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sábado, 18 de outubro de 2014

Sofrer sem incomodar

Vivemos num tempo em que o sofrimento é visto como algo vergonhoso. Em que as pessoas devem manter as suas dores sob controlo a fim de que os outros sejam poupados ao peso do que entendem não ser seu.… um sofrimento sem expressão… tão escondido como um qualquer pecado obsceno.
São poucos os que querem que a luta interior de alguém seja uma luta comum... Temem-se as dores, mas teme-se mais ainda o seu inevitável contágio a que alguns chamam partilha. Amor.
Mesmo depois de uma grande perda, o luto é uma luta que não deve ser travada longe dos outros. Cada um carrega o seu fardo, mas se o partilhar, a viagem torna-se menos penosa. Porque se aliviam, um pouco, a pena e a solidão.
Claro, há muitas simpatias e compaixões, mas a maior parte delas é apenas aparente. São cada vez menos os que conseguem prestar uma ajuda desinteressada a quem precisa.
As alegrias não incomodam tanto como as tristezas. Embora em ambos os casos seja raro haver partilha.
Vivemos numa enorme tapeçaria de aparências: os egoísmos, disfarçados de coisas belas, escondem podridões... mentiras sempre assumidas de um modo diplomático e inteligente. Afinal, todos temos os nossos problemas – dizem.
Escondo-me nuns óculos escuros, porque não quero que vejam as minhas lágrimas. Visto-me de preto, para me esconder na noite de mim mesmo, quero passar despercebido, oculto, silencioso… não quero incomodar ninguém. Não quero que a minha tristeza estrague a vida de mais ninguém... tenho medo.
Mas é o medo que nos impede de sermos felizes. Porque quem tem medo, não ama, e quem não ama não é feliz.
 
Por José Luís Nunes Martins
publicado em 18 Out 2014 "i"

sábado, 4 de outubro de 2014

Cuidados paliativos


terça-feira, 27 de maio de 2014

Um tributo ao Miguel

O Miguel é irmão do meu cunhado. E como o meu cunhado é meu irmão, o Miguel era um dos meus. Não era da minha geração e por isso não compartilhei muitas das fases importantes da sua vida. Mas fui ao seu casamento e acompanhei o nascimento e crescimento das suas pequenas filhas. No verão, na quinta dos pais, onde durante anos todos convivemos à volta da piscina, o Miguel lá estava. Era uma presença que se sentia porque não se impunha. Lá estava, com um sorriso sempre, sempre, afável e gentil.
Uma doença impiedosa levou-o aos 46 anos. E foi assim que todos o vimos a fundo. É engraçado como o sofrimento pode mesmo ser uma lente que amplia para além do que se pode imaginar, a verdadeira natureza do ser humano.
Ao contrário do que se podia esperar porque, para a maioria de nós, a morte é mesmo o contrário da vida, o Miguel foi capaz de, durante cerca de nove meses, enfrentar cada fase desta experiência como era preciso. Combativo, determinado, exigente, positivo, esclarecido, lutou em Portugal e fora aceitando tratamentos difíceis e acreditando na respetiva eficácia.
Quando, nesta última fase, se percebeu que a doença ia ganhar, deu-nos uma magistral lição de compreensão desse fenómeno sobrenatural que é a fé; a fé de que a vida não termina nesta passagem terrestre, e de que o amor é a ponte, a única ponte, que nos pode fazer aceitar sem um precipício pelo meio, as duas realidades.
Percebi pelo que vi e pelo que me contaram, que lhe foi possível rir, conversar, torcer pelo Benfica, partilhar histórias engraçadas e, quando fazia sentido, agradecer a visita, o acompanhamento durante a doença, o serviço feito em casa, a maior e a mais pequena das coisas sempre sereno, sempre pacífico e sempre feliz.
Mas, mais do que isso, a sua atitude ajudou ainda que alguns dos que o rodearam mais de perto mostrassem igualmente uma dose extraordinária de generosidade, de humanismo, de companheirismo e até dessa fé que eu jurava que não conheciam.
A começar pela sua mulher, que manteve uma coragem íntegra e uma lucidez cristalina que permitiu sobretudo às suas duas filhas continuar a viver a vida de todos os dias e a acabar nos pais. Aqueles para quem a perda de um filho não tem nome, como tão bem lembrou o celebrante.
Os filhos sem pais são órfãos, o marido ou a mulher sem o cônjuge são viúvo ou viúva mas não há nome para quem perde um filho. São pais com um fogo lá dentro, misto de perda e de felicidade, de saudade e de orgulho, de revolta e de paz.
Por isso acabamos todos a dizer "até logo" ao Miguel, convencidos que ficamos de que viu como nenhum de nós que a segunda parte da existência, mesmo vista do lado de cá, é suave e feliz.
Sei que se pudéssemos evitaríamos que todos morressem; também sei que nos parece que só estamos programados para viver; por isso tantos de nós sobrevivem a tanto, aguentam tanto; mas ver um homem tão novo e tão cheio de vida e de planos, aceitar um destino tão imprevisto, põe-me a pensar que decerto sempre temos cá dentro um grão de infinito que só não germina e não cresce porque não nos damos de olhos fechados, sem perguntar porquê.
Se o soubéssemos fazer ficava tudo mais em perspetiva, percebíamos que o hoje e aqui é sobretudo parte de um caminho e não um sprint pela realização apressada e tantas vezes trauliteira.
Sinto pudor em escrever sobre alguém tão próximo e sobre uma experiência tão pessoal mas também sinto que este meu muito simples tributo ao Miguel é um tributo a muitos e muitos que como ele são corajosos, amigos, serenos, determinados, fortes, sensíveis, autênticos, conscientes de uma humanidade poderosa que se consegue reerguer gloriosa do meio do mais puro sofrimento.
Não devíamos precisar de tão pungentes momentos para sentir que grande parte do que nos rodeia é menos do que a espuma dos dias, e no entanto...
Cristina Azevedo JN 2014-05-23
 

sábado, 9 de novembro de 2013

Enfrentar a morte

Na coletânea de ensaios e reflexões intitulada "Velai comigo - Inspiração para uma vida em Cuidados Paliativos", a autora, Cicely Saunders (1918-2005), explora a «relação entre a biografia pessoal, a vida espiritual e uma ética do cuidar».
«Narrada na primeira pessoa, recorrendo a uma série de influências religiosas e filosóficas, e apoiada numa motivação primária de cuidar dos que estão em fim de vida, “Velai comigo”, debruça-se sobre a experiência do sofrimento humano, a mortalidade e a busca de sentido».
«Este não é um livro apenas para especialistas ou profissionais de saúde. “Velai comigo” aborda como morremos no mundo atual. Nesse sentido, é um livro para todos nós.»
Apresentamos um excerto da obra prefaciada por Isabel Galriça Neto, médica de Cuidados Paliativos.
 
