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quarta-feira, 6 de maio de 2015

Porque não educar a brincar !


Quando se quer ser professor é necessário tirar o curso de professor, quando se quer ser médico é necessário tirar o curso de médico, enfim, poder-se ia-se enumerar a imensidão de cursos necessários mas para se ser pai e mãe na verdade não existe um curso. No entanto, quando se adquire a condição de pai e mãe é para toda a vida e durante vinte e quatro horas por dia. A questão é mesmo se os pais estão preparados para tamanha responsabilidade!

Normalmente seguem os modelos de educação mais próximos que são os dos pais e dos irmãos. Alguns mais preocupados procuram informações nas diversas formas mas colocar em prática só mesmo eles. Cada qual educa o filho da forma que lhe parece ser a mais adequada, a mais sensata. Mas a correria diária é na maioria das vezes a grande traidora porque faz com que os pais fiquem com menos tempo e disponibilidade para seguir mais de perto o seu dia-a-dia.

É fundamental “entrar” no pensamento do filho para perceber certas atitudes que este tem. O filho que normalmente conta tudo torna-se mais fácil, o problema reside essencialmente no que não exterioriza optando por guardar todas as situações e na maioria das vezes não consegue resolvê-las causando-lhe momentos de grande ansiedade.

Eis a história de um menino que “numa saída da escola, assim que chegou junto do pai fez questão de lhe dizer que estava com muita raiva de um colega porque este estava constantemente a humilhá-lo e a critica-lo. Estava tão chateado que lhe desejava todo o mal. O pai ouviu-o calmamente e levou-o até ao quintal onde havia um saco cheio de carvão. Pararam e o pai disse-lhe: “Filho faz de conta que aquela camisa branquinha, que está a secar no estendal é o teu colega e cada pedaço de carvão é um mau pensamento teu para com ele. A camisa é o teu alvo portanto quero que atires todo carvão que está dentro do saco até ao último pedaço, depois eu venho ver como ficou”.

O menino com toda a raiva que tinha e recorrendo à sua força começou a atirar pedaço por pedaço mas o estendal estava longe e poucos eram os pedaços que acertavam no alvo.

Uma hora depois o menino terminou a tarefa. O pai que tinha estado escondido a observá-lo aproximou-se e perguntou-lhe como é que se estava a sentir naquele momento depois de ter esvaziado o saco. O filho aparentemente extenuado e com a garganta seca de cansaço prontamente lhe respondeu que mesmo cansado estava muito feliz porque tinha acertado em muitos pedaços de carvão na camisa.

O pai calmamente pegou na mão do filho e levou-o até ao seu quarto colocando-o à frente do grande espelho onde este se conseguiu ver por inteiro. Assim que viu a sua imagem o susto foi tão grande que recuou dois passos para trás pois apenas via o brilho do seu olhar e a brancura dos seus dentes.

O pai olhou para ele com um olhar marcante mas já habitual em certas situações, como tal, sabia que o que lhe iria dizer era muito importante. Não se enganou, o pai pestanejou e disse-lhe: “Filho viste que a camisa quase não se sujou, mas olha como tu estás. O mal que desejamos aos outros é como o que te acontece a ti.”

Este é um exemplo de um pai que conseguiu tornar uma situação séria num momento lúdico mas muito bem trabalhado. Certamente que este menino nunca mais se esquecerá daquele momento mas se o pai simplesmente lhe tivesse dito que não se deve fazer mal aos outros porque recai sempre para ele certamente que não teria qualquer efeito. Assim, o menino percebeu que “ quando alguém o magoa tem duas opções: se vingar e ser feliz por alguns minutos ou perdoar e ser feliz a vida inteira”. Perdoar é pois uma das chaves que abre a porta da felicidade ainda que no momento não seja fácil. E é nesse preciso momento que o papel dos pais faz toda a diferença no tipo de atitude que os filhos terão ao longo da vida. Como Khalil Gibran disse “os pais são como arcos por onde os vossos filhos, como flechas vivas, se projetam”.

 
anabelaviegasconceicao@gmail.com

Psicóloga Clínica

 

 

domingo, 9 de novembro de 2014

Divergente ou o desafio da educação




            Nos últimos tempos, têm surgido alguns filmes sobre adolescentes heróis e determinados que procuram ser um pouco o contraste daquilo que muitos adolescentes são na realidade. Estou-me a lembrar da série “Twilight” ou dos “Jogos da Fome”, todos com sequelas ou ainda do recente “The Giver”.

Há poucos meses atrás foi lançado mais um filme deste género, baseado nos livros de Veronica Roth – “Divergente”. A história deste filme fala-nos de um futuro onde as pessoas são, desde a adolescência, divididas em grupos de acordo com as suas características. Porém, existem pessoas que têm um pouco de cada um desses grupos, os chamados “divergentes” que põem em causa a harmonia do sistema e devem, por isso, ser eliminados.

Esta história faz-nos lembrar as várias personalidades de Fernando Pessoa e dos seus heterónimos e do facto de, todos nós, em momentos diferentes da nossa vida (às vezes, até do próprio dia), assumirmos, por vezes, personalidades e modos de comportamento diferentes ou até antagónicos.

O filme “Divergente” foi um sucesso de bilheteira, mas uma das criticas que lhe fizeram foi o facto do realizador ter investido um tempo excessivo na parte da preparação da heroína Tris dentro do grupo dos “Intrépidos” (defensores da cidade) em que se integrou. É que, após uma introdução acerca do contexto do filme, a maior parte do tempo é gasto a mostrar os treinos, exercícios e testes a que a heroína e outros iniciados desse grupo se sujeitam, sendo que a acção do filme acaba por se dar apenas nos últimos 15/20 minutos.

Achei interessante que o realizador tivesse colocado o assento tónico da questão da preparação e da formação da heroína, dentro de um grupo onde se cultiva a virtude da “audácia” numa dupla vertente, a física e a mental. Na física, pretende-se que o corpo esteja preparado para lidar com condições difíceis, onde o músculo, a perícia e a destreza sejam apuradas. Na mental, pretende-se sobretudo lidar com os próprios medos e superá-los com mestria e coragem. Em ambas é o esforço, a força de vontade e o sacrifício que fazem com que Tris prossiga e não seja eliminada, apesar das suas limitações iniciais. A acção (violenta e alucinante) só vem depois desta prepração.

A questão da preparação, do treino e da educação é muito importante, não só a preparação física e teórica, mas sobretudo a formação mental. Parece que poucas pessoas se aperceberam ainda que a vida é um enorme campo de batalha onde, progressivamente, somos confrontados com desafios ao nível pessoal, familiar, económico, social e profissional. Quem não está preparado será facilmente trucidado e andará aos caídos, sem rumo e sem competências pessoais e sociais que lhes permitam singrar na vida. Outros há, poucos, que mesmo sem preparação conseguem vencer ou sobreviver. Uma educação permissiva, frouxa e flácida dá-nos uma juventude mole, sem resiliência e um país sem futuro.

Por tudo isto (e este filme recorda-nos isso), é muito importante apostar na educação integral dos mais novos que passe também por sujeitá-los a condições exigentes de auto-controlo, de confronto com as frustrações exógenas ou endógenas e, sobretudo, de superação dos próprios medos e fantasmas, mas sempre segundo ideais de altruísmo e positividade. E este treino tem de se prolongar pela vida fora.

É uma questão de sobrevivência não só pessoal, mas da própria espécie.

