugal, no qual se geram vidas humanas, só pode existir se houver castidade antes do casamento e o namoro for tempo de conhecimento mútuo e descoberta do amor, amando a pessoa e não só as vantagens que essa pessoa lhe dá, e então após o casamento pode haver a entrega plena dos esposos, em corpo e alma, e viverem para o amor, num só, cultivando o respeito mútuo e aceitando-se e apoiando-se mutuamente, e viver sempre a lealdade e fidelidade. Sem isto se tornar real, o que é para muitos uma teoria arcaica da Igreja Católica, não conseguimos erradicar todos os males que afectam as famílias: o aborto, a homossexualidade, a eutanásia, a infedelidade, a preversão sexual, a mentira, a desiducação, etc, todos os males têm a sua genese na falta de amor no casal que têm de ser mútuo, senão perpetúa o mal. Esse amor é um Dom de Deus que só se realiza se atendermos à forma como Ele o criou, daí que a Igreja pecadora, feita de homens pecadores, e por isso também sujeita ao pecado, mas guiada pela palavra de Deus, nos aponte o caminho certo e o melhor exemplo é a Sagrada Família .... por isso a Doutrina Social da Igreja aponta como solução o investimento na educação, de forma que as pessoas possam compreender o casamento, pois é nela, na família, a primeira escola do amor. Precisa-se de formar pessoas com capacidade para amar e combater o seu egoismo, e só se ensina amando, perdoando e testemunhando.

Maria Teresa Sottomayor disse...

O problema do aborto radica em raizes mais profundas. Hoje temos uma sociedade que põe o prazer e a realização profissional, bem como usufruto de bens materiais, acima do amor entre um homem e uma mulher. O amor conjugal, no qual se geram vidas humanas, só pode existir se houver castidade antes do casamento e o namoro for tempo de conhecimento mútuo e descoberta do amor, amando a pessoa e não só as vantagens que essa pessoa lhe dá, e então após o casamento pode haver a entrega plena dos esposos, em corpo e alma, e viverem para o amor, num só, cultivando o respeito mútuo e aceitando-se e apoiando-se mutuamente, e viver sempre a lealdade e fidelidade. Sem isto se tornar real, o que é para muitos uma teoria arcaica da Igreja Católica, não conseguimos erradicar todos os males que afectam as famílias: o aborto, a homossexualidade, a eutanásia, a infedelidade, a preversão sexual, a mentira, a desiducação, etc, todos os males têm a sua genese na falta de amor no casal que têm de ser mútuo, senão perpetúa o mal. Esse amor é um Dom de Deus que só se realiza se atendermos à forma como Ele o criou, daí que a Igreja pecadora, feita de homens pecadores, e por isso também sujeita ao pecado, mas guiada pela palavra de Deus, nos aponte o caminho certo e o melhor exemplo é a Sagrada Família .... por isso a Doutrina Social da Igreja aponta como solução o investimento na educação, de forma que as pessoas possam compreender o casamento, pois é nela, na família, a primeira escola do amor. Precisa-se de formar pessoas com capacidade para amar e combater o seu egoismo, e só se ensina amando, perdoando e testemunhando.

Anónimo disse...

Desculpe, isso é O SEU PONTO DE VISTA....RELIGIOSO. Portanto,fique com ele PARA SI, porque PARA SI ele é válido e.... para os restantes que com ele se identifique.
Não defendo teorias de vida!!! Cada um é que sabe como estar na vida:com ou sem religião,com ou sem filhos, com ou sem familia!
É que acho muita graça à malta da religião: descriminam os "não religiosos" como se fossem os coitados onde não têm onde cair mortos!!! como se fossem desprovidos de qualidades humanas, seres incompletos e merecedores de desdém....era só o que faltava!!



Não venham com pregões de padrões de vida, regras e valores morais! Ninguem é detentor de nenhuma verdade!!

Passar bem!

Shrek disse...

Se o anónimo é a D. Inês Pedrosa "discriminação" escreve-se com "i" e não "descriminação" que tem a ver com descrição, de descrever.

Bernardo disse...

Caro Anónimo,

«Ninguem é detentor de nenhuma verdade!!»

Esta sua frase, dita por si de forma tão categórica, toma-a como verdadeira?

Dito de outra forma: é lógico afirmar que a sua frase é verdadeira? Se a sua frase pretende ser verdadeira, então afinal de contas alguém é detentor de alguma verdade.

Outra coisa que me escapou: já que está contra este texto, tem algum argumento contra o texto que queira partilhar connosco?

Cumprimentos,
Bernardo Motta

Anónimo disse...

Sr Bernardo,

Peço-lhe mil "perdões", mas não estou com a mínima paciência para estar agora a desenvolver teses de defesa e debitar argumentos por causa de um texto absoleto.

Quanto ao vosso amigo Shrek, o "corrector/corretor automático" deste blog, esqueceu-se da "INFEDELIDADE" "lá de cima".
Pois é, em determinados casos,só vemos o mal onde queremos.
Passem muito bem.***