Enfrentando a morte
A maior tristeza de um paciente moribundo é o fim das suas relações e responsabilidades. Vivemos em interação com os outros, e à medida que a fraqueza invasora leva à mudança das nossas funções, à medida que o assalariado já não pode trabalhar ou a dona de casa tem de passar as suas atividades de cuidado da família a outros, é difícil não nos sentirmos inúteis e humilhados.
A família aproveita, muitas vezes e prontamente, a oportunidade de saldar dívidas de amor e cuidados, mas não é fácil ser continuamente a causa da preocupação das outras pessoas, e, por isso, este processo de cuidados deve ser feito com sensibilidade. Pode-se aproveitar este tempo para curar amarguras e para promover reconciliações, o que, como em qualquer tempo de crise, pode acontecer surpreendentemente depressa. («Vivemos uma vida inteira em três semanas.») Mas para isto ser bem feito, pelo menos alguma da verdade sobre a situação tem de ser partilhada.
As famílias pensam, muitas vezes, que têm de proteger a pessoa moribunda da verdade, mas isto é, quase sempre, um engano. O paciente acaba por saber, por outros meios, e fica então ainda mais isolado, incapaz de partilhar a sua preocupação por outros e por ele próprio. Fingir continuamente inibe e é exaustivo para ambos os lados.
Por mais difícil que possa ser enfrentar a despedida, sermos verdadeiros tanto quanto possível ajuda a atravessar a ansiedade e a dor que esta causa. Algumas famílias partilham pouco uns com os outros, durante a sua vida. Há pessoas que passam toda a sua vida a evitar realidades desagradáveis. Estes ou outros grupos de pessoas nem sempre serão bem sucedidos. Não se devem apressar as revelações duras e podemos ter de esperar que verdades parciais sejam gradualmente absorvidas, mas é certo que partilhar um pouco destas verdades já facilitou, surpreendentemente com frequência, o crescimento familiar.
Os pacientes (e as famílias) podem continuar a ter esperança quando não há esperança, podem «tirar um dia de folga» da verdade concentrando-se numa viagem ou numa celebração e, ainda assim, conhecerem-se profundamente ao mesmo tempo.
A maioria das famílias que deixa o St Christopher Hospice com forças renovadas, após a morte de um doente, são aquelas que foram capazes de enfrentar a sua partida juntas. Continuará a ser difícil aceitar uma perda, fazer o luto, mas tais memórias ajudarão a fazer deste um processo criativo. A equipa de cuidados paliativos está pronta a trabalhar sozinha ou em grupos com aqueles que necessitam de ajuda especial nesta longa viagem dolorosa.
Enfrentar a morte implica enfrentar o fim de esperanças e de planos. A dor não é só física e social, é também profundamente emocional. De facto, a dor mental pode ser a mais difícil de tratar. A ansiedade causada pela doença e pelos tratamentos junta-se à depressão despoletada pela perda de capacidades. A maioria de nós tem razão para se sentir embaraçada ao revermos as nossas vidas, mas isto, nos doentes graves, é, muitas vezes, confundido com sentimentos vagos e irracionais de culpa. Há pessoas que têm ataques de raiva, perfeitamente compreensíveis, ou de desespero devastador. No entanto, a depressão clínica é comparativamente rara entre os pacientes de cancro e o suicídio é incomum.
A tristeza é adequada e devemos encará-la e partilhá-la. Requer alguém que ouça, mais do que de fármacos, se bem que a combinação dos dois pode ajudar a levantar um peso inibidor e a permitir que um paciente derrube problemas que pareciam impossíveis de gerir. Avaliar e rever este tipo de tratamento não significa manipular a mente, mas sim oferecer mais liberdade e força para se enfrentar a realidade. Os Sacramentos a anunciar o perdão de Deus podem apaziguar e a atitude de aceitação daqueles que rodeiam o doente pode confirmá-lo, sem palavras.
O maior receio é a perda de controlo. Ainda assim, mesmo sofrendo de um tumor cerebral avançado ou de uma falha nas capacidades mentais, pode ajudar-se a pessoa a focar-se e a encarar a situação, de acordo com a sua forma de ser. Uma filha, que descreveu a lenta deterioração da mente do pai com uma perceção amorosa, mas, ao mesmo tempo, científica, terminou a descrição tocante do seu último feito dizendo: «A mente e o corpo são inseparáveis, tanto quanto sabemos, mas a experiência sugere que não passam de ferramentas de valor inferior ao espírito, cujos propósitos servem».
O final desta história foi sereno e quando o seu pai, num momento notável de lucidez, comprometeu outros com o bem-estar da mulher que amava, «afundou-se numa demência tranquila, que se assemelhava a um sonho incoerente; a consciência nítida e a profundidade de sentimentos já não estavam presentes e nunca mais voltei a sentir angústia pelo seu mal-estar».
Lidar com a demência progressiva de alguém que amamos bastante, muitas vezes ao longo de anos, é uma das formas mais difíceis de enfrentar a sua morte. Quando o paciente está em casa, o que acontece a muitos, o cuidador ou o familiar que transfere o cuidado a profissionais, frequentemente apressados e sobrecarre­gados, enfrenta uma perda longa e difícil e frequentemente não recebe o apoio necessário.
Serão também alvo de ansiedade, depressão, raiva e desespero, e estes poderão ser exacerbados pela exaustão. A perda pode ser gradualmente aceite a nível intelectual, emocional e social e a agonia da separação reduzida também gradualmente, mas quando a morte finalmente chega, haverá ainda, quase de certeza, muito «trabalho de luto» por fazer.
Tal como o paciente que vai perdendo o controlo e que já não sente ser ele próprio, aqueles que perdem alguém têm um novo mundo por descobrir e aceitar. Não os podemos apressar a atravessar o entorpecimento, a dor emocional, a consciência progressiva do vazio da perda e a aprendizagem final de voltar a viver. Alguns necessitam de muita ajuda para expressar os seus sentimentos ao longo deste processo e podem precisar de autorização para pararem de se lamentar e de deixar que outros compromissos substituam esse vazio.
Aceitar uma perda intensifica a procura omnipresente do sentidos. O seguinte extrato de um diário ditado por Ramsey, que ficou cego e inibido de falar, devido a um tumor cerebral inoperável, mostra como se podem revelar novas perspetiva, e até mesmo novas fés, no ambiente de uma unidade de cuidados paliativos, e como morrer, assim como sofrer uma perda, pode, finalmente, conduzir a um novo crescimento:
«26 de Agosto de 1978: Surpreendentemente, acredito que vou encontrar um Deus. Não sei, exatamente, como é que isso irá acontecer, mas a sensação de que Jesus me encontrará e fará de mim tudo aquilo que eu sou, e mais ainda, não está distante e o facto de que Ele vem na altura em que mais preciso d'Ele, é igualmente surpreendente. Pensar que, em tão curto espaço de tempo e na minha situação, Jesus Cristo se aproxime de mim, para me cuidar, é da maior importância. Eu sei que será verdade. Annie está a escrever outra vez, assim como Jill. As pessoas que me conhecem amam-me e ficarão comigo para sempre. Todos me impressionarão. Apenas agora começo a aperceber-me, ao pensar em Deus, daquilo que Ele deve saber de mim e de quão significativo eu sou. Para mim, é bastante empolgante pensar no meu futuro e aperceber-me de que Jesus fará com que a minha vida funcione, de alguma forma, e isto é algo que eu gostaria de ter feito antes. Mas aquilo que me empolga ainda mais é a possibilidade de estender a minha vida neste mundo ou no próximo, de todas as formas que agora me são possíveis.
Viver a vida e viver a morte, pensei, era uma coisa estranha. Continuo a achar que o é. Quero tentar convertê-lo num espaço onde eu esteja com toda a gente, quando estiver morto ou vivo, um espaço que não irá mudar. Não sei como é que isto será feito, mas sei que assim vai ser. Não sei se vou morrer para sempre, mas sei que isso não interessa, pois as pessoas irão cuidar de mim e darei o meu melhor para cumprir tudo aquilo que Deus quer que eu faça. E isso é que interessa. Parece que estou a começar a minha vida com Deus e isso é fantástíco.»
A sintaxe de Ramsey perdeu-se mas aquilo que pretendia dizer é claro. Morreu duas semanas mais tarde, muito serenamente.
Todos nós precisamos de sentido nas nossas vidas e parece, a princípio, que enfrentamos a perda deste, quando enfrentamos a morte. A maioria das pessoas pensa sobre si própria através daquilo que fez, ao longo das suas vidas, e isso ajuda-as a perceber o seu lugar no mundo. À medida que as pessoas deixam de poder desempenhar o seu papel, tal como Ramsey não pôde continuar a ser produtor de televisão, grande parte da sua integridade parece desaparecer também. Como acontece a muitos outros, Ramsey, na sua resposta a uma situação completamente nova e extremamente dependente, encontrou uma nova identidade. O corpo parece ter uma sabedoria própria. Se seguirmos os seus ditames, à medida que os seus poderes diminuem, os do espírito podem encontrar novas forças e criatividade.
Aqueles que encontram uma verdade nova e duradoura nas suas vidas descobrem, tal como Ramsey o fez, que a vida pode ser entregue com esperança, não porque o eu seja indestrutível, mas sim pela confiança no Deus cujas mãos as seguram, tanto na morte como na vida. Aqueles que pensam que já não podem rezar por pura fraqueza podem apoiar-se na oração e no amor dos outros - «onde estou com toda a gente» - e, acima de tudo, podem confiar no Deus que conhece as nossas capacidades. O seu juízo, daqui em diante, é um «pôr tudo em ordem» e, acreditando que continuaremos a viver nas memórias daqueles que nos amam, podemos também acreditar que a nossa alma continuará a viver, seguramente, no amor invencível de Deus. E assim ganhamos confiança na comunhão de todos os Santos, a família de Deus.
Ramsey era invulgar, na medida em que conseguia exprimir isto na sua descoberta tardia de Deus. Muitos daqueles que não têm palavras, ou pelo menos nenhuma das expressões tradicionais, mostram, através da sua atitude, gestos e resposta aos que os rodeiam que estão a alcançar, confiadamente, aquilo que veem como sendo verdadeiro. Julgamos que este alcançar os aproxima da «Verdade».
Paula, jovem, loura e bela, tirou o crucifixo da cabeceira da sua cama e, no seu lugar, pôs um pequeno diabo vermelho e com chifres. Ofereceu-nos amizade e entretenimento durante semanas, mas, aparentemente, não tinha tempo para questões espirituais. Na sua última noite, perguntou à enfermeira em que é que ela acreditava. Quando esta lhe respondeu com uma simples declara­ção de fé em Cristo, Paula disse: «Não podia dizer que acreditava assim, não agora, mas será que posso dizer que tenho esperança?» Depois disto, removeu as pestanas falsas que usava durante o dia e a noite e entregou-as à enfermeira: «Já não quero mais isto.»
Mas o que acontece àqueles que não têm ou não aproveitam esta oportunidade? E aqueles que apenas sentem a ausência de Deus, quando estão fracos, ou sentem que perderam a sua fé? Alguns podem tomar as palavras do Nosso Senhor na Paixão, o «se for possível» de Getsemani e o «por que me abandonastes?» da Cruz, apoiando-se nelas, na escuridão. Outros, que não encontram a luz na vida, conhecê-lo-ão, certamente, na morte. (...)
«O fundamento mais importante para o St Christopher Hospíce é a esperança de que, ao zelar, ao cuidar dos doentes, devemos não só aprender a libertá-los da dor e da angústia, a compreendê-los e a nunca desiludi-los, mas também a estar em silêncio, a escutá-los e a simplesmente estar lá. Depois de aprendermos a fazer isto, descobrimos também que não somos nós os que fazemos o verdadeiro trabalho.»
Durante as duas décadas seguintes a isto ter sido escrito, o movimento de cuidados paliativos, um movimento que enfrenta a morte, doenças de evolução prolongada e o luto, progrediu muito. Os seus princípios básicos têm sido interpretados em muitos cenários diferentes e começou a ser integrado nos hospitais gerais e nos cuidados na comunidade. Esforça-se por acabar com a angústia terminal e o medo a ela associado, através da combinação de ciência clínica consistente e de atenção individual aos detalhes. Encara toda a família como a unidade de cuidados e tenta ajudar cada grupo a descobrir as suas próprias forças, à medida que partilham tanta verdade quanto possível sobre a situação.
Os profissionais deste movimento abriram-se às cóleras e aos medos que constituem a angústia dos moribundos e dos enlutados. Viram muitas pessoas fazer a viagem que começa com incredulidade, seguida de uma consciencialização gradual e, por fim, termina com a aceitação, e ofereceram-lhes a sua hospitalidade. Ao fazê-lo, compreendem que, muitas vezes, recebem mais do que dão, e que ganham novas forças e conhecimento, graças a estas pessoas. Enfrentar a morte é enfrentar a vida, e aceitar uma é aprender muito acerca da outra. Quando entendem isto, aprendem também que têm de partilhar, entre si, a sua própria experiência de perda e de mudança no trabalho.
 
