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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Porque não educar a brincar !


Quando se quer ser professor é necessário tirar o curso de professor, quando se quer ser médico é necessário tirar o curso de médico, enfim, poder-se ia-se enumerar a imensidão de cursos necessários mas para se ser pai e mãe na verdade não existe um curso. No entanto, quando se adquire a condição de pai e mãe é para toda a vida e durante vinte e quatro horas por dia. A questão é mesmo se os pais estão preparados para tamanha responsabilidade!

Normalmente seguem os modelos de educação mais próximos que são os dos pais e dos irmãos. Alguns mais preocupados procuram informações nas diversas formas mas colocar em prática só mesmo eles. Cada qual educa o filho da forma que lhe parece ser a mais adequada, a mais sensata. Mas a correria diária é na maioria das vezes a grande traidora porque faz com que os pais fiquem com menos tempo e disponibilidade para seguir mais de perto o seu dia-a-dia.

É fundamental “entrar” no pensamento do filho para perceber certas atitudes que este tem. O filho que normalmente conta tudo torna-se mais fácil, o problema reside essencialmente no que não exterioriza optando por guardar todas as situações e na maioria das vezes não consegue resolvê-las causando-lhe momentos de grande ansiedade.

Eis a história de um menino que “numa saída da escola, assim que chegou junto do pai fez questão de lhe dizer que estava com muita raiva de um colega porque este estava constantemente a humilhá-lo e a critica-lo. Estava tão chateado que lhe desejava todo o mal. O pai ouviu-o calmamente e levou-o até ao quintal onde havia um saco cheio de carvão. Pararam e o pai disse-lhe: “Filho faz de conta que aquela camisa branquinha, que está a secar no estendal é o teu colega e cada pedaço de carvão é um mau pensamento teu para com ele. A camisa é o teu alvo portanto quero que atires todo carvão que está dentro do saco até ao último pedaço, depois eu venho ver como ficou”.

O menino com toda a raiva que tinha e recorrendo à sua força começou a atirar pedaço por pedaço mas o estendal estava longe e poucos eram os pedaços que acertavam no alvo.

Uma hora depois o menino terminou a tarefa. O pai que tinha estado escondido a observá-lo aproximou-se e perguntou-lhe como é que se estava a sentir naquele momento depois de ter esvaziado o saco. O filho aparentemente extenuado e com a garganta seca de cansaço prontamente lhe respondeu que mesmo cansado estava muito feliz porque tinha acertado em muitos pedaços de carvão na camisa.

O pai calmamente pegou na mão do filho e levou-o até ao seu quarto colocando-o à frente do grande espelho onde este se conseguiu ver por inteiro. Assim que viu a sua imagem o susto foi tão grande que recuou dois passos para trás pois apenas via o brilho do seu olhar e a brancura dos seus dentes.

O pai olhou para ele com um olhar marcante mas já habitual em certas situações, como tal, sabia que o que lhe iria dizer era muito importante. Não se enganou, o pai pestanejou e disse-lhe: “Filho viste que a camisa quase não se sujou, mas olha como tu estás. O mal que desejamos aos outros é como o que te acontece a ti.”

Este é um exemplo de um pai que conseguiu tornar uma situação séria num momento lúdico mas muito bem trabalhado. Certamente que este menino nunca mais se esquecerá daquele momento mas se o pai simplesmente lhe tivesse dito que não se deve fazer mal aos outros porque recai sempre para ele certamente que não teria qualquer efeito. Assim, o menino percebeu que “ quando alguém o magoa tem duas opções: se vingar e ser feliz por alguns minutos ou perdoar e ser feliz a vida inteira”. Perdoar é pois uma das chaves que abre a porta da felicidade ainda que no momento não seja fácil. E é nesse preciso momento que o papel dos pais faz toda a diferença no tipo de atitude que os filhos terão ao longo da vida. Como Khalil Gibran disse “os pais são como arcos por onde os vossos filhos, como flechas vivas, se projetam”.

 
anabelaviegasconceicao@gmail.com

Psicóloga Clínica

 

 

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Hospital das camisas

 
 
O Carlos começou a achar a Sandra mais distante.
Ao fim de 8 anos de casamento, com os 3 filhos, o trabalho e os multíplos afazeres da casa, tornou-se mais fria e parecia estar sempre irritada e implicativa.
Até que um dia, ela explodiu e começou a falar em divórcio e em levar os miúdos, dizendo que talvez sozinha fosse melhor para todos. O divórcio poderia resolver os problemas e, cada um, poderia ainda procurar outras vias e fazer, sozinho, aquilo que sempre gostaria de fazer e que deixou de poder fazer por causa da família.
O Carlos ficou em estado de choque.
Tudo lhe parecia tão garantido e seguro, tão garantido que começou a descurar a atenção à Sandra, muitas vezes sem se aperceber, deixando de a "cativar" e "namorar", sempre muito preocupado com tudo e menos com o que devia estar em primeiro lugar. As prendas de namoro tinham deixado de ter sentido, agora, que existiam outras despesas, prioridades e diferenças que, antes nem se notavam, mas que agora se tornaram ensurdecedoras.
A Sandra gosta muito de sair  enquanto o Carlos é mais caseiro e pacato; o Carlos levanta-se sempre cedo ao fim de semana enquanto a Sandra gosta de ficar na cama até tarde, e ele acaba por criticá-la, dizendo "com tantos filhos, como é que podes ficar na cama até tão tarde!". A paciência começa a esgotar-se para cada um dos lados e aqueles defeitos que, no início, pareciam virtudes, agora tornaram-se insuportáveis enquanto que até as virtudes do outro mais parecem agora defeitos desagradáveis.
No inicio o Carlos e a Sandra falavam tanto (e era tão bom!), mas isso foi-se perdendo no meio dos afazeres do relatório que ainda tem de ser enviado hoje, das fraldas que falta trocar, do remédio que se esqueceu de dar à que está doente, da roupa que ficou dentro da máquina por estender, na loiça lavada que falta arrumar, nas compras que há por fazer, nas contas que há que pagar...
 
