quarta-feira, 26 de março de 2014

Ser gay e ser casto ?


Já nem me lembro de que, para alguns, dizer "homossexual" é referir-se a uma raça diferente, ou até a um género diferente. Já nem me lembro de que alguns cristãos pensam que sou o tipo mais pervertido (mas um pervertido que têm de tratar cordialmente), e de que alguns laicistas pensam que sou o tipo mais hipócrita. Uns por eu sentir atracção por pessoas do mesmo sexo, e os outros por eu não praticar essa atracção.

É melhor lerem de novo a última parte.

Exacto: sinto atracção por homens. Não, eu não durmo com eles, pela mesma razão que montes de católicos não dormem com as pessoas com quem não estão casados. Acho que iam ficar espantados com a quantidade de vezes que as pessoas ouvem a primeira parte (ele é gay) mas não a segunda (ele é celibatário) – apesar da segunda parte ser a única que é da minha responsabilidade.

Certa vez escrevi todo um artigo sobre como é que é isto de ser celibatário e gay e católico, e sabem qual foi a primeira reacção que apareceu na caixa de comentários? "Arrepende-te!".

http://www.catholiceducation.org/images/Christ/christcross56.jpgNão é que sejam assim todos os que descobrem que eu sou gay. Na maioria dos casos, as pessoas a quem disse – principalmente família e amigos – reagem com compaixão e até admiração. Tipicamente dizem "fico contente de que confies em mim ao ponto de me contares isso". Mas mesmo os mais compreensivos nem sempre compreendem o que é que eu estou a dizer, quanto mais não seja porque (ao contrário de mim) não gastaram os últimos 14 anos a descobrir, e também porque a frase "eu sou gay" não é uma frase simples.

Não me incomoda muito a palavra "gay", mas alguns de nós no espaço católico gay preferimos a expressão "atracção pelo mesmo sexo" (ingl. same sex attraction; abrev. SSA). Parece-me mais rigorosa que "gay" ou "queer" ou outras, porque dá a entender que a homossexualidade é qualquer coisa que eu tenho, mais do que qualquer coisa que eu sou. É assim que eu vejo as coisas. Por isso a ideia de cultura gay, direitos gay, casamento gay, e "tudo o mais" gay, é estranha para mim. Seria como falar da cultura "intolerância ao glúten", ou dos direitos "músicos".

Isso não quer dizer que eu não me identifique fortemente com aqueles aspectos do meu ser que é habitual serem associados à ideia de se ser "gay". Tenho sensibilidade musical, sou palavroso, sou intuitivo, tenho um forte sentido estético. Mas os homens com SSA não tem o monopólio dessas coisas, e o facto de eu ter essas características não significa que eu faça parte de uma cultura especial; significa apenas que eu sou eu próprio, e não sou outra pessoa.

Também não quero banalizar a experiência de ter SSA (atracção pelo mesmo sexo). O sexo não é tudo, mas, como qualquer pessoa que tenha disfunção sexual sabe, é muito. Juntem o aspecto sexual às outras coisas que homens e mulheres homossexuais frequentemente experimentam – depressão, baixa auto-estima, solidão, sensação (ainda que falsa) de ser totalmente diferente – e vão descobrir que é uma cruz pesada.

http://www.catholiceducation.org/images/CERC/space.jpg

Experimentei fazer tratamentos em todas as áreas que referi, mas ninguém fica totalmente tratado neste lado de cá do céu. A solidão pode ser a pior parte: não a ausência de amigos, porque eu tenho amigos, mas o esforço de abrir caminho para viver numa sociedade que constantemente te está a dizer que o amor romântico é o único acesso para a verdadeira felicidade, e que o celibato (para não dizer a virgindade!) é uma espécie de transtorno psíquico.