Cicely Saunders
In Velai comigo, ed. Universidade Católica Editora
FONTE: SNPC
 

terça-feira, 25 de dezembro de 2012

Feliz Natal !

 
 
A grandeza da humanidade determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre. Isto vale tanto para o indivíduo como para a sociedade.
Uma sociedade que não consegue aceitar os que sofrem e não é capaz de contribuir, mediante a com-paixão, para fazer com que o sofrimento seja compartilhado e assumido mesmo interiormente é uma sociedade cruel e desumana.
A sociedade, porém, não pode aceitar os que sofrem e apoiá-los no seu sofrimento, se os próprios indivíduos não são capazes disso mesmo; e, por outro lado, o indivíduo não pode aceitar o sofrimento do outro, se ele pessoalmente não consegue encontrar no sofrimento um sentido, um caminho de purificação e de amadurecimento, um caminho de esperança.
Aceitar o outro que sofre significa, de facto, assumir de alguma forma o seu sofrimento, de tal modo que este se torna também meu. Mas, precisamente porque agora se tornou sofrimento compartilhado, no qual há a presença do outro, este sofrimento é penetrado pela luz do amor.
A palavra latina con-solatio, consolação, exprime isto mesmo de forma muito bela sugerindo um estar-com na solidão, que então deixa der ser solidão. Mas, a capacidade de aceitar o sofrimento por amor do bem, da verdade e da justiça é também constitutiva da grandeza da humanidade, porque se, em definitiva, o meu bem-estar, a minha incolumidade é mais importante do que a verdade e a justiça, então vigora o domínio do mais forte; então reinam a violência e a mentira.
A verdade e a justiça devem estar acima da minha comodidade e incolumidade física, senão a minha própria vida torna-se uma mentira.
E, por fim, também o « sim » ao amor é fonte de sofrimento, porque o amor exige sempre expropriações do meu eu, nas quais me deixo podar e ferir. O amor não pode de modo algum existir sem esta renúncia mesmo dolorosa a mim mesmo, senão torna-se puro egoísmo, anulando-se deste modo a si próprio enquanto tal

Papa Bento XVI
Ponto 38. Encíclica Spes Salvi (Salvos na Esperança)

domingo, 16 de setembro de 2012

Reflexões sobre a dor e o seu significado

Embora a dor seja uma das experiências mais comuns da vida, surpreende sempre e exige-nos continuamente aprender e a adaptar-nos às novas circunstâncias.

Ninguém pode considerar-se “perito” na dor; tem sempre uma dimensão de originalidade: na forma como se manifesta, nas suas causas e nas diversas reações que desencadeia. Muitas vezes encontramo-nos a sofrer profundamente por motivos e razões que nunca esperamos.


A principal peculiaridade da dor humana é que coloca uma questão existencial. «Dentro de cada sofrimento experimentado pelo homem, e também na profundidade do mundo do sofrimento, aparece inevitavelmente a pergunta: porquê? É uma pergunta acerca da causa, da razão; uma pergunta acerca da finalidade (para quê); enfim, acerca do sentido» (2).

Com efeito, quando se empreende a busca do sentido da dor, o ser humano questiona-se sobre o sentido da sua própria existência e procura aclarar o alcance e o significado da sua própria liberdade. «Posso recusar a dor? Posso, porventura, fixar uma distância da dor, eliminá-la? A dor imprime à vida o seu sentido efémero» (3).

Esta experiência humana move-nos a procurar a ajuda de outras pessoas e a oferecer, ao mesmo tempo, a nossa assistência. A experiência da dor ensina-nos a prestar mais atenção às outras pessoas (4). A dor marca a diferença entre uma pessoa madura e equilibrada, que é capaz de enfrentar obstáculos e situações difíceis, e uma pessoa que se deixa levar e absorver pelas suas próprias emoções e sensações.

A interação mútua entre a dor e o amor

A dor é um ponto de encontro entre a alegria da esperança e a necessidade da oração. Os cristãos aceitam a dor com a esperança de um gozo futuro. Estão plenamente conscientes dos seus limites e confiam na ajuda que se implora a Deus na oração.

(....)
Como afirma Viktor Frankl, a capacidade para sofrer faz parte da própria educação; é uma fase importante do crescimento interior e também de auto-organização (15).

Atualmente, a incapacidade para enfrentar a dor e o sofrimento, físico ou espiritual, provém precisamente da falta de “cultura do sofrimento”. Inicialmente, são os pais que temem enfrentar os filhos com o sacrifício. Como consequência, vêem-se tentados a dar-lhes tudo e de forma imediata. Pensam que haverá sempre tempo, mais adiante, para sofrer ou têm a ilusão de que esses momentos nunca chegarão para eles (16).

É difícil entender como uma pessoa pode resistir ao aparecimento imprevisto de uma dor intensa sem a ter experimentado antes. De facto, estas pessoas estão mais propensas a sofrer crises nervosas e depressões.

(...)

Os doentes são um tesouro


Converte-se num tesouro também para outros porque, ao cuidá-lo, praticam a virtude da caridade e enriquecem-se, desde que o cuidado que prestam seja o melhor que podem oferecer.


Profissionais em contacto com a dor

Não é fácil enfrentar a situação de pessoas que sofrem diariamente e, ao mesmo tempo, manter um interesse vivo pelos seus problemas e tristezas. Nestas circunstâncias existe o risco de manusear a dor de maneira anónima, procurando aliviar falsamente a atmosfera em que os profissionais da medicina devem viver diariamente.

Podem encontrar-se enfermeiros muito competentes para quem a dor já não afeta profundamente. Em lugar de ver o doente como um ser humano, com uma visão integral das suas necessidades, centram a sua preocupação no que se requer para responder às necessidades clínicas da pessoa.

Os médicos encontram-se também frequentemente em risco de considerar os doentes de um ponto de vista meramente pragmático, limitando a sua atenção ao diagnóstico e às opções terapêuticas.

Aparte o contacto com o doente durante as etapas de diagnóstico e planeamento de tratamento, os médicos são invisíveis, absorvidos por actividades administrativas, cursos, consultas com colegas e conferências.
(...)
Atualmente, os médicos esquecem com frequência a necessidade fundamental de estabelecer uma relação de verdadeira confiança com os seus doentes. Estes vêem-se estimulados a pôr a sua confiança mais nos medicamentos do que na pessoa que lhos administra.
A burocratização inapropriada na prática médica pode efetivamente destruir a relação médico-doente e reduzi-la a um mero intercâmbio de informação e prescrições, onde as estatísticas tomam o lugar da comunicação interpessoal.