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Educação parental: Boas Práticas

A CPCJ de Vila do Bispo vai organizar no próximo dia 24 de Outubro o seu II Seminário sobre a temática “Educação Parental: Boas práticas”, que pretende reflectir sobre diversas práticas profissionais desenvolvidas no âmbito de Programas de Educação Parental, em diferentes contextos de intervenção.
Esta iniciativa terá lugar no auditório do Centro Cultural de Vila do Bispo e contará com oradores de grande valor e com muita experiência nesta área. A participação é gratuita e sujeita a inscrição até ao dia 20 de Outubro, através de e-mail ou telefone.
Em anexo enviamos o cartaz de divulgação com o respectivo programa e o desdobrável com ficha de inscrição.
Solicitamos a vossa colaboração na divulgação desta iniciativa, junto de colaboradores e/ou outros contactos privilegiados.
Para qualquer informação adicional não hesite em contactar-nos através do telefone 282 639 059 ou cpcjviladobispo@cm-viladobispo.pt
Com os melhores cumprimentos,
Pela CPCJ Vila do Bispo
Carla Agostinho

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

A educação em família

Livro em português, com 21 temas, sobre "Educação em Família"
Disponível em PDF e também para itunes e Google play

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Mais 2.500 casos de jovens em risco no ano passado

 
 
 
Enquanto os governos e os deputados continuarem a promover a degenerescência da família bi-parental estável, a Segurança Social continuará a ser massacrada e o país continuará pobre e em crise permanente

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Contra a anomia, marchar, marchar !!!



Anomia. Será que alguém sabe o que significa “Anomia”?

A anomia é uma palavra generalizada por Émile Durkheim, a propósito do suicídio e significa um estado de desorientação, de falta de objetivos, de identidade e motivação.

É o oposto da resiliência e da pro-atividade. Há uns dias atrás, numa visita de estudo de estudantes do Ensino Secundário, contavam-me que um rapaz com cerca de 17 anos, ao pequeno-almoço, no hotel ficava parado e não se mexia. Um dos professores, intrigado, apurou que a mãe desse aluno é que lhe prepara tudo e, por isso, ele não sabia cortar um pão, barrar a manteiga, preparar um café com leite. Chocante, mas verdadeiro.

A Juíza Beatriz Borges, com quem já tenho participado em várias sessões no Tribunal de Família de Faro em Março de 2011, numa conferência para pais e professores, aludiu à problemática do adulto infantilizado em que “a imaturidade dos pais apresenta repercussões na capacidade de contenção dos filhos, quer ao nível do consumo de bens supérfluos, quer no cumprimento de regras básicas de saúde, educação e convivência que se espelha em aspetos tão básicos como a falta de pontualidade e assiduidade na escola”.

Continuou a Magistrada Judicial, “Assistimos a uma regressão do estado adulto em que os pais se comportam como adolescentes ao invés de se apresentarem como um modelo para as crianças e em que desculpabilizam os comportamentos desadequados dos filhos imputando a terceiros (incluindo a escola) a falta de educação dos seus descendentes”, criticou.

Um dos pontos concretos onde isso se nota muito é a forma como os jovens não ajudam em casa. Chegam a casa, atiram um sapato para um lado, as meias para o outro, deixam a mochila no chão e deitam-se a jogar playstation ou a enviar mensagens nos seus smartphones. Os pais, seus criados, é que preparam as refeições, limpam os pratos, lavam-lhes a roupinha e dão-lhes dinheiro para o tabaco e as borgas à noite.

Há que obrigá-los a ajudar em casa, a colocarem os talheres na mesa, a limparem os seus pratos depois das refeições, a ajudarem a estender a roupa, a guardar a loiça lavada, a arrumarem a sua roupa, etc.etc..

A nossa vontade, já de si, por natureza, é mole, como um pudim. Se a essa moleza, se confere e lhe dá mais moleza ainda, é um desastre quer ao nível profissional, quer ao nível familiar.

Por exemplo, aplicando o conceito de anomia ao nível da saúde sexual, dizia há uns anos um conhecido médico infectologista brasileiro David Uip, director do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo que as coisas acontecem de forma não planeada e meramente institiva, isto é, sem um enquadramento próprio. Segundo, estes especialista, a prevenção das doenças (neste caso das DST) está na educação do impulso e da vontade. Não está na mera informação acerca da prevenção. Dizia este especialista, numa entrevista, “O que determina o comportamento é o impulso”. E vai mais longe “O impulso é maior que o medo”. Por isso, diz ele, “Comportamento você não muda com campanha, com informação. Você tem uma chance com a educação continuada, desde a fase pré-adolescente”. Por isso, remata, “A família precisa conversar. Mas trabalhamos muito, temos pouco tempo, o que cria distanciamento. Entendo que é difícil estabelecer uma forma de abordagem. Isso vai muito da maturidade do pai e da mãe, do convívio, da cumplicidade. Essa é a palavra-chave. Primeiro tem que aprender a conversar com o filho. E, antes, tem que aprender a ouvir. O grande truque é saber ouvir o que não está falado. Isso requer um treinamento. Humildade”. Um desafio, diga-se, nem sempre fácil de levar à pratica. .

Contra a (nossa) anomia (e a deles), marchar, marchar, marchar !

Miguel Reis Cunha

sábado, 15 de março de 2014

Educar em coligação

 
 
O grande desafio da educação dos filhos do ponto de vista das mães é que os filhos também são educados pelas pais e o grande desafio da educação dos filhos do ponto de vista dos pais é que os filhos também são educados pelas mães. Raramente um dos pais tem o poder absoluto. Qualquer pai é obrigado a educar em coligação, o que força necessariamente a acordos, negociações, cedências, discussões, amuos ou divergências profundas. Na educação, o acordo entre as partes é fundamental ou a criança desgoverna-se, o governo cai, a anarquia instala-se e não há manifesto, mesmo que sejam 700 os anciãos subscritores, que meta ordem na casa.
O principal fado dos pais é mesmo este: negociações permanentes. Começa logo com o nome. A escolha do nome é quase a mesma coisa que a escolha do ministro das Finanças num governo de coligação: quem tem mais força foi quem escolheu Vítor Gaspar, por exemplo. Com os pais é a mesma coisa: quem escolhe o nome do primeiro filho está em vantagem. O segundo já é como a escolha do ministro da Economia, por exemplo - é importante, mas pronto, é o segundo.
Mesmo quando não é combinado explicitamente, também entre os pais se distribuem pelouros. Nas regras do estudo manda um e nas regras da televisão manda outro; para dar palmadas há um com mais aptidão, mas para neutralizar as birras recorre-se ao mais pacífico; nas conversas sobre temas existenciais, depende dos temas; quando é para mandar para a cama, há sempre um que tem a palavra final e para as doenças há o pai que fala com o médico de forma racional e o outro encarregado dos mimos; também no que toca à generosidade há o mãos- -largas e o forreta.
Se cada um souber o seu lugar e se estiverem os dois dispostos a ceder e a negociar, a criança lá vai sendo educada; se não souberem, a criança prepara motins diários e a principal missão dos pais deixa de ser educar e passa a ser a manutenção da ordem doméstica. Instala-se o estado de sítio, portanto.
Ora para evitar a anarquia é por isso importante que os pais entrem em negociações e cedências permanentes. Estafante, é verdade, mas numa coligação nada é fácil.
Quando os pais discutem sobre os seus pelouros, ou seja, quando o pai das regras do estudo quer proibir a criança de jogar computador porque ela teve negativa a Matemática e outro está contra, os pais entram em conversações. E o melhor é fazer como os ministros que se fecham em Conselho de Ministros e só sai cá para fora o que interessa que se saiba. Também os pais devem conversar à porta fechada até chegarem a um entendimento e só depois comunicar à criança se ela pode ou não jogar computador apesar da negativa a Matemática. É fundamental que a criança não assista à discussão, porque se a decisão for em seu desfavor ela vai fazer tudo por tudo para denunciar o acordo alcançado usando os argumentos que a mãe ou o pai usaram em seu favor. E está tudo estragado. Deixar uma criança assistir a uma negociação entre os pais é a mesma coisa que um governo deixar a CGTP ou a comunicação social assistir a um Conselho de Ministros em que se discute o corte das pensões. É convidar o caos.
Os pais, ao contrário dos governos, não podem ser demitidos, demitir-se, romper coligações e nunca vão a eleições. Por isso, educar filhos é trabalhar em permanente coligação apesar das contestações, das birras e das tendências de cada um. É que nas famílias os pais não caem, quem cai são os filhos. A alternativa é fazer como eu: encontrar um marido que é um pai carismático, daqueles que raramente se enganam, nunca têm dúvidas mas confiam na sogra.
Inês Teotónio Pereira
ionline, 2014-03-15
 