O Carlos acabou por concluir que o peso da família matou o que de melhor deveria ter cultivado, o namoro com a Sandra; a sua atenção para com ela, o diálogo; o carinho. Tudo passou a parecer dispensável em face das prioridades do trabalho que lhe dão dinheiro para pagar as contas e dos cuidados aos filhos.
A palavra “amor”, no meio do cansaço do trabalho e dos afazeres diários perdeu força e sentido.
Será então a separação a cura para estes males, como se de uma solução milagrosa se tratasse?
Infelizmente todas as famílias são alvos a abater e a separação e o divórcio parecem ser o caminho mais fácil. O difícil é enfrentar os problemas, fazer “stop” e “rewind” e recomeçar sempre, ainda que uns meses depois se volte ao mesmo e se tenha de fazer um novo “stop” e um novo“rewind”.
Mas quem é que disse que a vida em geral e a vida familiar tinham de ser sempre um caminho paradisíaco feito só de coisas bons e sempre para melhor ?
Há muitos anos atrás dizia-se que quando se avariava alguma coisa, não se deitava fora, mas reparavam-na. Em Lisboa existia mesmo um “hospital das camisas” onde as golas gastas eram substituídas nas camisas mais antigas que, desta forma, voltavam ao uso, como novas.
Hoje em dia o casamento é algo descartável, tal como um bébé indesejado ou um idoso acamado. Nas telenovelas e nas revistas cor-de rosa é isso que nos ensinam. Quando corre mal, acaba-se  e segue-se em frente à procura da felicidade num outro lugar, numa outra relação. Porque o que interessa é as pessoas serem sempre felizes, em cada momento e “sentirem” de forma permanente emoções e sentimentos.
Com a falta de tempo, as pessoas deixam de reflectir e passam a agir apenas por reacções, como de animais irracionais se tratassem.
Desistir e não enfrentar as dificuldades, por maiores que sejam, parece sempre ser a melhor solução, mas a realidade é que a desistência trás consequências mais graves e piores que o próprio problema de origem.
O Carlos e a Sandra arriscam tentar, de novo, e de novo, voltarão a tentar outra vez, ou preferem simplesmente desistir ?                                                                                                    
Artigo de opinião de Abril do "Notícias de S.Brás"
Miguel Reis Cunha

quinta-feira, 16 de abril de 2015

Espanha. Jovens com 16 e 17 anos só podem abortar se os pais autorizarem

 
 
A partir de agora, em Espanha, as jovens com 16 e 17 anos que queiram interromper voluntariamente a gravidez têm de pedir autorização aos pais. A lei foi aprovada na generalidade, na terça-feira, no Parlamento espanhol.
Desde 2010, quando estava no poder o Governo socialista de José Luis Rodríguez Zapatero, era permitido abortar sem qualquer restrição até às 14 semanas de gestação. Em setembro passado, o atual Governo aprovou um plano que revertia a lei socialista. Agora, já legislado passa a existir regras na interrupção voluntária da gravidez.
Segundo a Associated Press, a lei ainda vai demorar algum tempo para entrar em vigor, só sendo colocada em prática em junho.
A medida - uma proposta do Partido Popular, no governo - foi aprovada por maioria absoluta, enquanto a maior parte da oposição votou contra.


Ler mais: http://expresso.sapo.pt/espanha-jovens-com-16-e-17-anos-so-podem-abortar-se-os-pais-autorizarem=f919929#ixzz3XUc1SVkY

A esquerda acordou para o problema da crise demográfica

Esta avalancha de propostas para promoção da natalidade chega com mais de 20 anos de atraso. Pior: são propostas sem custos quantificados que podem ir para o lixo após Outubro

 
... E, de repente, todos os partidos com assento parlamentar acordaram para o problema da natalidade. Mais vale tarde que nunca, é certo. Mas este “tarde”, com as eleições de Outubro em pano de fundo, é mesmo demasiado tarde. São muitos anos a negar o óbvio:um país que não consegue renovar as suas gerações, um país em que morrem mais pessoas do aquelas que nascem é um país que está condenado a não ter futuro.
 
Recordemos a data em que a natalidade começou a ser um problema: 1981. Este foi o último ano em que as mulheres portugueses tiveram, em média, 2,1 filhos. Hoje temos praticamente metade deste valor. Isto é, a renovação de gerações deixou de ser feita em Portugal há mais de 34 anos. Desde o início dos anos 90 que temos das mais baixas taxas de natalidade da União Europeia. Há mais de 20 anos, no mínimo, que este é um problema que, qual bola de neve, não pára de crescer sem que nenhum partido parlamentar enfrentasse a questão de frente.
 
Tal aconteceu por várias razões, como a subida do poder de compra ter transformado os adultos em seres mais egoístas. Mas, considerações filosóficas e sociológicas à parte, não é menos verdade que se trata também de um problema cultural do regime democrático. Consciente ou inconscientemente, os valores da família e da natalidade sempre foram associados pelas forças partidárias e culturais da esquerda portuguesa à ditadura do regime salazarista, como se fossem valores negativos, ultrapassados e decadentes.
 
Foi devido a essa cultura, apoiada por boa parte da comunicação social, que a gravidade do problema da natalidade foi sendo totalmente desvalorizada. Em vez de discutir soluções para promover o nascimento de mais crianças, a esquerda focou-se em discutir causas fracturantes como a interrupção voluntária da gravidez ou os direitos civis dos homossexuais e conseguiu convencer o país a não debater os temas ligados à família. 
 
 
(...)
 
Foi necessário chegarmos a este ponto dramático em termos de natalidade para todos os partidos abrirem os olhos para o assunto. Todos os projectos de lei ontem apresentados no parlamento têm, coisa rara, aspectos positivos. Mas também todos têm um problema comum: não quantificam os custos financeiros para o Estado de todas as propostas e são apresentados a seis meses das eleições. O que faz com que seja lícito pensar que terão o mesmo destino do último grande pacote da natalidade apresentado em 2009 por José Sócrates: o caixote do lixo. Do pacote Sócrates ficou apenas o alargamento da licença de maternidade para seis meses, e pouco mais. É,por isso, fundamental que a maioria PSD/CDSe o PS aprovem em conjunto as medidas essenciais para que estas perdurem no tempo. Poderá ser o início do combate ao problema, que é real há demasiado tempo. Empurrar os problemas com a barriga nunca é a solução. Há sempre o dia em que a realidade nos bate na cara de forma violenta, como sempre acontece a quem gosta de ilusões.