Binetti------------------------


Notas

1. JOÃO PAULO II, Carta Apostólica, Salvifici doloris, 9.


3. C.S. LEWIS, Diario di un dolore, Milano 1990, p. 40.

15. Cfr. V. FRANKL, Homo Patiens, Brezzo di Bodero 1979, p. 98.

16. Cfr. A. MACINTYRE, Tras la virtud, Barcelona 1987, pp. 34-35.

terça-feira, 11 de setembro de 2012

Lei de Bases dos Cuidados Paliativos

A Lei de Bases dos Cuidados Paliativos- um importante instrumento legal para apoiar os doentes em fase terminal foi publicada em Diário da República.

Aqui

terça-feira, 4 de setembro de 2012

Naufragos da dor

As tempestades são sempre períodos longos.
Poucas pessoas gostam de falar destes momentos em que a vida se faz fria e anoitece, preferem histórias de praias divertidas às das profundas tragédias de tantos naufrágios que são, afinal, os verdadeiros pilares da nossa existência.
Gente vazia tende a pensar em quem sofre como fraco... quando fracos são os que evitam a qualquer custo mares revoltos, tempestades em que qualquer um se sente minúsculo, mas só os que não prestam o são verdadeiramente.
Para a gente de coração pequeno, qualquer dor é grande.
Os homens e mulheres que assumem o seu destino sabem que, mais cedo ou mais tarde, morrerão, mas há ainda uma decisão que lhes cabe: desviver a fugir ou morrer sofrendo para diante.
Da morte saímos, para a morte caminhamos. O que por aqui sofremos pode bem ser a forma que temos de nos aproximarmos do coração da verdade.
Haverá sempre quem seja mestre de conversas e valente piloto de naus alheias, os que sabem sempre tudo, principalmente o que é (d)a vida do outro, e mais especificamente se estiver a passar um mau bocado.
Logo se apressam a dizer que depois da tempestade vem a bonança, e que elas são tão fortes quanto passageiras... sem cuidarem de entender, ou se lembrarem sequer, que quem está a sofrer sente profundamente cada pinga de chuva que lhe molha e estraga o presente e os sonhos... e que depois de um pingo de chuva vem, quase sempre, outro e outro... e só um pingo será o último...
As tragédias tendem a suceder-se mais do que a intercalar-se.
Há quem viva uma vida inteira sem grande motivo para sorrir. Sem nunca ser feliz. Mas esse é, precisamente, alguém que merece mais do que os demais a admiração dos seus semelhantes. Admiração, porque heróis não são os que passam a vida a festejar, mas os que, ainda que cheios de frio, em noites escuras de trovoada, podendo até morrer à espera da manhã, acolhem a dor e a tristeza como coisas suas e vivem, apesar de tudo. De tudo. Com uma certeza: tudo tem sentido, mesmo quando não se sabe qual é.
Há homens e mulheres que passam as suas noites em desgraça viva e desperta, e enquanto os outros dormem, vêem o nascer do sol e sonham... bastando-lhes, por vezes, apenas um breve pedaço de vento na face, que sentem como um beijo, para que mais forças apareçam de onde não as havia, e se enfrente ainda mais um dia, sofrendo, doendo, mas vivendo.
A tristeza, que tantas vezes se combate, é um estado de alma mais denso e puro do que se costuma considerar. É mais real. Fugir dele será fugir do duro caminho que nos fará caminhar felizes, ainda que por entre incontáveis sofrimentos, aparentemente sem sentido.
Os antigos acreditavam em deuses que invejavam os homens que, mortais, viviam sem que o medo da morte os fizesse recuar.
Acreditavam também que não há vitória sem superação dos obstáculos, não há glória na fuga, nem na desgraça alheia.
Hoje, as gentes pensam de forma bem diferente. Dizem que basta, que há que reagir, para não nos deixarmos ir abaixo, que os momentos menos bons devem ser apenas oportunidades para o sucesso e outras tontices do mesmo nível.
O sofrimento é muitas vezes maior, e mais honroso, precisamente porque quase ninguém quer saber do que sente quem sofre, até porque, sendo partilhável, é contagioso... Mas dois heróis serão sempre mais do que um e nenhum deles está só.
Se o leitor conhece alguém que sofre, sente-se ou deite-se ao seu lado e, sempre em silêncio, deixe-se ficar.
A dor aproxima-nos da perfeição.
Por José Luís Nunes Martins
Investigador
Jornal "i"

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Cuidados paliativos e morte

Depois de 20 anos a trabalhar nesta área perdeu o medo de morrer?

Nunca estive a morrer, portanto tenho essa reserva. Mas mais do que medo de morrer tenho medo de não ser capaz de viver bem.

Quando as pessoas não querem falar ou pensar na morte não percebem que perdem
uma oportunidade para distinguirem entre o que é fundamental e o que é acessório.

Tenho lidado com milhares de pessoas em fim da vida e o que elas dizem é: “Se eu soubesse o que sei hoje, tinha feito de outra maneira.”


Diz que teria menos medo de morrer se tiver acesso a cuidados paliativos. Que balanço faz da realidade nacional?

Temos 10 a 12% dos portugueses com acesso a cuidados paliativos. Temos portugueses a receber cuidados paliativos que não têm qualidade digna desse nome. Temos zonas do país – Leiria, Aveiro, Braga, Portalegre – onde não existe uma unidade credenciada de cuidados intensivos. Temos sítios em Lisboa com filas de espera de dois meses e meio, onde metade das pessoas não chegam a ter vaga.

(...)

tenho uma vida melhor por trabalhar em cuidados paliativos. A noção de que um dia vou morrer ajuda-me a acumular património.


Isabel Galriça Neto
Entrevista i

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

terça-feira, 21 de junho de 2011

Cuidados Paliativos



Cuidados Paliativos no programa no Serviço de Saúde (RTP), aqui.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

APENAS DEZ POR CENTO TÊM ACESSO A CUIDADOS PALIATIVOS

APENAS DEZ POR CENTO TÊM ACESSO A CUIDADOS PALIATIVOS
Em Portugal, dez por cento das pessoas que necessita de cuidados paliativos
fica fora do sistema. Desconhecimento e excessiva burocratização são as
causas apontadas pata este panorama por Isabel Neto, presidente da assolação
do sector. Segundo Isabel Neto, que lidera a Associação Portuguesa de
Cuidados Paliativos (APCP), outra das causas deste défice é o facto de os

cuidados paliativos estarem integrados na rede de cuidados continuados, o
que torna o processo demasiado burocratizado, com tempos de referenciação
muito lentos, que não se compadecem com as necessidades dos doentes.