domingo, 9 de março de 2014

Nova geração de líderes precisa-se!

“A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”, afirmava Nelson Mandela.
A frase, sobejamente conhecida, serve para dar o mote ao artigo que se segue, escrito por Christopher Gergen, CEO da Forward Impact, professor de Inovação e Empreendedorismo na Duke University e membro do Center for Creative Leadership e por Lyndon Rego, director global do Center for Creative Leadership’s Leadership Beyond Boundaries, uma iniciativa que tem como objectivo conferir uma maior escala ao desenvolvimento da liderança no mundo.
“O que é possível fazer para desenvolver uma nova geração de líderes competentes e com espírito empreendedor nas nossas escolas? São muitas as palavras ocas que utilizamos ao serviço de ideias como a “aprendizagem do século XXI” ou o “desenvolvimento da liderança empreendedora”, mas a realidade é que a vasta maioria das escolas não prepara, de forma adequada, os seus estudantes para liderarem e colaborarem entre si de forma a criar uma mudança positiva no mundo. Felizmente, existem exemplos brilhantes de escolas com as quais é possível aprender – escolas que chamam a si a responsabilidade de preparar todos os seus alunos para virem a ser líderes ‘fazedores da mudança’.
Um exemplo destas escolas reside em Ahmedabad, na Índia. Um grupo de alunos do 5º ano da Riverside School trabalha numa fábrica, enrolando, de forma entediante, os paus de incenso tradicionais, ao longo de oito horas. E isto não é uma forma de trabalho escravo, mas uma importante lição curricular idealizada pela escola para ensinar empatia. As crianças deixam a fábrica exaustas, mas também despertas para as necessidades do mundo e, muitas vezes, sentindo o peso de se comprometerem em fazer algo sobre o trabalho infantil.
Em Joanesburgo, na África do Sul, líderes emergentes de todo o continente participam em sessões laboratoriais na African Leadership Academy, onde lhes é ensinado os princípios do “design thinking”, ao mesmo tempo que apreendem, de forma aprofundada, as necessidades das suas comunidades locais e desenvolvem e implementam soluções sustentáveis através do Student Enterprise Program que a escola oferece.
Saltando para um outro continente, na Ravenscroft School, em Raleigh, Carolina do Norte, os estudantes entre os 5 e os 18 anos são expostos a lições ou experiências nas quais treinam as suas competências de trabalho em equipa e colaboração, inovação e execução, capacidades inventivas e persistência adaptativa, enquanto se empenham a colocar os seus projectos de mudança em acção.
Na WeSchool e na iFEEL, uma escola de negócios sedeada em Bombaim, na Índia, um programa de sete meses denominado Global Citizen Leader oferece, como trabalho aos seus alunos do primeiro ano, uma compreensão aprofundada no que respeita à vida dos pobres e a co-criação de soluções para o alívio da pobreza. Uma avaliação formal realizada no final do programa comprovou que 92% dos alunos afirmaram sentir uma consciencialização social muito maior, bem como níveis de empatia muito mais elevados. Adicionalmente, 80% destes mesmos estudantes indicaram ter disponibilidade para abordarem desafios sociais sentindo, ao mesmo tempo, que tinham adquirido capacidades para criarem a mudança.
Os esforços pioneiros destas escolas estão, propositadamente, a incorporar a liderança ‘fazedora de mudança’ na jornada educativa de todos os seus estudantes através da implementação de uma estratégia integrada, profunda e sistémica, a qual, ao envolver todos os estudantes, os prepara para serem líderes motivados e movidos pelos ‘resultados’. Adicionalmente, estas mesmas escolas reconhecem que preparar os estudantes para se tornarem líderes efectivos e esclarecidos é crucial para as suas possibilidades futuras de emprego, para terem vidas plenas de significado e para oferecerem o seu contributo efectivo para uma sociedade que vive tempos crescentemente difíceis.

© DR
A necessidade de se pensar diferente no que respeita a preparar os mais novos para o futuro é estimulada por um conjunto de grandes forças. Uma é a da própria geração millenial. Cerca de metade dos habitantes actuais do planeta têm menos de 30 anos. Estas centenas de milhões de jovens nascidos na era digital são os mais informados e mais relacionados/interligados de sempre. Habituaram-se a viver numa era de democracia disseminada, com expectativas de liberdade e igualdade. Têm consciência e sentem-se angustiados devido ao estado ambiental, económico e político em que se encontra o mundo. A mudança é algo que ocupa significativamente a sua mente: o mundo que temos não é aquele que desejam. O interesse dos jovens em contribuir para a mudança está expresso no “surto” de programas de empreendedorismo social que existem em muitas universidades e no facto de irem, em massa, para as ruas, defendendo causas diversas: contra a disparidade económica no movimento Occupy nos Estados Unidos, pela representação política na Primavera Árabe, contra a corrupção em Lokpal Bill na Índia e pela educação acessível no Movimento Estudantil Chileno. Estes movimentos representam a prontidão dos jovens em se organizarem e vocalizarem as suas preocupações.
Todavia, e apesar de estes jovens desejarem e esperarem mais, as suas oportunidades são elusivas. O crescimento do emprego não está a acompanhar o ritmo das escolas e dos alunos com estudos superiores. O estado actual do desemprego jovem é igualmente dramático face à recessão económica que caracteriza muitos países europeus, com taxas de desemprego [jovem] superiores a 50% na Espanha e na Grécia, por exemplo.
A inexistência de empregos é agravada pela ausência de competências entre aqueles que têm bons níveis de educação. Os empregadores declaram, a nível global [veja o artigo no VER – Como sair do vale do desemprego – que se concentra exactamente nesta questão] que as instituições educativas não estão a preparar, de forma adequada, os jovens com as competências necessárias e exigíveis pelos empregos que se encontram disponíveis. E este défice é mais aprofundado na área das soft skills [também no VER, o artigo “O desencontro entre a oferta e a procura” foca também esta temática]. Em “Expanding the Leadership Equation”, um inquérito realizado pelo Center for Creative Leadership sobre as competências da força laboral, os executivos nomearam a automotivação, a comunicação, a agilidade na aprendizagem, o autoconhecimento e a adaptabilidade como as competências essenciais exigidas para o sucesso no ambiente laboral da actualidade. Adicionalmente, 90% dos entrevistados indicam que o desenvolvimento das competências de liderança deverá ser iniciado antes dos 18 anos.
Existe assim uma necessidade urgente de os jovens desenvolverem estas competências práticas exigidas pelos empregadores. Nas instituições educativas já mencionadas – tal como a Riverside School, a African Leadership Academy, a Ravenscoft e a WeSchool, - o enfoque é exactamente na agilidade em termos de aprendizagem e a aplicação prática dessa mesma aprendizagem. Mais importante ainda é o facto de estas escolas privilegiarem o envolvimento social como um meio de desenvolver a criatividade, a colaboração, a comunicação e a resiliência. Para os próprios estudantes, a “auto-clareza”, o relacionamento e a capacidade de colocar ideias em acção para uma mudança sustentável e positiva são as competências de que precisam para viverem uma vida bem direccionada e com significado.
Precisamos que mais escolas – ou melhor, que todas as escolas – se afastem dos modelos tradicionais de ensino “de cima para baixo”, com poucas oportunidades de experimentação de solução de problemas, autodescoberta e co-criação colaborativa. Precisamos de um novo futuro no qual o desenvolvimento de uma liderança empreendedora esteja integrado em qualquer que seja a faceta de aprendizagem, e para todos os alunos. As exigências do mundo são demasiado grandes para que se evite esta mudança. Temos já modelos que estão a funcionar bem. É tempo agora de interligar este trabalho e começar a implementá-lo, em grande escala e globalmente