Por Luís Rosa, jornalista e diretor de informação do diário "i"
publicado em 16 Abr 2015 in diário "i"

domingo, 12 de abril de 2015

O consumo de pornografia na adolescência



"Não procuro a pornografia na net só por si. Procuro no contexto de masturbação. Vou ver o que há e escolho o que é mais agradável." David, 17 anos, morador na zona de Lisboa, lembra-se de ter tido o primeiro contacto com a pornografia online aos 14, com amigos que foram a sua casa e lhe mostraram, no seu computador, onde encontrar. "Talvez tivesse visto pela primeira vez a passar canais na TV, mais ou menos na mesma altura. Os meus amigos já conheciam, eu nunca tinha andado à procura. Não me lembro de ter tido um impacto muito grande. Achei curioso, um pouco estranho. E fiquei surpreendido de ser tão fácil." Filho de uma doméstica de 49 anos e de um gestor de 48, nunca mencionou o assunto aos pais. Nem sequer fala sobre isso com o irmão mais novo, de 14. "Tenho a certeza de que sabe da existência, mas não sei se vê diariamente." Ele, que certifica consumir "uma média de quatro vezes por semana, e geralmente à noite", faz uma pausa. "A pornografia é um tabu, não é algo de que se fale. Pelo contrário: é algo que se tenta manter em privado."
Roberto, 19 anos, foi mais precoce. "Tinha uns 12, 13 anos quando comecei a usar mais a net. Acho que me dei conta através de publicidade não solicitada no mail e pop-ups [janelas que se abrem em determinados sites com links para outras páginas]. Fiquei um bocado espantado." Também Roberto, que habita "no litoral Oeste", não comentou o assunto com os pais. "Achava um bocado estranho falar sobre isto com os meus familiares e mesmo com os amigos. Mas não me admiraria se os meus colegas também vissem." Sobre a influência que a pornografia teve em si, é franco. "Como nunca tinha tido relações sexuais, fiquei com uma imagem do que é. E acho que, sabendo separar o fictício do real, não há motivo para ser prejudicial, até é saudável. Aliás, quando penso em sexo e masturbação não recorro sistematicamente à pornografia."
Confessando que ainda não teve sexo com alguém - "Nunca encontrei a pessoa certa, quero que isso aconteça quando estiver apaixonado." -, Roberto não tem receio de que o consumo de pornografia lhe tenha de alguma forma "viciado" as expectativas. "Compreendo que haja a possibilidade de haver pessoas influenciadas pelo jogo de papéis que há na pornografia, os homens dominadores, as mulheres submissas, a ideia do sexo sem contexto, dos corpos como objetos, mas isso é para quem não consegue separar a realidade da ficção. Eu sei que a realidade é diferente, que aquilo é feito com atores." Ainda assim, admite que pode ter sido algo influenciado pela forma como, naquele universo, as coisas se passam, até em termos do tipo de atos sexuais encenados: "Em certas coisas, sim. Mas deve haver partes em que é como ali e outras que não."
Parece para já não haver estudos sobre consumo de pornografia por adolescentes em Portugal. O mais próximo será "Eu e a pornografia: a exposição de jovens adultos à pornografia e a sua sexualidade", de Andreia Matias e Nuno Nodin (2004). Com base em informação recolhida junto de portugueses entre os 20 e os 30 anos, permitiu concluir que 40% deles tiveram o primeiro contacto - em TV e vídeos - entre os 8 e os 10 anos, 40% entre os 11 e os 13 e 20% entre os 14 e os 16. Na era da internet, porém, o acesso só pode ser ainda mais precoce e generalizado. E até sem querer.
Que o diga Ondina Freixo, 50 anos, professora de Biologia/Geologia do Agrupamento de Escolas de Moimenta da Beira (Viseu). "Os miúdos têm acesso desde muito cedo, e em simples pesquisas, o mais inocentes possível, na net. (...)." Mas apressa-se a certificar que não na escola: "Esse tipo de conteúdos, e até o Facebook, estão bloqueados na nossa escola, e acho muito bem. Mas uma vez quis mostrar um vídeo num contexto de educação sexual e não conseguia por causa desse bloqueio." Ri-se. "Mas sabemos que eles acedem em casa ou noutros locais. Aliás, isto não é novo. Antes apanhávamos aos miúdos revistas porno, agora já não, para que hão de gastar dinheiro? É tudo grátis na net. E, claro, aos 13 ou 14 anos sabem coisas que, caramba, nós não imaginávamos na idade deles. Não podemos pôr a cabeça na areia. A nossa sexualidade foi diferente da dos nossos pais e a deles (miúdos) é completamente diferente da nossa. E já não existe aquela dicotomia cidade/interior. É a aldeia global."
(....)
E que acharia Ondina Freixo de, como defendeu recentemente um dos mais proeminentes sexólogos dinamarqueses, Christian Graugaard, as aulas de Educação Sexual incluírem visionamento de pornografia, para ajudar os estudantes a serem "consumidores conscientes e críticos, capazes de discernir a diferença entre aquilo que se vê nesse tipo de conteúdo e a realidade das relações que incluem sexo? "A minha proposta é discutir criticamente a pornografia com alunos dos 8.º e 9.º anos [a partir dos 15 anos, a idade legal do consentimento na Dinamarca - em Portugal é 14] como parte de uma estratégia didática sensata desenvolvida por professores treinados", explicou este professor da Universidade de Aalborg ao jornal britânico The Guardian. "Sabemos pelos estudos feitos que a esmagadora maioria dos adolescentes [há inquéritos escandinavos que indicam que aos 16 anos 99% dos rapazes e 86% das raparigas já viram filmes porno] começou a ver pornografia muito cedo, portanto não se trata de lhes mostrar isso pela primeira vez. Devemos fortalecer a capacidade deles de distinguir entre a representação do corpo e do sexo na pornografia e nos media e a vida normal de um adolescente." Ondina reflete: "Tudo o que tenha a ver com esclarecimento, contribuir para uma educação sexual melhor e uma vida mais saudável, sou a favor. Por esse motivo, faz-me sentido falar disso. Mas nunca mostrar imagens. Isso não. Tenho muito à-vontade com as minhas filhas, mas era incapaz de ver um filme desses com elas."
Ana, uma lisboeta de 17 anos, tende a concordar. "No 9.º ano, que é aquela idade mais da adolescência, os rapazes falavam imenso disso, de pornografia. Riam, falavam das posições... Lembro-me de no 7.º ano ter começado a ouvi-los comentar e ficar espantada, não sabia nada." Porquê essa diferença entre os rapazes e as raparigas? "Somos meninas, não é? Não temos tanta curiosidade, acho. E é aquela coisa do segredo, do mistério... E da vergonha, também. Quando os nossos amigos nos falavam daquilo percebiam com certeza que não percebíamos nada, que éramos completamente burras."
Apesar de alertadas, ela e as amigas, garante, nunca foram ver. "Faço uma ideia do que é pornografia. Devo ter apanhado do ar, ou talvez ao passar canais na TV. Mas ver ver nunca vi, porque realmente estar a olhar para um ecrã onde estão duas pessoas a fazer algo que não me diz nada não é produtivo. Acho aquilo muito animalesco, não me parece muito positivo, é só sexo sem mais nada por trás. Banaliza imenso, acho." Algo que, pensa, pode estar relacionado com haver rapazes "que têm namorada e andam com 30 outras raparigas. O que é o sexo para eles? É só aquilo?"