(Jornal de Notícias)

sábado, 21 de maio de 2011

Cuidados Paliativos em Portugal sem capacidade de resposta

Um estudo da Deco Proteste concluiu que os cuidados paliativos em Portugal são cada vez mais procurados, mas o sistema não tem capacidade de resposta, sendo que a situação está pior do que há cinco anos.

Ver mais aqui.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A dignidade do Homem ante a morte

Muitas vezes o pedido da eutanásia depende em boam medida da perda do significado da vida, da sensação de falta de dignidade de si próprio, do desespero existencial.

Para um doente é de grande importância que seja valorizado o essencial da sua pessoa por parte daqueles que tratam de si, e que seja valorizada a sua própria figura de marido, pai, avô, particularmente pela sua família e amigos.

A recuperação da dignidade pessoal do doente tem uma verdadeira valência terapêutica e mostra o grande significado que pode ter a humanização da medicina, em conjunto com a terapia da dor e dos cuidados paliativos.

O doente está atento ao olhar daqueles que o atendem, vê-se reflectido nesses olhos, percebe neles a sua dignididade.

O valor desta relações e, em particular, da relação médico-paciente, deve ser tida em conta, mais para além da mitificação do valor, também real, da autonomia do doente.
Estas perspectivas podem ajudar a comprender porque é que 20% dos doentes oncológicos holandeses pedem a eutanasia –que está legalizada aí–, enquanto que os doentes terminais que eram atendidos por madre Teresa de Calcuta declaravam que se sentíam "amados como filhos e tratados como reis".

Alfonso Carrasco Rouco

Bispo de Lugo

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Textos Rádio Costa D'Oiro dias 23 a 29 de Novembro



DIA 23 DE NOVEMBRO


Num mundo conturbado de violência e desigualdade social cabe a cada um de nós despertar para a realidade que permanentemente se desenrola aos nossos olhos: a pobreza e o sofrimento.
O Centro de Apoio ao Sem Abrigo (CASA), é uma associação sem fins lucrativos, inscrita como instituição de solidariedade social e tem por objectivo levar a cabo acções de solidariedade social, em particular dar apoio, alimentação e alojamento a favor de Sem-abrigo, crianças, adolescentes e idosos socialmente desfavorecidos, vítimas de violência ou maus-tratos, independentemente da sua nacionalidade, credo religioso, política ou etnia.
Tem sede em Lisboa e delegação em Faro, pretendendo, em abrir novas delegações no Algarve, em Albufeira e Portimão.
O número de refeições distribuídas diariamente pelo Centro de Apoio aos Sem Abrigo (CASA), em Faro, no Algarve, aumentou de 80 para 500 nos últimos 14 meses. Em face deste aumento, esta associações lança no Algarve desde o dia 20 até 31 de Dezembro, uma campanha de Natal denominada «Casa Mágica Solidária» para angariar cerca de dois mil brinquedos para crianças e para oferecer um almoço de Natal e cabazes de Natal a 600 carenciados do sotavento algarvio.
Poderá encontrar mais informações sobre esta associação e as suas actividades no site www.casa-apoioaosemabrigo.org/


DIA 24 DE NOVEMBRO
Constituir família continua a ser a resposta que colhe a maioria das respostas nos estudos de opinião acerca do que as pessoas desejam para as suas vidas ou ainda o que as pessoas indicam como factor determinante para a conquista da felicidade.
No entanto, os indicadores apontam em sentido bem contrário ao dos desejos expressos em tantas sondagens e estudos de opinião:
- redução do número de casamentos ,
- elevado número de divórcios (quase 30% dos casamentos),
- significativa instabilidade nas uniões de facto,
. aumento das famílias em situação de monoparentalidade (quase 12% das famílias).
Na verdade, a realidade está bem distante da expectativa expressa, do futuro sonhado.
Mas porquê esta divergência entre a meta e o realizado?
Dizia-me um advogado com larga experiência em casos de divórcio que o que mais o perturbava ao fim de muitos anos a lidar com casais desavindos, irreversivelmente desavindos, era a verificação que o que marcava a maior parte das discórdias era um punhado de coisa nenhuma: Insignificâncias acumuladas, desencontros e contratempos, silêncios, desencantos, cansaços, que um sorriso, uma palavra, um olhar atento, um segundo de atenção e vontade, teriam eventualmente impedido que a ruptura se instalasse.
Há quem defenda que a família está em crise, que a sociedade contemporânea requer formas mais versáteis e fluidas de vida comum que melhor se adequem à transitoriedade descomprometida das relações interpessoais dos nossos dias.Contudo, a sociedade, hoje como sempre, depende de comportamentos estruturados e estabilizados, fiáveis, indutores de segurança, promotores da indispensável coesão social.
A crise estará sim nas pessoas que perderam competências de relação, que desaprenderam que amar é também intuir o outro e sentir empatia, que desconhecem e descrêem que a vida comum depende da vontade de em cada dia construir uma vida em comum.
Este texto é da autoria de Maria do Rosário Carneiro, deputada da assembleia da República.


DIA 25 DE NOVEMBRO
O livro “Un enfant pour l’éternité”, de Isabelle de Mézerac, descreve a aventura emocionante de uma mãe diante do diagnóstico pré-natal de trissomia 18, e que decide continuar com a gravidez e acolher o seu filho condenado a morrer a partir do seu nascimento.
A leitura é muito difícil; para pessoas muito sensíveis e idealistas, é realmente doloroso. É muito duro seguir passo a passo esta mãe que quer com toda a sua alma o filho que leva no seu interior, e que está condenada a chorar a sua morte inexoravelmente anunciada.
Ao ler o livro, ficamos destroçados como ela, o seu marido e os seus filhos, diante da tormenta de sentimentos contraditórios que enfrentam penosamente durante esta espera.
“Ir o mais longe possível na relação com aquele que vai morrer, inclusive por tratar-se de um filho que vai nascer, deixa-nos tempo para dar tudo, dizer tudo e autoriza-nos a reerguer a vida”.
A dada altura, Isabelle de Mézerac dá o seguinte testemunho: “aceitar os limites da medicina, sem enganar, olhar o nosso sofrimento de frente, sem pretender esquivar-se, enfrentar a morte na sua hora, sem querer antecipá-la, é tudo o que aprendi com Emmanuel, e é por isso que reergo a vida!”.
Ela também nos confia a reflexão de um dos seus filhos, na noite da morte do seu irmão pequeno: “olhou-me intensamente, e através das suas lágrimas garantiu-me que agora sabia que eu o teria amado, até ao fim, mesmo se ele tivesse tido uma mal-formação!”.
A leitura deste livro causa-nos uma impressão violenta do mal-estar que rodeia a prática e o anúncio do diagnóstico pré-natal. Diante do conhecimento de uma malformação grave do seu bebé antes do nascimento, os pais encontram-se completamente vulneráveis, perdem a sua liberdade de escolha e encontram-se nas mãos dos cuidadores, os quais geralmente lhes propõem o aborto.
No caso de malformação mortal, o aborto é o normal, e a continuação da gravidez é uma alternativa que raramente é proposta pelos médicos.
Então, fica a recomendação - uma dose de realidade e de amor realista: Isabelle de Mézerac, Un enfant pour l’éternitéVale