Fonte: VER

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Como educar os nossos filhos para a maturidade psicológica ?



Salud, dinero y amor.
Tres constantes que históricamente han moldeado y condicionado la felicidad.
Sin embargo, hay estudios psicológicos que desmontan las virtudes de este presunto trinomio de plenitud frente a un parámetro que se sucede en todas las culturas, sociedades y épocas: la actitud positiva ante las circunstancias, ya sean de dolor o de dicha. El doctor Fernando Sarráis (Mérida, 1958), licenciado en Psicología y especialista en Psiquiatría de la Clínica Universidad de Navarra y profesor de Psicopatología de la Educación y Psicología Social en la Universidad de Navarra, disecciona en su nuevo libro ese parámetro de felicidad, cuyo secreto, tan sencillo como complejo, reside en el interior de las personas, en la madurez psicológica. "Se puede ser físicamente muy adulto pero ser como niños por dentro, muy inmaduros", asegura. Madurez psicológica y felicidad (EUNSA) nos recuerda que el camino hacia la plenitud también está en saber sufrir.
¿Madurez psicológica y felicidad son sinónimos?
El libro da pistas sobre qué es la madurez y cuál es la razón de la inmadurez, sabiendo que las personas maduras tienen muchas más posibilidades de ser felices. Los inmaduros, que es una palabra del lenguaje vulgar, se han llamado de manera técnica, neuróticos. En los investigadores de la personalidad existe una dimensión de la personalidad casi universal que todas las personas tienen, una dimensión bipolar: tiene una parte positiva, que es el autocontrol, y una parte negativa que es el neuroticismo. El neuroticismo se caracteriza por tener emociones negativas, muy constantes y muy intensas. Y las emociones negativas son las que dominan en personas neuróticas, es decir, inmaduras.
¿Cómo son esas emociones negativas?
Son aquellas que dificultan el funcionamiento psicológico adecuado, es decir, la razón con la voluntad libre. Una persona con miedo al avión, no es libre para montar en un avión. En cambio las emociones positivas como la alegría, la tranquilidad, la seguridad favorecen el pensamiento racional y libre. Por algo tan sencillo como que cuando hay emociones positivas no hay negativas que lo dificulten. Con las emociones negativas el sujeto es pasivo. En las positivas, el sujeto tiene que ser activo, pelear para expulsar las emociones negativas. Y una persona que tiene habitualmente emociones positivas puede funcionar con la razón y con la voluntad libre.

Educación hipertrofiada

¿Y el problema de fondo es que vivimos en una sociedad esencialmente inmadura y por tanto, neurótica?
Sí. Es una sociedad que prima el placer. Y el placer es sentirse bien para no sentirse mal, de manera que lo importante es el sentimiento, la afectividad, no la razón y la voluntad. Cuando hipertrofiamos a nuestros niños para que no sufran, para que no se sientan mal, lo más probable es que les generemos el miedo a sufrir. Y la única manera de quitar el miedo a las cosas que hacen sufrir es sufrirlas. El miedo a hablar en público se quita hablando en público. Si una persona se acostumbra desde pequeña a evitar las emociones negativas que le produce el mundo, de adulto le cuesta mucho más aprenderlo. Ahora mismo hay en psicología un término importado del inglés y que está muy de moda: la "resilience" o "resiliencia", es decir, ser resistente y fuerte, aguantar el impacto de lo negativo. En la búsqueda de la felicidad, en el autocontrol, hay una psicología positiva que se fundó en 1999 por un americano de Pensilvania, Martin Seligman.
¿Y cuáles son las claves de esa psicología positiva?
Seligman trata de enseñar a la gente a pensar, imaginar, sentir, percibir, recordar y comportarse en positivo. Si alguien se pone violento, podrá desahogar su ira, pero en el fondo se va a sentir mal. Porque nadie se siente bien cuando se ha portado mal. De manera que se trata de hacer cosas positivas que nos hagan sentir bien a corto y largo plazo. Pensar en positivo siempre me va a hacer sentir bien. Y sabiendo que el mundo, cuando es negativo, me va a suscitar pensamientos negativos, hay que hacer el esfuerzo de pensar en positivo. Es en realidad lo que dice el refrán: poner buena cara al mal tiempo.

Saber sufrir

Así que hay que aprender a sufrir
Sí. Hay que aprender a sufrir con buen humor, con paz y alegría. Los bebés, cuando tienen hambre o están sucios, lloran. A lo que hay que aprender, cuando se es adulto, esa estar contento cuando se tiene hambre y se está sucio. Las personas admirables sufren y nunca te dirán que han llevado bien ese sufrimiento. Sería vanidoso y orgulloso. Te dirán, "he hecho lo que he podido". Un ejemplo fácil de entender es el de los montañeros. Saben sufrir sin perder la paz y la alegría, que es la belleza interior, la belleza psicológica, la que tiene que ver con la afectividad.
Así que la madurez se muestra especialmente en las situaciones adversas. Porque usted dice en el libro que gente aparentemente madura, se rompe cuando algo va mal.
La madurez y la inmadurez tienen grados. Una persona que es tremendamente inmadura, lo es siempre y en todo lugar. Una persona con cierto grado de madurez, la tiene en las situaciones positivas. ¿Cuándo se nota si la madurez es sólo superficial o profunda? Cuando el mundo es duro y difícil, cuando hace sufrir y más puede hacer descompensar a una persona. Una persona muy inmadura se descompensa incluso sin razones. La madurez verdadera aflora en las dificultades. Y en el fondo, la madurez tiene que ver con la libertad. El ser maduro es más libre internamente. El inmaduro lo es sólo de forma externa, superficial, epidérmica. La libertad interior consiste en dominar desde la voluntad las funciones psíquicas: imaginación, memoria, percepción, pensamiento y afectividad. La verdadera libertad es la interior.
¿Pero no cree que muchas veces no nos han enseñado a vivir? Aquello que decía Kundera de que deberíamos vivir dos vidas: la primera como un ensayo de la segunda.
Uno aprende con la práctica. Para aprender a conducir, uno va a clases, tiene profesores, hace prácticas. En cambio, para ser feliz y vivir la vida, uno improvisa. Por eso es fundamental tener una formación teórica para trasladarla a la práctica. Con el ensayo-error se pierde mucho tiempo.
¿Y dónde está ese manual para saber vivir?
Hay mucha gente que son manuales vivos, personas que son muy maduras. La gente aprende por imitación. Se ponen tatuajes o piercings porque lo ven en los demás. De la misma manera, hay personas que te enseñan por su manera de vivir. En Internet encontramos 1.390.000 resultados para la búsqueda "madurez psicológica" y 7.030.000, en inglés. Hay mucha información, pero no hay interés.