A psicóloga Margarida Gaspar de Matos, professora na Universidade de Lisboa e coordenadora nacional dos estudos sobre comportamentos de saúde em jovens em idade escolar, no âmbito da Organização Mundial da Saúde, sorri. "Há quem defenda que o cérebro emocional só está desenvolvido aos 25 anos, que o melhor é proibir tudo. Mas eu acho que a sexualidade está muito mais natural agora do que no tempo dos nossos avós. Pôr os males todos na época contemporânea é uma coisa estranha."
A recordação sobre a forma como tradicionalmente, até há poucas décadas, os rapazes eram "iniciados" no sexo, sendo levados a frequentar prostitutas, e as raparigas mantidas (idealmente) virgens "até ao casamento", em rígida atribuição de papéis sexuais que conformavam as relações e as expectativas de forma muito mais artificial que a de hoje, permite colocar em perspetiva a atual polémica sobre o acesso precoce a imagens sexuais. "O frisson para ver uma fulana mais despida ou um tipo mais despido é natural, e não vale a pena fazer uma grande história com isso. Mas para quem nunca teve relações sexuais, a pornografia pode fixar uma bitola que não é real. As pessoas nas primeiras vezes estão sempre inseguras e pior ainda quando têm um modelo que não corresponde à realidade. Pode pensar-se que aquilo é que é sexo, que aquilo é que são pénis, que aquilo é que são corpos. E há a possibilidade de perda do que é "bonito" na descoberta e das fases do namoro e do envolvimento amoroso e do seu tempo e ritmo. O mais perigoso, porém, pode ser a formatação de modelos, o associar do sexo à violência e à desvalorização das mulheres." E, claro, a possibilidade de desenvolvimento de comportamentos aditivos.
Há casos reportados na literatura científica, mas, certifica o presidente do Colégio de Psiquiatria da Ordem dos Médicos e um dos pioneiros da sexologia em Portugal, Luís Gamito, não é frequente surgirem na clínica, em Portugal, adolescentes com dependência da pornografia. "Só aparecem se houver uma situação crítica, se houver falência das outras dimensões da vida porque o jovem só consegue pensar naquilo, não tem tempo para as outras matérias. A dependência é isso, ter a mente inundada por pensamentos relacionados com a pornografia. Um dos sinais é fechar-se no quarto horas e horas, a família ter dificuldade em falar com ele." Casos raros, segundo a literatura científica, e que Gamito associa a personalidades com tendência para dependências patológicas e perturbação obsessivo-compulsiva.
A pornografia, então, como o jogo, o álcool e outras substâncias passíveis de causar dependência, capaz de viciar quem seja de vícios (...)

F. Câncio Diário de Notícias 11/04/2015

 

sábado, 21 de março de 2015

Pais querem que professores “puxem” pelos seus filhos com trissomia 21

 
 
Há crianças e jovens com trissomia 21 a quem, nas escolas, não é pedido que façam trabalhos de casa e que não recebem qualquer reparo por não os fazer, alguns não têm cadernos, não fazem testes. O grupo Pais 21 diz que nas salas de aula os seus filhos são muitas vezes “invisíveis”. Lançaram esta sexta-feira, Dia Internacional da Trissomia 21, uma campanha nacional de sensibilização em que pedem aos professores que “puxem” por eles.
“Dantes estas crianças não iam à escola, depois passaram a ir, para estarem socialmente incluídas. E agora? Eles também aprendem”. “Se não aprenderem a ler, escrever, contar estão-se a criar jovens que vão ser subsidiodependentes”, diz Marcelina Souschek, uma das fundadoras deste grupo de pais, amigos e técnicos criado em 2008.
"Leonor, 11 anos, aluna com trissomia 21. Obrigada professora por puxar por mim”, lê-se num dos mupies que vai estar espalhado por Lisboa e Porto, acompanhado com anúncios televisivos e radiofónicos.
A iniciativa do Pais 21 acontece porque muitos  pais sentem que, muitas vezes, os seus filhos “estão nas salas de aula mas não estão lá a fazer nada”, explica a responsável. “O professor tem muitos outros alunos, este não incomoda, não diz nada, fica ali. É um aluno invisível”. É preciso que digam, tal como fazem com os outros, “já fizeste a ficha? Já acabaste? Fizeste os trabalhos de casa. Se não fez tem de se assinalar”.
Dá o exemplo de técnicas que podem ser adaptadas a estas crianças.  Um exemplo: em vez de os deixarem sem fazer testes, podem antes dar-lhes testes em que os conhecimentos são avaliados com o preenchimento de cruzes em vez de ser por extenso. “É preciso ir além do diagnóstico e dar oportunidades de eles mostrarem as suas capacidades, de serem exigentes com eles.  Para que a criança saiba que tem de levar aquilo a sério”. “Não é possível deixar a criança com trissomia a 21 sem aprender, sem caderno, sem livro, sem trabalhos de casa “.
Marcelina Souschek, mãe de uma menina de trissomia 21 com 12 anos, diz que “nas escolas há um avanço enorme, de adaptação, com o uso técnicas que permitem que eles acompanham as matérias”, mas “é preciso muito mais”. Por exemplo, o que acontece em algumas escolas é que os professores de educação especial apenas “tiram o miúdo da sala 1 a 2 horas por semana”, em vez de dotar os outros professores de estratégias para chegar a estas crianças e jovens. O espírito que prevalece é muitas vezes o “não vale a pena”
A campanha nacional também será acompanhada pelo lançamento de um livro Bebés com Trissomia 21 – Novo Guia para Pais, um livro que já era oferecido em inglês num kit com informações que a Pais 21 oferecia nas maternidades às mães com crianças com esta deficiência e que agora está à venda traduzido para português.
Marcelina Souschek diz que não se sabe ao certo quantas crianças com trissomia 21 existem em Portugal, mas que “são cada vez menos”. Tendo por base a distribuição de kits no ano passado estima que nasçam no país uns 90 meninos com este problema. Calcula que 90% das grávidas que fazem diagnóstico pré-natal e a quem é detectado esta anomalia façam Interrupção Voluntária da Gravidez (IVG).
“Não aponto o dedo a ninguém”, mas diz que “há uma pressão dos profissionais de saúde, empurram para a IVG”. Quando teve a sua filha Vera, os testes não revelaram qualquer risco de trissomia 21. “Chorei muito quando a minha filha nasceu”. Não sabe o que teria feito na altura se tivesse sabido que ia ter um bebé com este problema. A responsável diz que a Pais 21 “não quer iniciar uma discussão sobre o aborto. O que defendemos é que as pessoas sejam conscientes na sua decisão”. É preciso que percebam que “eles crescem, aprendem, conseguem ser autónomos, são mais-valias. Vale a pena”
 