Depois há a questão da amizade. Gosto de homens, e vou gostar sempre. Isso não é bizarro, não é estranho, nem sequer é gay. Mas não é tão simples como dizer "vê, mas não toques" – a castidade é uma questão do coração, da alma, das emoções, mas é também uma questão inguinal. O que é que fazes se o teu melhor amigo te excita? Como se aprende a amar outro homem sem o converter num ídolo?

http://www.catholiceducation.org/images/CERC/blue.gif
Yes, I'm attracted to men;  no, I don't sleep with them, for the same reason that a lot of Catholics don't sleep with people they're not married to.
http://www.catholiceducation.org/images/CERC/blue.gif

Estas questões continuam presentes em mim mas já nenhuma delas é o centro das atenções. É preciso lutar, rezar e pedir conselho, oferecer eventuais quedas, e levar a nossa vida para a frente. Nenhuma das coisas que tenho de fazer é exclusiva de homens ou mulheres gay. Ser "hetero" não é garantia de ter uma sexualidade saudável, luminosa, integrada; apenas significa que o mesmo concerto musical belo e dramático é tocado numa clave diferente. Ninguém pode saltar fora deste barco.

Mas as coisas melhoram. Se há dez anos alguém me dissesse que a minha vida iria ser como é hoje os meus olhos teriam saltado das órbitas. Nunca imaginei que as coisas pudessem chegar a ser tão boas, que eu me tornaria tão confiante, que muitas vezes eu iria sorrir sem ter nenhuma razão especial.

Você deve estar agora a perguntar como é que eu consegui vir de lá até aqui. Não tenho uma resposta rápida. Foi preciso muita oração e muito trabalho, e o amor e a paciência de irmãos, irmãs, conselheiros, e amigos. Se quer um bom ponto para começar – para si ou para alguém que conheça, ou simplesmente porque quer compreender tudo isto um pouco melhor, eu recomendo fazer uma visita a People Can Change e Courage. Sugiro conseguir um exemplar de Fr. Harvey The Homosexual Person e do livro de Alan Medinger Growth Into Manhood.  Também pode tentar a obra de Melinda Selmys Sexual Authenticity e a de Wesley Hill Washed and Waiting.  E obviamente também há o meu blog.

Mas o mais importante deve ser mesmo isto: é possível, mas sozinho não é possível – e a Igreja pode ser a melhor aliada. Talvez ainda não compreenda porque é que a Igreja ensina o que ensina; mas não desista de a ouvir. Talvez ainda não sinta o amor de Jesus na Missa; então vá mais vezes, não menos vezes. Talvez tenha ido a um padre que não percebeu, então encontre um que perceba.

Acima de tudo, não aceite respostas fáceis, nem da direita nem da esquerda. O caminho mais rápido raramente é o mais correcto, e o chegar pelo mais longo faz a viagem valer a pena.

segunda-feira, 24 de março de 2014

Restos de bébés abortados utilizados como combustível para aquecimento



The bodies of thousands of aborted and miscarried babies were incinerated as clinical waste, with some even used to heat hospitals, an investigation has found.

Ten NHS trusts have admitted burning foetal remains alongside other rubbish while two others used the bodies in ‘waste-to-energy’ plants which generate power for heat

Fonte: Daily Telegraph

domingo, 23 de março de 2014

O aborto na história da Igreja Católica

A rejeição ao aborto aparece em toda a história da Igreja, desde os documentos dos primeiros cristãos, como, por exemplo, a Didaqué[i], a qual explicitamente recomenda que “Não mate a criança no seio de sua mãe [o aborto], nem depois que ela tenha nascido [o infanticídio]” (n. 2, 2). A Didaqué foi escrita provavelmente no final da década de 90 d. C., logo, neste período, ainda haviam apóstolos vivos. Por exemplo, o apóstolo João só morre, em Éfeso, no ano 103 d. C. Esse fato demonstra como a rejeição ao aborto era presente na geração apostólica e nos primeiros cristãos. Já a Epistola de Barnabé[ii], outro documento cristão do final do século I,analogamente a Didaqué,recomenda: “Não farás morrer a criança no seio da mãe [o aborto], tampouco após o nascimento [o infanticídio]”. Assim como a Didaqué, a Epistola de Barnabé também foi publicada antes da morte do apóstolo João. Como se pode ver, desde a geração apostólica que os cristãos rejeitam o aborto.
 