No qué quiero ser, sino cómo quiero ser

¿Qué lugar ocupa la educación en la formación de una personalidad madura? Usted dice en el libro que se pregunta a los niños qué quieren ser, pero no cómo quieren ser.
Claro. En el colegio y en la universidad hay muchas horas dedicadas a aprender las distintas materias de conocimiento, pero no se enseña desde pequeño a quitar los miedos, las vergüenzas, a tener seguridad, confianza, autoestima... No se enseña a controlar las emociones. Hay jóvenes que fuman su primer porro por no ser tachado de cobardes por el resto de sus amigos. Actúan por miedo. Y no se puede esperar a que algo ocurra y que pase el miedo. Hay que trabajarlo día a día porque si esperas 10 años, ese miedo estará mucho más arraigado y será más difícil de eliminar.
¿Así que, como dice, la felicidad está en el autocontrol?
En el siglo XX ha habido muchos avances en el tratamiento de las enfermedades mentales. Nos hemos preocupado mucho de los enfermos mentales, los neuróticos... Y ahora, en el siglo XXI, ¿por qué no nos preocupamos de la excelencia, de lo ideal, de la felicidad, de la creatividad, del autocontrol, de los aspectos positivos, en definitiva? Todos coinciden: el factor más importante de la felicidad es la manera de ser. Y eso no se enseña en las aulas.
¿Y cuál sería la receta para tomar ese camino hacia la madurez, y por tanto, a la felicidad?
Lo primero de todo es ser consciente de que hay un problema o, mejor dicho, una tarea. Hay gente que no quiere saber asumir esa tarea, ya que supone sentirse mal. Segundo, querer ser maduro. Y para eso hace falta tener un motivo: ser feliz y ayudar a los demás a ser feliz. Hay que convencer a la gente de que la felicidad es algo muy valioso y que, como todo lo que vale, cuesta mucho. Tercero, tomar el camino del esfuerzo, porque haciendo lo que uno debe para ser feliz, también se va a encontrar bien. Y esto es como el Camino de Santiago: hay que andar todos los días, con frío, lluvia o cansancio. Porque quiero llegar a Santiago, a la felicidad.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

A primeira escola dos filhos

Em certa ocasião, um pai de família começou uma conferência com a seguinte pergunta ao auditório: «Sabem qual é a primeira escola que os filhos devem ter?». As respostas foram muito variadas: um infantário, uma creche, um jardim-escola.
«Nada disso» ― respondeu o conferencista. «A minha experiência de pai de uma família numerosa ― lá em casa somos dez: a minha patroa, oito filhos e este seu servidor ― é que a primeira e fundamental escola dos filhos é o amor entre os pais. De todas as escolas que conheço é a que melhor ensina a matéria mais importante: ensina a amar. Dessa "cadeira" depende a felicidade dos nossos filhos nesta vida e na futura».
É do amor mútuo entre os pais que procedem os filhos. No entanto, esse amor não pode permanecer somente no acto gerador inicial. Demonstra-se, sobretudo, nessa geração não biológica que é tão fundamental na vida de qualquer um de nós: a educação.
E é o amor entre os pais ― que se transmite aos filhos ― a primeira "escola" que educa lá em casa. Não só educa, mas dá coesão, transmite segurança e permite aos filhos crescerem e desenvolverem-se num ambiente saudável. Como alguém disse ― e com razão ― a família é sempre o melhor ministério da educação, da saúde e da segurança social.
Se há amor entre o pai e a mãe ― amor que se manifesta em detalhes de espírito de serviço todos os dias ― a atmosfera que os filhos respiram é de entrega e de generosidade. E estes dois conceitos possuem uma estreita relação com a capacidade de amar de cada um de nós. Sem entrega e sem generosidade não há amor ― há palavras bonitas, eflúvios sentimentais e nada mais.
Para se construir um lar amável, acolhedor e formativo é necessário o seguinte "material" fundamental: um pai, uma mãe, o amor entre eles e aos filhos. E o amor manifesta-se ― entre outras coisas ― na dedicação de tempo tanto ao cônjuge como aos filhos. Essa dedicação complementar é responsabilidade dos dois ― não só ou sobretudo da mãe. É bom não esquecer que os filhos, para crescerem harmonicamente, necessitam também da presença, amizade e carinho do pai.
É verdade que, por motivos graves, Deus dá a sua graça para suprir a forçada ausência de um dos dois progenitores na educação dos filhos. No entanto, o que não está correcto é a inibição ou a renúncia voluntária de um deles por comodismo, excesso de trabalho ou pouca paciência.
 
Pe. Rodrigo Lynce de Faria

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Obediência dos filhos

 
Inês Teotónio Pereira
ionline, 2014-01-18

São raros os filhos que acatam uma ordem sem discussão, sem debate, nem polémica ou mesmo sem birra. É assim e é transversal
Os filhos, à partida, não obedecem. Os filhos lutam pela sua liberdade, pela sua vontade, desde o dia em que tentam chegar a um cinzeiro para saber qual o sabor do vidro misturado com cinzas ou ameaçam deitar a televisão ao chão porque querem tocar na cara do pivô do telejornal. Desde muito, muito pequeninos que é assim. É assim desde o primeiro dia até ao dia em que finalmente desistimos e compramos um cão para podermos ver as nossas ordens verdadeiramente cumpridas. 
Os filhos, ao contrário dos cães, ou desobedecem ou discutem. São raros os filhos que acatam uma ordem sem discussão, sem debate, nem polémica ou mesmo sem birra. É assim e é transversal. E não é uma questão particular, individual, que tenha a ver com as características dos pais ou das crianças ou com a educação que lhes damos. Nada disso. A desobediência dos filhos tem a ver apenas com a sua condição de filhos. Um filho, por princípio, não obedece aos pais. No final do dia até pode ceder, depois de muito desgaste, algumas ameaças e uma ou outra palmada, mas o caminho que se tem de fazer para chegar a este estado de obediência é no mínimo desgastante. 
Os filhos só nos obedecem em duas circunstâncias: quando não têm alternativa ou quando até concordam com a ordem recebida. Tirando estas duas situações, temos luta. 
Por exemplo, no meu caso, não há dia em que a ordem de ida para a cama não seja motivo para se abrir um debate. Eles à partida contestam, refilam, argumentam e os mais novos até fazem uma ou outra birra. É assim desde sempre. Todos os dias. E é cada vez mais trabalhoso. Eles nunca querem ir para a cama sejam as horas que forem. Nunca têm sono, nunca é tarde e têm sempre qualquer coisa para acabar de ver ou para acabar de fazer. Por vontade deles nunca iam para a cama: caíam para o lado de exaustão e pronto. Por isso, todos os dias é preciso insistir, discutir, argumentar e no fim ordenar usando toda a autoridade que ainda nos resta no final de um dia. E o mais ridículo é que acabam por ir para a cama todos os dias à mesma hora. Não há discussão que lhes valha. 
Nós, pais, temos sempre aquela secreta esperança de que amanhã é que vai ser, que a desobediência é passageira, uma mera fase, que é da idade. Mas é mentira. Os nossos filhos não se curvam. O "sim, mãe" espontâneo é uma raridade. Nunca é sim. É sempre "porquê?", "agora não", "já vou", "não posso" ou apenas "não". Os filhos dizem mais vezes "não" aos pais do que os pais aos filhos. E muitas vezes vencem por desgaste do adversário, por falta de comparência da nossa parte. Por cansaço. 
Os filhos lidam mal com as ordens. E por isso o nosso exercício de poder paternal está condicionado pelo facto de termos um trabalhão dos diabos a dar ordens aos nossos filhos. Quando usamos o imperativo, a criançada agita-se, defende-se e prepara um motim. 
A única forma de aliviar a tensão, de tornar este processo de exercício de autoridade possível, eficaz, moderado e consistente é escolher bem as ordens que se dá e resistir ao cansaço, ser firme. Tendo em conta a atitude hostil dos nossos filhos às ordens, é fundamental sermos cirúrgicos com as que damos. Devemos de ser criteriosos e justos na selecção para conquistarmos alguma credibilidade como agentes da autoridade. Se abusamos, se abusamos da nossa autoridade, temos o mesmo destino que qualquer líder totalitário: só conseguimos obediência através da força. Uma estupidez, portanto.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