terça-feira, 17 de março de 2015

Dolce e Gabba, homossexuais assumidos contra casamento e adoção gay



Depois de terem promovido um desfile original cujo tema era a exaltação da maternidade e da natalidade, Dolce e Gabbana, 2 homossexuais assumidos, numa entrevista a uma revista italiana disseram o seguinte:
“We oppose gay adoptions,”
“The only family is the traditional one.”
“You are born to a mother and a father – or at least that’s how it should be,” ...
“The family is not a fad. In it, there is a supernatural sense of belonging,” Gabbana added.
“No chemical offsprings and rented uterus: life has a natural flow, there are things that should not be changed,” they said.
Dolce said he opposed changing nature to create “children of chemistry, synthetic children, uteri for rent, semen chosen from a catalog.”


 

sábado, 14 de março de 2015

Quando o Amor fala mais alto


O mês de Fevereiro é vivido com certa nostalgia pois assinala-se o dia dos namorados que está associado ao amor. Mas para além desse tipo de amor existem outros e o de pais para com os filhos é indescritível.

            “Numa cidade distante morava um casal que fazia os preparativos para a chegada do primeiro filho. Neste caso tratava-se de uma menina e o homem ficou muito dececionado assim que soube porque queria muito um rapaz. Mas pouco tempo após o nascimento da filha deixou-se levar pelo seu sorriso lindo. Foi então que começou a amá-la verdadeiramente. Quase sem se aperceber lá estava ele a fazer planos para o futuro da filha, pois tudo seria para ela.

            Numa tarde, estavam os três quando ela perguntou ao pai qual seria o presente que teria quando fizesse quinze anos. Ele um pouco atrapalhado respondeu-lhe que ainda era muito nova, pois tinha sete anos, até aos quinze ainda faltava muito tempo.

            Mas o tempo passou muito rápido e esta criança era a alegria da casa em especial do pai. Já tinha catorze anos e num domingo quando iam para a igreja ela escorregou mas o pai agarrou-a para não cair. Já sentados no banco da igreja ia perdendo as forças e quase desmaiou. O pai levou-a de imediato para o hospital onde permaneceu dez dias internada. Foi então que lhe disseram que ela tinha um problema grave no coração. Os dias foram passando e o pai deixou de trabalhar para ficar ao seu lado contrariamente à mãe que não aguentava ver tanto sofrimento como tal refugiava-se no trabalho.

A criança apercebendo-se que não estava bem, perguntou ao pai se os médicos diziam que ela ia morrer mas de imediato o pai lhe disse “Não meu amor, Deus que é tão grande não permitiria que eu perdesse a pessoa que mais tenho amado neste mundo”. Curiosamente continuava a perguntar-lhe: “Quando morremos vamos para algum lugar? Pode-se ver a família do céu? Será que um dia se pode voltar?” O pai bastante emocionado respondeu-lhe: “Bem filha ainda ninguém voltou para contar porém se eu morrer não te deixarei só terei sempre uma forma de comunicar contigo. Não sei como mas sei que se morrer sentirás que estou contigo quando um vento suave roçar o teu rosto e uma brisa fresca beijar a tua face.” Nesse mesmo dia foram informados que a filha precisava de um transplante de coração caso contrário só teria vinte dias de vida.

O sofrimento destes pais era enorme, precisavam de encontrar um dador mas onde?! Nesse mesmo mês ela completaria os seus quinze anos e foi numa sexta-feira à tarde que conseguiram um dador. Foi operada e tudo correu bem. Permaneceu quinze dias no hospital mas o pai não a visitou uma única vez. Teve alta e foi para casa. Assim que chegou gritou ansiosamente pelo pai. A mãe saiu do seu quarto com os olhos encharcados e entregou-lhe uma carta deixada por ele. “Filha neste momento já deves ter quinze anos e se os médicos não me enganaram já terás um coração forte batendo no teu peito. Lamento não poder estar a teu lado. Quando soube que morrerias decidi dar-te a resposta à pergunta que me fizeste quando tinhas sete aninhos e para a qual não pude responder. Decidi dar-te o presente mais bonito que ninguém te daria, dou-te de presente a minha vida inteira sem nenhuma condição para que faças com ela o que quiseres, vive filha, te amo com todo o coração.”

 No dia seguinte a menina foi ao túmulo do pai chorar como ninguém poderia chorar: “Pai agora compreendo o quanto me amavas. Eu também te amo mas agora compreendo a importância de te dizer AMO-TE”. De repente” um vento suave roçou no seu rosto e uma brisa fresca beijou sua face”, ela olhou para o céu limpou as lágrimas e voltou para casa.”

Chega-se ao fim deste relato com um misto de sentimentos mas cabe a cada qual refletir e ter a coragem de admitir que talvez esteja a seguir pelo caminho errado e porque não optar por outro, por aquele que algum dia foi o que o levou até onde ele chegou! Se foi o melhor ninguém sabe mas de certeza que foi o do amor. Os pais sacrificam a própria vida pelos filhos mas fazem-no incondicionalmente, porém nos momentos menos bons será que estes estão a seu lado não por obrigação mas por amor?!

Como alguém disse “ Jamais deixes de dizer AMO-TE pois não saberás se será a última vez.”

 
anabelaviegasconceicao@gmail.com

Psicóloga Clínica

 

 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

Um ombro amigo



Para além da saúde, pede-se “dinheiro, paz, amor, felicidade”… Será que alguém traçou como objetivo mudar a atitude perante a sua família, perante os seus colegas, perante o seu chefe, perante os seus amigos, perante os outros indivíduos de modo geral?!

A alimentação é mais que uma necessidade fisiológica, come-se para festejar mas também se come para compensar tristezas portanto há que pensar naquilo que se pode melhorar e que está diretamente relacionado com as relações interpessoais.

