A Fotografia Não é Bonita
“Por fora parecem formosos, mas por dentro…” (Mt
23,27)
Passaram 52 anos sobre o 25 de Abril. Cinquenta e dois anos
de democracia, dezenas de governos, centenas de ministros, milhares de
promessas e uma sucessão interminável de discursos sobre o “Portugal que
queremos”. Pois bem: talvez esteja na hora de olhar para o Portugal que os
políticos que nos governaram ao longo destas cinco décadas deixaram.
E a fotografia não é bonita.
A classe política que governou Portugal durante décadas
gosta muito de celebrar Abril. Sobe ao palco, agita a bandeira da liberdade,
faz discursos emocionados e fala dos grandes valores da democracia. Mas há uma
pergunta que raramente aparece nesses discursos: o que fizeram com o país que
receberam? Porque não basta conquistar a liberdade. É preciso saber o que fazer
com ela.
O Serviço Nacional de Saúde é uma das maiores conquistas da
democracia, mas encontra-se exausto, com urgências em dificuldades, falta de
profissionais e médicos que procuram melhores condições no setor privado ou no
estrangeiro. Durante décadas, os políticos repetiram que o SNS era uma
prioridade. Mas uma prioridade não se defende com discursos: defende-se com
investimento, organização, planeamento e respeito pelos profissionais.
Na Educação, a fotografia também não é bonita. Professores
protestam, pais estão insatisfeitos, alunos são prejudicados e as escolas
enfrentam problemas que se arrastam há anos. Mudam ministros, mudam programas,
mudam modelos, mas os problemas permanecem.
Na Segurança Social, os políticos sabem há décadas que
Portugal enfrenta um problema demográfico sério, com uma população envelhecida
e menos jovens a entrar no mercado de trabalho. Sabem que o sistema precisa de
ser sustentável. E, ainda assim, continuam a empurrar decisões difíceis para os
governos seguintes.
E chegamos à habitação, uma das maiores demonstrações do
fracasso das políticas públicas das últimas décadas. Uma geração inteira está a
descobrir que trabalhar não chega para ter uma casa. Jovens adultos continuam
em casa dos pais porque os salários não acompanham o preço das rendas e das
habitações. Há pessoas com emprego que não conseguem pagar uma renda. Há casais
que adiam ter filhos porque não conseguem garantir uma casa. E depois ainda se
pergunta porque é que Portugal tem tão poucos nascimentos. Como poderiam os jovens
construir uma família se nem sequer conseguem construir uma vida autónoma?
Durante décadas, os políticos portugueses habituaram-se a
governar à vista. Quando o problema rebenta, cria-se uma medida. Quando há
protestos, anuncia-se um pacote. Quando há eleições, aparecem promessas. E
quando chega a hora de assumir responsabilidades, a culpa é sempre do governo
anterior, da conjuntura internacional, da pandemia, da guerra, dos mercados ou
de Bruxelas.
Vários partidos tiveram responsabilidades governativas e
podem continuar a discutir entre si quem fez mais ou menos. Podem apresentar
números, gráficos e estatísticas para provar que fizeram melhor do que os
outros. Mas existe uma coisa de que já não podem fugir: a responsabilidade
política acumulada de 52 anos de governação.
Não se trata, contudo, de dizer que todos os governantes
foram maus. Seria injusto e seria também faltar à verdade. Portugal mudou
profundamente desde 1974. Houve ministros e responsáveis políticos que deram o
melhor de si pelo país. Conheci alguns. Conheci governantes verdadeiramente
dedicados à causa pública, pessoas que trabalharam horas e horas, que colocaram
o interesse coletivo à frente dos seus próprios interesses e que, em alguns
casos, chegaram a sacrificar tempo com os filhos, com a família e consigo
próprios. Existiram, felizmente. O problema é que foram muito poucos.
Tive mais de três décadas de participação ativa na vida
política. Nunca tive grandes responsabilidades autárquicas ou governativas e
não pretendo colocar-me no mesmo patamar de responsabilidade daqueles que
efetivamente tiveram nas mãos os destinos do país, das nossas cidades, vilas e
aldeias. Mas, dentro das possibilidades que tive e da representação que exerci,
procurei sempre defender uma ideia muito simples: a política deve estar do lado
dos mais pobres, dos mais frágeis e daqueles que têm menos capacidade para
fazer ouvir a sua voz.
Foi essa a política em que sempre acreditei e continuo a
defender!
E muitas vezes essa preocupação era abafada pelas
estratégias dos grupos partidários. Outras vezes era desvalorizada, tratada
como ingenuidade ou até motivo de gozo. Porque, infelizmente, fui percebendo ao
longo dos anos que, para uma parte da classe política, a prioridade nem sempre
era a vida concreta das pessoas. Muitas vezes eram as lutas internas, os
lugares, as estratégias partidárias, os equilíbrios de poder, as eleições
seguintes e a sobrevivência política.
E isso é uma das maiores desilusões que alguém pode
levar de décadas de participação política: perceber que aquilo que deveria ser
uma missão de serviço público acaba, demasiadas vezes, transformado numa
disputa permanente pelo poder.
Não se trata de dizer que Portugal não evoluiu. Evoluiu, e
muito. Temos mais liberdade, mais direitos, melhores condições de vida e uma
sociedade incomparavelmente diferente daquela que existia antes de Abril. Mas
isso não dá aos políticos que nos governaram um cheque em branco. Abril não
pode ser utilizado como uma espécie de certificado de qualidade para cinco
décadas de decisões políticas.
Abril foi feito para libertar pessoas. E liberdade também é
poder viver com dignidade.
É poder ter acesso a um médico quando se está doente. É ter
uma escola capaz de ensinar. É ter um salário que permita viver. É conseguir
pagar uma casa. É poder constituir família sem medo de não conseguir chegar ao
fim do mês. É saber que a Segurança Social estará lá quando for necessária.
Por isso, está definitivamente na altura de trocar os
discursos de circunstância por uma pergunta incómoda aos políticos que nos
governaram durante estas cinco décadas: depois de 52 anos a mandar, a governar,
a prometer e a justificar, não acham que já está na altura de assumir
responsabilidades?
Porque a democracia não é apenas votar. É também prestar
contas. E os políticos que governaram Portugal durante 52 anos têm de responder
por aquilo que fizeram, mas também por aquilo que não fizeram.
E eu, que vivi mais de três décadas desta democracia, também
por dentro da política, não escrevo isto por ressentimento. Escrevo-o porque
continuo a acreditar que a política pode e deve ser diferente. Porque continuo
a acreditar que estar ao lado dos mais pobres, dos mais fracos e dos que têm
menos voz não é ingenuidade. É a razão pela qual a política deveria existir.
A fotografia não é bonita. E fingir que não a vemos não vai
torná-la melhor.
Cláudio Anaia
Militante da Justiça e
Direitos Humanos