DIA 26 DE NOVEMBRO

Esperanza Puente é uma autora espanhola que escreveu um livor para, nas suas palavras, dar a conhecer à opinião pública uma realidade social oculta- o aborto e para que se saiba o que uma mulher sofre quando aborta, para expressar o que é esta realidade: o que se vive e se sofre antes, durante e depois de um aborto provocado.
– E o que se sofre?
Antes do aborto, quando uma mulher está grávida, continua estando só, indefesa e desamparada. Ninguém explica que opções ela tem; ou que abortar não é uma solução, mas um grande problema; que há pessoas que podem lhe ajudar em suas preocupações...
Durante o próprio aborto sente-se dor e ruptura. É como uma ferida mortal que nos deixa devastadas por dentro, física e mentalmente.
Depois de acabar com a gravidez, o que sente é abandono, silêncio e solidão. Ninguém se interessa em escutar a mulher e tentar ajudá-la em seu problema, e isso acrescenta-se ao síndrome pós-aborto que ela já sofre. Em muitos casos, sofrer em silêncio , implica transformar a mulher numa espécie de «morto vivo», com ansiedade, pesadelos, culpa e auto-punição sempre que se olha para outras crianças e se recorda o filho que não se teve.


DIA 29 DE NOVEMBRO
Fala do Homem Nascido, de António Gedeão, retirado da obra Teatro do Mundo, de 1958


Venho da terra assombradado ventre de minha mãe

não pretendo roubar nada nem fazer mal a ninguém

Só quero o que me é devido

por me trazerem aqui

que eu nem sequer fui ouvidono acto de que nasci

Trago boca pra comere olhos pra desejar

tenho pressa de viverque a vida é água a correr

Quero eu e a natureza

que a natureza sou eu

e as forças da natureza

nunca ninguém as venceu

Com licença com licença

que a barca se fez ao mar

não há poder que me vença

mesmo morto hei-de passarcom licença

com licença com rumo à estrela polar

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

CUIDAR EM FIM DE VIDA


Colecção Ler para Cuidar nº2 José Carlos Magalhães - 188 páginas


ISBN:978-989-8218-07-0


Sendo a morte e o morrer também um produto socialmente construído, procurou-se a sua compreensão sob uma perspectiva sociológica no contexto da modernidade, abordando-se alguns contornos que revestem a experiência contemporânea de morrer. Elaborou-se uma resenha histórica do que foram os hospícios desde o século XIX e, mais detalhadamente a origem do movimento moderno dos cuidados paliativos. Procurando compreender o que são os cuidados paliativos, foram analisados alguns dos seus aspectos conceptuais. A partir de uma revisão bibliográfica sobre a enfermagem em cuidados paliativos, foram destacados alguns conceitos considerados essenciais e analisado como os enfermeiros em cuidados paliativos perspectivam as suas responsabilidades junto dos doentes em fim de vida bem como alguns dos constrangimentos que experimentam enquanto desempenham o seu trabalho. O enquadramento teórico é finalizado procurando salientar a importância da formação em enfermagem na área dos cuidados paliativos como um dos vectores centrais para o seu desenvolvimento.

COMO CUIDAR DOS NOSSOS EM FIM DE VIDA


Colecção Ler para Cuidar nº1Karen Macmillan, Jane Hpokinson, Jacquie Peden, Dennie Hycha - 200 Páginas


ISBN: 978-989-8218-06-3


A expressão «cuidados paliativos» descreve os cuidados e o apoio prestados às pessoas na fase final da vida. Quer uma pessoa passe os últimos dias de vida em casa quer esteja numa casa de saúde ou num hospital, os técnicos de cuidados paliativos e domiciliários, bem como os cuidadores pertencentes à família da pessoa doente, procuram melhorar a qualidade de vida desta última. Apoiam-na física, espiritual e emocionalmente, respeitando simultaneamente os seus desejos e a sua qualidade de vida. O guia prático sobre cuidados em fim de vida oferece aos cuidadores, pertencentes à família dos doentes, as informações médicas e de enfermagem de que eles irão necessitar, numa linguagem clara e acessível. Ajudá-los-á, assim, a entenderem a viagem que os seus entes queridos iniciaram, participando de forma eficiente e informada na equipa de cuidados paliativos e prestando um apoio físico, espiritual e emocional essencial. Fazer esta viagem com um ente querido pode ser difícil, mas também é uma das maiores dádivas que amigos e familiares podem compartilhar.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Vida e voluntariado em Cuidados Paliativos

Documentário sobre cuidados apliativos, aqui.

Voluntariado em Cuidados Paliativos, aqui.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Textos Rádio Costa D'Oiro de 7 a 15 de Setembro



7 de Setembro (3ª Feira)


Estás Grávida... Isso Assusta-te?Esta gravidez não veio no momento em que esperavas...
Encontras-te física ou psicologicamente incapaz de lidar com esta gravidez...
Não tens o apoio da tua família...Os teus pais expulsaram-te de casa...
O teu namorado/marido pressiona-te a abortar...
Não queres este bebé...
O pai do teu bebé desapareceu quando lhe contaste que estavas grávida...
Tens medo de que te despeçam...
Não tens condições para sozinha criares o teu filho...
Não tens casa para onde ir...
Estás ilegal...
Não sabes se tens direito a subsídios da segurança social...
Achas que não és capaz de cuidar do teu filho...
Estás desesperada sem saber o que fazer...
Não sabes a quem recorrer para te apoiar...Podemos e queremos ajudar-te!
Lembra-te que não estás só.
Nós estamos contigo!Queremos Ajudar-te!
Liga-nos: 800 20 80 90 (Ponto de Apoio à Vida) ou envia-nos um e-mail para pavida@sapo.pt
No Algarve, através de uma rede de contactos, também estamos presentes


8 de Setembro (4ª feira)