Eis a história de uma mãe que pergunta ao filho qual será a parte mais importante do corpo humano. Ele responde que são os ouvidos mas ela logo lhe explica que não porque existem muitas pessoas que são surdas mas vivem muito bem. Passou-se algum tempo e ela fez-lhe a mesma pergunta. Ele pensou então que seriam os olhos. E a resposta foi muito idêntica, pois há muitas pessoas que não têm olhos e vivem muito bem. Ao longo do tempo a mãe ia-lhe perguntando mas ele nunca acertou na resposta.

No dia em que o avô dele morreu todos estavam a chorar muito tristes e nessa altura a mãe olhou para o filho e perguntou-lhe se já sabia qual era a parte mais importante do corpo. Ele ainda ficou mais confuso por ser naquele momento, então a mãe disse-lhe que a parte mais importante do corpo era o ombro. Mas ele sem perceber nada perguntou-lhe se era porque sustentava a cabeça. Então a mãe fez questão de lhe dizer: “não meu filho ele é importante porque pode dar apoio à cabeça de um amigo ou de alguém que está ao nosso lado quando chora”. Ainda acrescentou: “eu espero que tenhas bastante amor e amigos e que encontres sempre um ombro para chorar quando precisares. As pessoas esquecem-se do que tu disseste, esquecem-se dos teus feitos mas nunca se esquecem de como as fizeste sentirem-se”.

É certo que cada individuo é único e tem determinados comportamentos que nem sempre são sentidos pelo outro como os mais adequados ao momento considerando-os até mesmo injustos mas às vezes é mesmo isso que o torna tão especial, sentindo-se num patamar muito acima tendo como base a ideia de que “faz aos outros aquilo que gostarias que te fizessem a ti mesmo”.

Ter um ombro amigo sempre disponível para oferecer poderá ser um forte objetivo para este ano pois “existem momentos na nossa vida em que as palavras perdem o sentido ou parecem inúteis e por mais que se pense numa forma de as empregar elas parecem não servir, então não dizemos nada apenas sentimos”. E como alguém disse “ embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim”.

 

 

anabelaviegasconceicao@gmail.com

Psicóloga Clínica

 

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Governo Espanhol lança medidas para acelerar adoção de crianças e reduzir tempo de institucionalização

El Gobierno quiere reducir al mínimo la cifra de 13.400 pequeños que están en residencias o centros de acogida. Representan el 38% de los que están tutelados por el Estado. La Ley de la Infancia que aprobó ayer el Consejo de Ministros establece una serie de medidas para agilizar y facilitar los trámites de custodia y adopción, y otras medidas para proteger a los más pequeños. La idea es favorecer que los pequeños estén con familias en vez de en instituciones.
Adopción abierta. Esta medida consiste en que los pequeños adoptados podrán, en algunos casos, mantener contacto con miembros de su familia biológica. La decisión la tomará un juez después de oír a las tres partes interesadas (el menor y ambas familias). Ha sido vista con recelo por el Consejo General del Poder Judicial (CGPJ)
Permiso paternal. Cuando un pequeño haya sido declarado en situación de desamparo podrá ser adoptado a los dos años sin que haga falta el permiso de los padres biológicos si en ese periodo estos no han tomado medidas para revertir la situación.
Convivencia previa. Cuando un pequeño sea considerado candidato a ser adoptado, podrá empezar a convivir con la familia que la entidad pública que le custodia considere idónea antes de que el proceso legal se realice. De esta manera se acorta el tiempo que los niños deben pasar en centros esperando a ser recibidos por una familia, y comenzará antes el proceso de adaptación entre el adoptante y sus padres legales.
Derecho a saber. Los pequeños adoptados tendrán derecho a conocer sus orígenes. Para ellos, las Administraciones públicas deberán mantener registros durante al menos 50 años.
Guardia voluntaria. Las familias con problemas económicos o de otro tipo, pueden entregar a sus hijos para que sean tutelados por la Administración en un proceso denominado como de guardia voluntaria. Con la nueva ley este periodo solo podrá durar dos años, a partir del cual las Administraciones puden decidir entregar el niño en acogimiento o adopción a una familia. Con ello se quiere evitar que el proceso se perpetúe y el menor nunca salga del centro.
Desamparo. Los padres solo podrán revertir la situación de desamparo declarada de un menor (por malos tratos, inducción a la mendicidad, por ejemplo) durante los dos primeros años. Luego será el Ministerio Fiscal el único que podrá impugnar la declaración.
Permisos. Los futuros padres y madres de adopción o acogida tendrán derecho a permisos laborales para asistir a las sesiones formativas que necesiten.
Violencia. Los hijos de mujeres víctimas de violencia de género serán considerados, asimismo, víctimas de estos malos tratos. Los jueces deberán decidir las medidas que sobre ellos se tomen, y se prevé que estos niños puedan permanecer con sus madres.
Fonte: EL PAÍS

    quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

    Legalizar a prostituição ?

    Por Pe. John Flynn, L. C.
    ROMA, segunda-feira, 2 de abril de 2011 (ZENIT.org) - A prostituição legalizada tem sido um assunto frequente nos últimos anos. Os defensores da ideia dizem que é melhor regulamentá-la para evitar os abusos e torná-la mais segura, focando na minimização de riscos.