O mal que faz a discussão à frente dos filhos

Henrique Raposo
Expresso 4 de Dezembro de 2013

É uma cena que se repete vezes sem conta, no consultório, na rua, no café, no jardim: o pai a desautorizar a mãe que acabou de ralhar com o menino, a mãe a anular a ordem que o pai acabou de dar, pais a discutir a educação dos filhos à frente dos filhos, ou seja, os putos não recebem uma educação, assistem a um workshop. Há dias, no consultório pediátrico, um daqueles monstrengos que nunca ouviu um não parecia o Diabo da Tasmânia, limpava o chão com a roupa, tirava as folhas das plantas e, acima de tudo, estava naquela fase do pré-bullying no contacto com as outras crianças. Um amor. Às tantas, virou a atenção para um fio da mãe, transformando-o num ioiô. A mãe reagiu, colocou-o de castigo. Numa resposta pensada ao milímetro, o miúdo irrompeu num pranto que se ouvia no Marquês. Com a previsibilidade de uma cadelinha de Pavlov e fazendo exactamente aquilo que o garoto queria, o paizinho entrou em cena, retirou o fio das mãos da mulher e disse: "pronto, ninguém fica com o fio". Um verdadeiro Salomão.
Aquele pai não percebeu que tinha acabado de transformar a mãe numa espécie de irmã do seu filho, não percebe que o pai não desautoriza a mãe à frente do filho, e vice-versa. Sem o entrosamento entre Comandante e Imediato, o navio entra num motim. Vem nos livros, ou melhor, vem nos filmes. Esta malta nunca viu o "Caça ao Outubro Vermelho", esse prodígio da pedagogia? O Imediato repete sempre a ordem do Comandante e, quando discorda, chama o Comandante à parte para uma conversa longe dos ouvidos da canalha. Não, não estou a dizer que o pai é a voz de comando único. Sosseguem o facho progressista. O pai deve secundar as ordens da mãe, mesmo quando não concorda com elas, porque o importante é não desautorizar a mãe à frente do filho. Até pode achar que uma ida ao parque não faz mal, mas, se a mãe já disse que não, o pai tem de manter esse não. Sem esta renúncia, sem esta humildade, não há educação que resista e a vida em família transforma-se num inferno. 
Sem esta unidade entre pai e mãe, os garotos crescem sem educação, pior, aprendem logo a aproveitar as falhas na muralha paternal, tornam-se mestres na arte de atirar pai contra mãe e mãe contra pai, avó contra pai, sogra contra genro, nora contra sogro, periquito contra sogra, sogra contra hamster, um forrobodó de rancor provocado pela esperteza egoísta do petiz, uma esperteza alimentada pelo egoísmo do pai ou da mãe, que são incapazes de enfiar a viola no saco, de contar uma opinião divergente, de demonstrar um pedacinho de humildade. É por estas e por outras que educar crianças é a negação perfeita do nosso egoísmo pós-moderninho, da nossa obsessão com o eu, eu isto, eu aquilo, eu penso isto, eu gosto daquilo . Ter um filho é a némesis deste eu, porque exige a presença do nós, o casal. E, como não está para aturar esse nós, muita gente fica-se só pelo primeiro filho. 
Eu sei que muitos casais não têm mais filhos por causa da crise, mas a grande causa da crise demográfica não é económica, é de outra espécie. Por que razão já tínhamos poucos filhos antes da crise? 

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Como educar (bem) os filhos ?

 
 
Quando os pais, confundindo felicidade com bem-estar, centram os seus esforços em procurar que os filhos tenham tudo, que tenham todas as comodidades e que não sofram nenhuma contradição, esquecem-se de que o importante não é só amar muito os filhos – isso já costuma acontecer – mas amá-los bem. E, objetivamente, não é um bem para eles que encontrem tudo feito, que não tenham que lutar.  

A luta e o esforço que acarreta são imprescindíveis para crescer, para amadurecer, para se apropriar da existência pessoal e dirigi-la com liberdade, sem sucumbir acriticamente a qualquer influência externa.
 
(...)
Uma criança ou um jovem, abandonado aos gostos e inclinações da sua natureza, desce por um plano inclinado que termina por anquilosar as energias da sua liberdade. Se essa tendência não se contraria com uma exigência adequada a cada idade, que provoque luta, terão depois sérias dificuldades para realizar um projeto de vida que valha a pena.

Amar bem os filhos é pô-los em situação de alcançar domínio sobre si mesmos; fazer deles pessoas livres. Para isso, é inegável a necessidade de fixar limites e impor regras, que sejam não só cumpridas pelos filhos, mas também pelos pais.

Educar é também propor virtudes: abnegação, laboriosidade, lealdade, sinceridade, limpeza..., apresentando-as de forma atrativa, mas ao mesmo tempo, sem baixar a sua exigência. Motivar os filhos para que façam as coisas bem, mas sem exagerar, sem dramatizar quando chegam os fracassos, ensinando-lhes a retirar deles experiência. Animá-los a ambicionar metas nobres, sem lhes retirar esforço. E, sobretudo, é necessário fomentar a auto-exigência, a luta; uma auto-exigência que não se deve apresentar como um fim em si própria, mas como um meio para aprender a atuar retamente com independência dos pais.
 
A criança, o jovem, não compreende ainda o sentido de muitas obrigações. Para suprir a sua natural falta de experiência necessita de apoios firmes: pessoas que, tendo ganho a sua confiança, o aconselhem com autoridade. Necessita, concretamente, de se apoiar na autoridade dos pais e dos professores, que não podem esquecer que parte do seu papel é ensinar os filhos a desenvolverem-se com liberdade e responsabilidade
 
(...)
 