Para a mulher grávida em dificuldade, para além do apoio privado que as várias associações de apoio à vida que se encontram espalhadas pelo país lhe poderão dar, a Segurança social tem 2 subsídios que a poderão ajudar:
Um é o chamado Subsídio pré-natal que pode ser requerido a partir da 13ª semana da gravidez, bastando para o efeito preencher um impresso e juntar a declaração do médico e ao qual acresce uma majoração de 20% para as mães que vivam sozinhas com um filho anterior.
O outro é o abono de família a que tem direito após o nascimento do filho ao qual acresce também uma majoração que Para as mães que tenham o 2º ou 3º filho, a partir do mês seguinte ao nascimento até aos 36 meses de idade, no 1º escalão (isto é, mães com rendimentos mais baixos) poderá respectivamente ser de mais 65,30€ ou mais 97,95€ e para as famílias monoparentais, em que a criança vive só com um dos pais ou familiares, independentemente dos rendimentos, as mães passam a receber o valor do abono de família acrescido de mais 20%, à semelhança do que já acontecia com o subsídio pré-natal..
Em caso de dúvidas, ligue para a linha directa da Segurança Social 808 266 266

9 de Setembro (5ª feira)


A associação Existir é uma instituição de solidariedade social sem fins lucrativos e que tem como objectivos desenvolver actividades no âmbito de intervenção de populações deficientes com deficiências sensoriais, mentais, Orgânicos, multideficientes e pessoas desfavorecidas.
Encontra-se sediada em Loulé e foi constituída a 14 de Novembro de 1994. Esta associação desenvolve, neste momento, as suas actividades em 4 valências:Unidade de Reabilitação e Formação Profissional; Centro de Actividades Ocupacional Laboral; Centro de Actividades de Tempos Livres – Lua de Papel; e o Banco Solidário que, por sua vez, está subdividido em várias áreas de actuação tais como Gabinete de Cidadania, Fórum Sócio-Educacional, Banco Alimentar, Banco Roupa, Banco Mobiliário e Equipamento, Balneário Público e Lavandaria.
Para mais contactos contacte a página da associação “Existir” na internet.


10 de Setembro (6ª feira)


As mulheres grávidas que estejam, pelo menos, com 13 semanas de gestação e se encontrem em condições de ser beneficiárias do abono pré-natal e, em simultâneo, tenham já outros filhos que frequentem o ensino público e que já beneficiam do apoio social escolar mas em escalões inferiores, podem, ao abrigo da lei, solicitar que sejam reposicionados num escalão de apoio superior de forma a que, assim, possam obter para esses seus filhos maiores apoios sociais na escola.
O respectivo requerimento a solicitar a reavaliação e consequente reposicionamento, para melhor, do escalão do apoio social escolar do filho em idade escolar da mulher grávida de 13 semanas, deve ser apresentado junto do presidente do agrupamento escolar ou do director da escola, caso esta não esteja agrupada
Esta reavaliação, porém, não implica necessariamente o reposicionamento obrigatório para um escalão de apoio social escolar mais favorável uma vez que é à entidade competente que compete apurar e ponderar se as novas circunstâncias conjugadas agravam ou não a situação de carência anteriormente já existente.De qualquer forma, para quem está grávida, tem dificuldades económicas e já tem filhos em idade escolar pode e deve tentar pedir mais este apoio.


13 de Agosto (2ª feira)


Hoje em dia, parece que a família biparental heterossexual é um alvo a abater. Se há dúvidas nisto, basta ver como as mulheres estão fragilizadas nos seus postos de trabalho, na dificuldade em se manter um trabalho que dê segurança, na extrema dificuldade em comprar e manter habitação, na quase impossibilidade de, no início da carreira profissional, trabalhar sem ser em tempo parcial ou a recibos verdes, e na miragem de ter filhos. Em suma, para os jovens não há estabilidade e segurança, muito menos projectos que incluam a maternidade.
Nos últimos dias, foi aprovada a regulamentação da lei do apadrinhamento civil. À partida, parece ser uma lei que pretende dar um lar e uma estabilidade a tantas crianças que, não podendo ser adoptadas, ficam, desta forma, mais protegidas e com maiores garantias de crescer de forma equilibrada. Mas também aqui surge mais um estratagema sinistro: Sabemos que a adopção por casais do mesmo sexo foi expressamente afastada pelo legislador, na linha aliás, dos grandes especialistas que dizem que uma criança necessita de um pai e uma mãe para que possam crescer de forma saudável. Porém, a regulamentação da lei do apadrinhamento civil foi propositadamente adiada para dar tempo à publicação da lei que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo de form a 1ue estas possam também “apadrinhar” estas crianças. Ou seja, tenta-se fazer entrar pela janela, aquilo que não se quis fazer entrar pela porta.


14 de Setembro (3ª feira)
Cuidados Paliativos


Há poucos dias atrás, a associação portuguesa de cuidados paliativos, através da sua presidente, Dra Isabel Galriça Neto, emitiu um comunicado no qual denunciou as carências e dificuldades que ainda existem em portugal nesta área.
As pessoas não nascem sozinhas e também não devem morrer sozinhas e desamparadas no meio do sofrimento da sua doença terminal.
Diz esta associação que, por isso, é indispensável apostar na formação especializada de médicos e enfermeiros de forma a garantir a qualidade e a excelência dos serviços prestados ao nível dos cuidados paliativos. Além da falta de formação, continuam a faltar camas para os doentes terminais que, por isso, são muitas vezes mal acompanhados em centros de saúde que não têm condições para os acolher.
A associação dos cuidados paliativos denuncia igualmente que, apesar do governo ter afirmado que esta seria uma área prioritária na saúde, , em termos práticos, pouco ou nada se tem feito.
A 18 de Setembro próximo, a associação promoverá em Lisboa uma nova reunião das Unidades/Equipas de Cuidados Paliativos a funcionar em Portugal com o objectivo de fazer um balanço, detectar carências e exigir mais apoio governativo.


15 de Setembro (4ª feira)
Adolescência


Há uns tempos atrás, uma mãe de duas adolescentes desabafava, dizendo que a sua casa se tinha reduzido a um hotel com um caixa multibanco. As filhas estavam permanentemente a fazer programas com as amigas, pouco ou nada paravam em casa, pouco ou nada diziam da sua vida, exigindo apenas uma entrega quase diária de dinheiro para pagamento das suas despesas e diversões.
Entre muitos pais de adolescentes, floresce o sentimento de frustração. Porém, se o relacionamento entre ambos, desde antes, tiver sido franco e frontal, talvez seja mais fácil para os filhos, agora adolescentes, verem nos pais como confidentes e não como os “bota de elástico” que nada sabem da sua vida.
Em simultâneo com essa amizade entre pais e filhos, há que saber também compatibilizar a importância da liberdade dos filhos com a necessidade da responsabilidade pelos seus actos e omissões, em particular, a importância de uma correcta gestão dos recursos económicos.
A adolescência é um período complicado, mas que também pode ser muito bonito, um momento de maior partilha, intimidade e descoberta de novos mundos interiores e exteriores.