    Por outro lado, estudos recentes na região de Camberra, capital da Austrália, indicam que a legalização está longe de ser a solução perfeita. A prostituição foi legalizada no Território da Capital Australiana (TCA) em 1992, mas, em 2008, a morte por overdose de uma prostituta de 17 anos, Janine Cameron, suscitou grande polêmica.
    A assembleia legislativa do território promoveu um estudo que resultou em 50 documentos escritos e uma série de audiências públicas agora em curso.
    "Não dá para ter relações sexuais com 10 ou 15 homens diferentes por dia sem se afetar, sem abalar a própria valorização, a valorização do sexo e o próprio jeito de construir uma intimidade com outro ser humano", afirmou Julie, pseudônimo de uma das entrevistadas.
    Julie começou a trabalhar em um bordel aos 17 anos (ABC News, 8 de abril). Saiu depois de 18 meses, mas conta que não foi fácil mudar de vida e se livrar de uma indústria em que existe muito crime e corrupção. "Foi muito difícil conseguir ter uma relação íntima normal depois".
    Violação da dignidade humana
    Em documento apresentado após o estudo, a arquidiocese católica de Camberra explica que a Igreja considera a prostituição como uma violação da dignidade humana. As prostitutas prejudicam a sua dignidade porque se reduzem a instrumentos do prazer sexual, enquanto quem paga pelos seus serviços comete uma grave ofensa.
    O documento aponta uma série de argumentos sobre o dano causado pela prostituição.
    - As prostitutas são alvos fáceis de crimes violentos e correm risco permanente de agressão.
    - Muitas mulheres estão na prostituição para sustentar seu vício em drogas ou levantar dinheiro para outras necessidades desesperadas.
    - Práticas sexuais sadomasoquistas, que incluem a violência contras as mulheres, são especialmente degradantes para elas.
    - A prostituição aumenta notavelmente os riscos graves para a saúde das mulheres, particularmente os de DSTs como aids, herpes e hepatite C.
    - A prostituição é ligada à escravidão e ao tráfico sexual de mulheres.
    - Quando se legaliza ou se descriminaliza a prostituição, cria-se uma cultura da prostituição, que tem efeitos prejudiciais não só na vida das mulheres que se prostituem, mas na de todas as mulheres que vivem nessa cultura.
    - A prostituição prejudica as relações heterossexuais e as famílias. A esposa ou namorada de um homem que utiliza serviços sexuais é notavelmente afetada. Se o homem guarda em segredo o uso desses serviços, quebra os fundamentos da confiança e da honestidade na sua relação. Se os usa abertamente, pode levar à ruptura da sua relação.
    - A indústria da prostituição prejudica o ideal das relações igualitárias entre homens e mulheres e tem impacto negativo na família e na sociedade em geral.
    - A prostituição não pode ser separada da questão da dignidade das mulheres. A legalização da prostituição significa que o governo e a sociedade em geral estão dispostos a aceitar a desumanização e a coisificação das mulheres.
    O caso da Suécia
    Uma das recomendações do documento da Igreja católica apresentado à comissão é a adoção do modelo sueco. Em 1998, a Suécia aprovou uma legislação que penaliza a compra, mas não a venda de serviços sexuais. As mulheres e crianças vítimas da prostituição não correm o risco de sanções legais, mas a compra desses serviços é um delito penal.
    Esta proposta recebeu o respaldo de um informe oficial, publicado em 2 de julho de 2010, avaliando a legislação sueca desde o seu início em 1999 até 2008.
    O relatório revelou que as mudanças atingiram o efeito desejado e mostrou que a penalização da compra de sexo foi um instrumento importante tanto na luta contra a prostituição quanto contra o tráfico de pessoas para fins sexuais.
    Segundo o documento, a prostituição de rua na Suécia caiu pela metade após a adoção da nova lei. Antes dessa legislação, a prostituição de rua era mais ou menos igual nas capitais da Noruega, Dinamarca e Suécia. Depois de 1999, porém, a prostituição de rua na Noruega e na Dinamarca aumentou de forma dramática. Em 2008, o número de pessoas que se prostituíam nas ruas norueguesas e dinamarquesas era o triplo do caso sueco.
    "Considerando as grandes semelhanças que existem entre esses três países, econômica e socialmente, é razoável assumir que a redução da prostituição de rua na Suécia é resultado direto da penalização", conclui o informe.
    É importante observar que a prostituição não mudou de local em decorrência das mudanças na Suécia: ela de fato diminuiu. O relatório aponta que a prostituição resultante de contatos na internet é mais frequente nos países vizinhos. A proibição da prostituição de rua na Suécia, portanto, não a transferiu para a internet.
    Por outro lado, o relatório assinala que não há sinais de que a prostituição em salas de massagem, clubes de sexo e em restaurantes e discotecas tenha aumentado nos últimos anos. Não há provas que sugiram que as prostitutas exploradas antes nas ruas agora estejam envolvidas em prostituição em locais fechados.
    O relatório diz também que, segundo a Polícia Criminal do país, a proibição contra a compra de serviços sexuais atua como um desmotivador para os traficantes de pessoas e os aliciadores que se estabelecem na Suécia. 
    A informação da experiência sueca reforça também o que muitos tinham dito tanto neste tema como em outros debates sobre a legalização de práticas polêmicas. Deixa claro que proibir a compra de serviços sexuais teve um efeito normativo e que, após a legalização, houve uma mudança relevante na atitude do público com a compra de serviços sexuais. Significou um elemento eficaz de dissuasão para quem compra sexo.
    Opressão
    Outro documento submetido à investigação de Canberra vinha do ‘Collective Shout’, que se descreve como “um movimento com campanhas nas ruas preocupado com a coisificação das mulheres e a sexualização das jovens na mídia, publicidade e cultura popular”.
    Eles observam que, em nome da minimização dos danos, foram legalizados na década de 90 alguns setores da indústria sexual na Austrália e em países como Holanda e Alemanha.
    Não se alcançou, no entanto, o efeito desejado, e o documento apresentado à Comissão afirma que há evidências claras, tanto de estudos acadêmicos como dos governos, de que a postura de minimização dos danos é em si mesma errônea, ao tentar regular a indústria sexual.
    Um exemplo claro disso está na relação com o uso de menores na indústria da prostituição. Victoria foi o primeiro Estado australiano a legalizar a prostituição. 
    Um estudo, que examina a informação de 471 organizações governamentais e não governamentais que trabalha com crianças na Austrália mostra que mais de 3.100 crianças australianas entre 12 e 18 anos tinham tido relações sexuais em troca de dinheiro para sobreviver. Victoria tinha a cifra mais alta da nação, com 1.200.
    Outro ponto apresentado foi que muitas mulheres prostituídas tinham sofrido abusos sexuais na infância, abusos físicos, violência doméstica e uso de drogas.
    “O modelo de minimização dos danos – ou legalização da prostituição – permite, em essência, a exploração das pessoas mais vulneráveis da sociedade”, afirma ‘Collective Shout’. "É o momento de reconhecer que a ‘profissão mais antiga do mundo’ é atualmente a ‘opressão mais antiga do mundo’”.

    terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

    A neurociência provou que a pornografia está literalmente a tornar o cérebro do homem mais infantil