A autoridade dos pais diante dos filhos não provém de um carater rígido e autoritário; baseia-se antes no bom exemplo: no amor entre os esposos, na unidade de critério que os filhos vêem neles, na sua generosidade, no tempo que lhes dedicam, no carinho – carinho exigente – que lhes mostram, no tom de vida cristã que dão ao lar; e também, na clareza e confiança com que são tratados.

Esta autoridade deve exercitar-se com fortaleza, valorizando o que é razoável exigir em cada idade e situação, com amor e com firmeza; sem se deixar vencer por um carinho mal entendido, que poderia conduzir a evitar desgostar os filhos acima de tudo e que, a longo prazo, provocaria uma atitude passiva e caprichosa.  

Esconde-se um grande comodismo — e, por vezes uma grande falta de responsabilidade — naqueles que, constituídos em autoridade, fogem da dor de corrigir, com a desculpa de evitar o sofrimento a outros (...)[4]. São os pais quem deve guiar, conjugando autoridade e compreensão. Deixar que os caprichos dos filhos governem a casa revela, por vezes, o comodismo de evitar situações incómodas.

Com paciência, convém fazê-los ver quando agiram mal. Vai-se assim formando também a sua consciência, não deixando passar as oportunidades de ensinar a distinguir o bem do mal, o que se deve fazer e evitar. Com raciocínios adequados à sua idade, ir-se-ão dando conta do que agrada a Deus e aos outros, e os porquês.

Amadurecer exige sair de si próprio, e isto envolve sacrifícios. A criança, ao princípio, está centrada no seu mundo; cresce na medida em que compreende que não é ele o centro do universo, quando começa a abrir-se à realidade e aos outros.  
(...)
 
Terão que aprender o que custa ganhar a vida e conviver com pessoas com maior inteligência, fortuna, ou prestígio social; enfrentar carências e limitações, materiais ou humanas; assumir riscos, se querem abalançar-se a empresas que valham a pena; e lidar com o fracasso, sem que isso provoque o colapso pessoal.

O afã de lhes aplanar o caminho, para impedir o mínimo tropeço, longe de lhes causar um bem, debilita-os e incapacita-os para enfrentar as dificuldades que encontrarão na universidade, no trabalho ou na relação com os outros. Só se aprende a superar obstáculos enfrentando-os.

Não há nenhuma necessidade de que os filhos possuam tudo, nem de que o possuam logo cedendo aos seus caprichos. Pelo contrário, devem aprender a renunciar e a esperar; não é verdade que na vida há muitas coisas que podem esperar e outras que necessariamente devem esperar?
 
(...)
Um excesso de proteção, que afaste o filho de qualquer contrariedade, deixa-o indefeso diante do ambiente; esta atitude protecionista contrasta radicalmente com a verdadeira educação.

O termo educar deriva das palavras latinas e-ducere e e-ducare. A primeira etimologia está relacionada com a ação de proporcionar valores que conduzem ao pleno desenvolvimento da pessoa. A segunda é indicativa da ação de extrair dela o melhor que pode dar de si mesma, da mesma forma que o artista faz quando extrai do bloco de mármore uma bela escultura. Em qualquer das duas acessões, a liberdade do educando tem um papel decisivo.

Em vez de manter uma atitude protecionista, é conveniente que os pais proporcionem aos filhos a oportunidade de tomar decisões e assumir as respetivas consequências, de modo que possam resolver os seus pequenos problemas com esforço. Em geral, convém promover situações que favoreçam a sua autonomia pessoal, objetivo prioritário de qualquer tarefa educativa. Ao mesmo tempo, há que ter em conta que essa autonomia deve ser proporcional à sua capacidade para a exercer; não teria sentido dotá-los de meios económicos ou materiais que não sabem ainda empregar com prudência; nem deixá-los sozinhos diante do televisor ou a navegar na internet; como também não seria lógico ignorar os conteúdos dos videojogos que têm.

Educar na responsabilidade é a outra face de educar em liberdade. O afã de justificar tudo o que fazem, dificulta que se sintam responsáveis dos seus erros, privando-os de uma avaliação real dos seus atos e, como consequência, de uma fonte indispensável de conhecimento próprio e de experiência. Se, por exemplo, em vez de os ajudar a aceitar um baixo rendimento escolar, se culpam os professores ou a instituição académica, ir-se-á formando neles um modo irreal de enfrentarem a vida: só se sentiriam responsáveis do bom, enquanto que qualquer fracasso ou erro seria causado de fora.  

Alimenta-se desse modo uma atitude habitual de queixa, que culpa sempre o sistema ou os companheiros de trabalho; ou uma tendência para a autocompaixão e para a busca de compensações que conduzem à imaturidade.
(....)
A autoridade dos pais depende muito do carinho efetivo que os filhos sentem. Sentem-se verdadeiramente queridos quando ordinariamente se lhes presta atenção e interesse, e quando vêem que se faz o possível por lhes dedicar tempo.  

Neste contexto pode-se ajudá-los com autoridade e com acerto: quando se conhecem as suas preocupações, as dificuldades que atravessam no estudo ou com as amizades, os ambientes que frequentam; quando se sabe em que empregam o tempo; quando se vê como reagem, o que os alegra ou os entristece; quando detetamos as suas vitórias ou derrotas.

As crianças, os adolescentes e os jovens necessitam de falar sem medo com os pais. Quanto se avança na sua formação quando conseguimos que haja comunicação e diálogo com os filhos!
O segredo costuma estar na confiança. Que os pais saibam educar num clima de familiaridade, que nunca dêem a impressão de que desconfiam, que dêem liberdade e que ensinem a administrá-la com responsabilidade pessoal.

É preferível que se deixem enganar alguma vez. A confiança que se põe nos filhos faz com que eles próprios se envergonhem de terem abusado, e se corrijam. Pelo contrário, se não têm liberdade, se vêem que não se confia neles, sentir-se-ão levados a enganar sempre
[6].

Há que alimentar constantemente este ambiente de confiança, acreditando sempre no que digam, sem dúvidas, não permitindo nunca que se crie uma distância tão grande que se torne difícil de diminuir.

 (....)

Convém apostar fortemente na família; encontrar tempo onde parece não haver, e aproveitá-lo ao máximo. Envolve muita abnegação e, não poucas vezes, implicará sacrifícios grandes, que nalguns casos poderiam mesmo afetar a posição económica. Mas o prestígio profissional bem entendido faz parte de algo mais amplo: o prestígio humano e cristão, no qual o bem da família se situa acima dos êxitos laborais. Os dilemas, às vezes aparentes, que possam dar-se neste campo, devem resolver-se a partir da fé e na oração, procurando a vontade de Deus.

A virtude da esperança é muito necessária nos pais. Educar os filhos produz muitas satisfações, mas também dissabores e não pequenas preocupações. Não há que deixar-se levar por sentimentos de fracasso, aconteça o que acontecer. Pelo contrário, com otimismo, com fé e com esperança, pode-se recomeçar sempre. Nenhum esforço será vão, ainda que possa parecer que chega tarde ou não se vejam os resultados.  
(...)
Educar para a vida: tarefa de amor.