     
    Junto com outros negócios orientados para o sexo, a pornografia é com freqüência classificada como entretenimento “adulto” – algo para públicos “maduros”. Se isso significasse que esses tipos de entretenimento não são “apropriados para crianças”, então poucos levantariam alguma objeção.
    Dito isto, seria estúpido usar isso como um argumento de que a pornografia é própria para adultos. Heroína e metanfetaminas também não são “apropriadas para crianças”, mas isso não significa, ipso facto, que elas sejam saudáveis para pessoas com mais de 18 anos.
    Os defensores da pornografia gostam muito de dizer (“gostar muito” é uma suavização – eles repetem isso como um mantra) que a pornografia é um entretenimento sofisticado e maduro próprio para adultos responsáveis. Eles tentarão fazer com que você acredite que a pornografia é aquilo que verdadeiros cavalheiros apreciam – como queijo azul, um bom uísque e Dostoievski. Como o infame Ron Jeremy está sempre pronto para dizer: “A pornografia é sexo consensual entre adultos que estão em consenso, para ser assistida consensualmente por adultos.”
    O que nos leva à pergunta: O que exatamente constitui um comportamento “adulto” ou “maduro”? Seria apenas um comentário a respeito da idade do participante? Ou seria algo mais? Estipular definições adequadas é complicado porque hoje esses termos são freqüentemente usados como sinônimos de mídia erótica – que é o tópico que estamos tentando dissecar.
    Usamos o termo “maduro” quando falamos sobre atingir um estágio final ou desejado. Falamos “vinho maduro” como o vinho que atingiu seu pico de fermentação e está pronto para ser consumido. Também usamos a palavra “maduro” para falar de alguém que “cresceu” em seus comportamentos ou atitudes – essa pessoa não mostra a impetuosidade ou a ingenuidade da juventude. É exatamente isto o que os patronos de clubes de strip-tease estão fazendo ao chamarem esses estabelecimentos de “clubes de cavalheiros”: estão insinuando que as atividades que ocorrem lá são parte de comportamentos varonis e refinados.
    A dopamina e o cérebro
    Pergunte qualquer neurocientista como é um cérebro humano “maduro” e ele ou ela provavelmente falará sobre uma região do cérebro conhecida como córtex pré-frontal. Ela está localizada bem atrás da testa e serve de centro administrativo do cérebro. Ela é responsável por nossa força de vontade, pela regulação do nosso comportamento, e pela tomada de decisões com base na sabedoria e em princípios. Quando as emoções, impulsos e desejos surgem do mesencéfalo, os lóbulos do córtex pré-frontal estão lá para exercerem “controle executivo” sobre eles. Por volta dos 25 anos, essa região do cérebro atinge a maturidade, o que quer dizer que o nosso raciocínio torna-se mais sofisticado e que podemos regular nossas emoções mais facilmente.
    Por que colocar a neurociência na equação? Porque estão sendo feitas pesquisas fascinantes sobre o impacto da pornografia nessa região do cérebro.
    O cérebro foi projetado para responder ao estímulo sexual de determinado modo. Ondas de dopamina são liberadas durante uma relação sexual –  e, sim, também quando se tem contato com pornografia -, dando à pessoa um aguçado senso de foco e uma consciência do desejo sexual. A dopamina ajuda a registrar memórias no cérebro, de modo que da próxima vez que o homem ou a mulher sentem desejo sexual novamente o cérebro lembra-se aonde deve retornar para experimentar o mesmo prazer: seja a outra pessoa uma esposa amável ou um laptop no gabinete de trabalho.
    Porém, cientistas estão percebendo agora que a exposição contínua à pornografia causa no cérebro uma euforia artificial – algo que ele literalmente não pode suportar – e eventualmente o cérebro se exaure. O professor de anatomia e fisiologia Gary Wilson observa que esse é o mesmo padrão identificado quando há abuso de drogas: o cérebro fica dessensibilizado. Mais doses da droga ou drogas mais pesadas são necessárias para atingir a mesma euforia, e a espiral descendente começa. Wilson afirma que isso provoca mudanças significativas no cérebro – tanto para os viciados em droga quanto para os usuários de pornografia.
    Uma dessas mudanças é a erosão do córtex pré-frontal –  aquele importantíssimo centro de controle executivo. Quando essa região do cérebro enfraquece, quando o desejo por pornografia aparece, há pouca força de vontade presente para regular o desejo. Os neurocientistas chamam esse problema de hipofrontalidade, quando a pessoa perde lentamente o controle sobre os impulsos e o domínio sobre suas paixões.
    O ponto é o seguinte: Aquilo que, no cérebro, é a marca da idade adulta e da maturidade é a coisa que é destruída quando vemos mais pornografia. É como se o cérebro estivesse retrocedendo, tornando-se mais infantil. O entretenimento “adulto”, na verdade, nos torna mais infantis.
    A brilhante mentira de Hugh Hefner
    A tentativa de transformar o desvio sexual em algo cavalheiresco me parece nada mais do que a tentativa de enfraquecer os homens para justificar um comportamento indecente. Desde que o primeiro número daPlayboy chegou às bancas de jornal em 1953, a estratégia de Hugh Hefner teve duas dimensões: para os distribuidores, ele vendeu a revista como pornografia leve, mas para o público alvo ele a vendeu como uma “revista sobre estilo de vida” masculino para homens em ascensão. O sociólogo Gail Dines explica como a Playboy fez seu próprio marketing, dando início então à mudança da imagem pública da pornografia:
    “Quando os editores se dirigiam ao leitor, as imagens eram apenas uma das muitas atrações, e não a atração. O leitor era convidado não a se masturbar diante da fotografia central, mas antes a entrar no mundo da elite cultural, a discutir filosofia e consumir comidas associadas à classe média alta. As marcas de uma vida de classe abastada, que aparecem causalmente como reflexões (coquetéis, hors d’oeurvre e Picasso), foram colocados deliberadamente para mascarar a revista com uma aura de respeitabilidade de classe média alta.”
    Assim como certamente a Playboy teria morrido sem as mulheres nuas enchendo suas páginas, a revista também teria morrido sem seus artigos e propagandas, que deram permissão ao homem norte-americano auto-definido como classe média a viciar-se em pornografia.
    Por que as lojas para adultos têm entradas pelos fundos? Seria porque sua clientela é composta por revolucionários incompreendidos que estão tramando o fim de sociedade sexualmente reprimida? Ou será que é algo muito mais simples que isso? Não seria porque eles sabem que tal comportamento é errado?
    Quando alguém considera as opções, qual atividade soa mais “madura” e adulta: ter uma vida conjugal por toda a vida com uma mulher de carne e osso a quem você está ansioso para servir e estimar, apesar de todos os seus erros e defeitos (e apesar dos seus próprios), ou fugir à noite para navegar na internet, trocando de mulher a cada momento, de um vídeo de 30 segundos a outro, ininterruptamente, buscando o prazer enquanto você se vincula a pixels numa tela?
    Matt Fradd