A. Villar

terça-feira, 24 de setembro de 2013

Ensinar os seus filhos a fotografar

Hoje em dia, crianças tão jovens quanto 6 ou 7 anos já expressam uma grande vontade de manejar os mais diversos tipos de eletrônicos: smart phones, câmeras digitais, laptops, etc. Por precaução, muitos pais optam por não permitir que seus filhos manuseiem tais objetos, que por vezes custam muito e podem se quebrar com uma simples queda.
Em contrapartida, os rápidos avanços tecnológicos muitas vezes impedem que usemos o mesmo eletrônico por mais de 2 anos sem achar que estamos defasados. Portanto, é possível que você tenha em sua casa uma máquina fotográfica digital que não use mais ou um telemóvel com câmara fotográfica que caiu em desuso. Se este é o seu caso, não hesite em utilizar esse velho eletrônico como instrumento para uma das atividades recreativas mais interessantes: fotografar.
Apertar um botão e enquadrar o fundo a ser fotografado pode não ser um grande desafio para seus filhos. No entanto, noções como foco, uso de claridade, luz solar e da opção macro podem ser opções que seus pequenos não entendam sem sua ajuda. Com isso em mente, organize uma visita ao parque ou country clube de sua preferência, onde você possa ensinar seus filhos a fotografar e ao menos tempo estar rodeada por paisagens interessantes que estimulem a criatividade deles.
O primeiro passo é ensiná-los a como usar o flash. Ensine-os que o flash possibilita aumentar a luminosidade quando o objeto a ser focado não tem muita luz incidindo sobre ele ou em ambiente completamente escuros. Permita que seus filhos tirem algumas fotos com ou sem flash para que eles concluam sobre a necessidade do mesmo e o estilo de foto que eles preferem.
Ensine-os também a tirar fotos de flores e insetos usando a opção macro. Explique que esta opção consegue focalizar objetos que estão bem perto com riqueza de detalhes.
Um outro aspecto importante da fotografia é o uso do zoom. Demonstre a seus pequenos como utilizar o botão que aproxima e distancia o foco da foto. Explique que, quanto mais se aproximar de um objeto usando o zoom, pior será a qualidade da foto.
Se a máquina fotográfica em questão não for muito antiga, você também terá a oportunidade de mostrar a seus filhos outras opções como: fotos preto-e-branco e sépia, fotos com focos no horizonte.
Atividades recreativas incluindo fotografia são garantias de diversão. Além de engajar as crianças, elas podem ver e avaliar o resultado de seu trabalho na tela do computador minutos depois das fotos serem tiradas.
Ademais, é uma ótima oportunidade de averiguar se seus pequenos possuem vocação para a arte de fotografar e ser fotografado.

Publicado no Portal da Família em 29/08/2013

sexta-feira, 20 de setembro de 2013

A regeneração da figura do pai e a violência na sociedade

 
 
É notória a crise da figura do pai na sociedade contemporânea. Por função parental, ele é o principal criador do limite para os filhos e filhas. Seu eclipse provocou um crescimento de violência entre os jovens nas escolas e na sociedade, que é exatamente a não consideração dos limites.

O enfraquecimento da figura do pai, desestabilizou a família. Os divórcios aumentaram de tal forma que surgiu uma verdadeira sociedade de famílias de divorciados. Não ocorreu apenas o eclipse do pai mas também a morte social do pai.

A ausência do pai é, por todos os títulos,  inaceitável. Ela desestrutura os filhos/filhas, tira o rumo da vida, debilita a vontade de assumir um projeto e ganhar autonomamente a própria vida.

Faz-se urgente um re-engendramento, sobre outras bases,  da figura do pai. Para isso antes de mais nada é de fundamental importância, fazer a distinção entre  os modelos de pai e o princípio antropológico do pai. Esta  distinção, descurada em tantos debates, até científicos, nos ajuda a evitar mal-entendidos e a resgatar o valor inalienável e permanente da figura do pai.

A tradição psicanalítica deixou claro que o pai  é responsável pela primeira e necessária ruptura da intimidade mãe-filho/filha e a introdução do filho/filha num outro continente, o transpessoal, dos irmãos/irmãs, dos avós, dos parentes e de outros da sociedade.

Na ordem  transpessoal e social, vige a ordem, a disciplina, o direito, o dever, a autoridade e os limites que devem valer entre um grupo e outro. Aqui as pessoas trabalham, se conflituam e realizam projetos de vida Em razão disso, os filhos/filhas devem mostrar segurança, ter coragem e disposição de fazer sacrifícios, seja para superar dificuldades, seja para alcançar algum objetivo.

Ora, o pai é o arquétipo e a personificação simbólica destas atitudes. É a ponte para o mundo transpessoal e social. A criança ou o jovem ao entrar nesse novo mundo, devem poder orientar-se por alguém. Se lhes faltar essa referência, se sentem inseguros, perdidos e sem capacidade de iniciativa.

É neste momento que se instaura um processo de fundamental importância para a jovem psiqué  com consequências para toda vida: o reconhecimento da autoridade e a aceitação do limite que se adquire através da figura do pai.

A criança vem da experiência da mãe, do aconchego, da satisfação dos seus desejos, do calor da intimidade onde tudo é seguro, numa espécie de paraíso original. Agora, tem que aprender algo de novo: que este novo mundo não prolonga simplesmente a mãe; nele, há conflitos e limites. É o pai que introduz a criança no reconhecimento desta dimensão. Com sua vida e exemplo, o pai surge como portador de autoridade, capaz de impor limites e de estabelecer deveres.

É singularidade do pai ensinar ao filho/filha o significado destes limites e o valor da autoridade, sem os quais eles não ingressam na sociedade sem  traumas. Nesta fase, o filho/filha se destacam da mãe, até não querendo mais lhe obedecer e se aproximam do pai: pede para ser amado por ele  e esperam dele orientações para a vida. É tarefa do pai explicar ajudar a superar a tensão com a mãe  e recuperar a harmonia com ela.

Operar esta verdadeira pedagogia é  desconfortável. Mas se o pai concreto não a assumir está prejudicando pesadamente seu filho/filha, talvez de forma permanente.

O que ocorre quando o pai está ausente na família ou há uma família apenas materna? Os filhos parecem mutilados, pois se mostram inseguros e se sentem incapazes de definir um projeto de vida. Têm enorme dificuldade de aceitar o princípio de autoridade e a existência de limites.

Uma coisa é este princípio antropológico do pai, uma estrutura permanente, fundamental no processo de individuação de cada pessoa. Esta função personalizadora não está condenada a desaparecer. Ela continua e continuará a ser internalizada pelos filhos e filhas, pela vida afora, como uma matriz na formação sadia da personalidade. Eles a reclamam.

Outra coisa são os modelos histórico-sociais que dão corpo ao princípio antropológico do pai. Eles são sempre cambiantes, diversos nos tempos históricos e nas diferentes culturas. Eles passam. 

Uma coisa, por exemplo,  é a forma do pai patriarcal do mundo rural com fortes traços machistas. Outra coisa ainda é o pai da cultura urbana e burguesa que se comporta mais como amigo que como pai e aí se dispensa de impor limites.

Todo este processo não é linear. É tenso e objetivamente difícil mas imprescindível. O pai e a mãe devem se coordenar, cada um na sua missão singular, para agirem corretamente. Devem saber que pode haver avanços e retrocessos; estes pertencem à condição humana concreta e são normais.

Importa também reconhecer que, por todas as partes, surgem figuras concretas de pais que com sucesso enfrentam as crises, vivem com dignidade, trabalham, cumprem seus deveres, mostram responsabilidade e determinação e desta forma cumprem a função arquetípica e simbólica para com os filhos/filhas. É uma função indispensável para que eles amadureçam e ingressem na vida sem traumas  até que se façam eles mesmos pais e mães de si mesmos. É a maturidade.
 
 
Leonardo Boff
13-9-2013