Após a publicação da Didaché e da Epistola de Barnabé se dá uma linha continua de testemunhos inequívocos dos Padres da Igreja e dos escritores eclesiásticos, do Oriente e do Ocidente, sem nenhuma voz discordante. Tetuliano, Santo Agostinho e Cesário de Arles são os autores deste período que possuem mais intervenções em relação ao aborto. Apenas como exemplo cita-se a seguinte passagem de Santo Agostinho: “Às vezes, chega a tanto esta libidinosa crueldade, ou melhor, libido cruel, que empregam drogas esterilizantes, e, se estas resultam ineficazes, matam no seio materno o feto [o aborto] concebido e o jogam fora, preferindo que sua prole se desvaneça antes de ter vida, ou, se já vivia no útero, matá-la antes que nasça [o aborto]. Repito: se ambos são assim, não são conjugues, e se tiveram esta intenção desde o princípio, não celebraram o matrimônio, mas apenas pactuaram um concubinato”[iii].
 
Aqui cabe ressaltar a dúvida de Santo Agostinho e de outros teólogos – dentre eles Santo Tomás – sobre o início da vida. É verdade que pela tradução grega da Bíblia foi criada uma distinção entre feto formado e feto não formado (distinção derivada do pensamento grego e não existente no texto hebraico original de Êxoto 21, 22-23). Porém, ainda que estes teólogos – pelas poucas ferramentas científicas que possuíam – tivessem realmente tal dúvida, jamais defenderam que o aborto seria lícito. Pelo contrário, Santo Agostinho afirma que ainda que não estivessem formados (segundo a sua concepção) mereciam todo o respeito de uma vida humana por aquilo que chegariam a ser.
 
O Magistério da Igreja, ainda sem entrar nessa questão específica durante os primeiros séculos, sempre condena claramente o aborto. Nos primeiros séculos, pela evidência do crime cometido, não existem textos doutrinais do Magistério, porém existem penas concretas – sanções canônicas – que demonstram a gravidade do pecado. Os primeiros documentos em relação a isso são os Concílios de Elvira (no ano de 305 d. C.) e de Ancira (no ano de 314 d. C.). Este último excluía da comunhão, por toda a vida, à mulher que realizasse um aborto e estabelecia uma penitência de dez anos para que pudesse voltar à comunidade eclesial (ainda sem poder comungar). Essas penas eram locais e variavam de tempo de um país para outro – porém, de modo ininterrupto e universal, o aborto sempre foi colocado entre os pecados mais graves e, consequentemente, mais severamente punidos.
 
Ainda sobre a posição dos cristãos primitivos, em uma carta datada do ano de 374 d. C., tratando da disciplina eclesiástica a ser aplicada aos vários tipos de pecadores, São Basílio Magno, Bispo de Cesaréia, afirma que tanto a pessoa que fornece as drogas para fazer um aborto, quanto a mulher que as toma são culpadas de assassinato. A seguinte passagem, particularmente interessante, se refere aos primeiros: "Qualquer pessoa que propositadamente destrói um feto [realiza um aborto] incorre nas penas de assassinato. Nós não especulamos se o feto está formado ou não formado"[iv].
O cristianismo, desde as primeiras comunidades cristãs primitivas, buscou integrar em seu meio os diversos grupos excluídos da grande sociedade (mulheres, estrangeiros, deficientes físicos, etc). Isso fez que “por uma opção consciente nossa cultura reconhece como homem: doentes incuráveis, excepcionais, alienados, seres humanos acéfalos sem a mínima possibilidade de alcançar o nível da consciência, e, sobretudo, a vida ainda não nascida, mas concebida”[v]. É por causa disso que, do ponto de vista da doutrina e do Magistério da Igreja, pensar em um “direito ao aborto seria um contrassenso, uma aberração”[vi].
 
[i] DIDAQUÉ. Catecismo dos primeiros cristãos para as comunidades de hoje. São Paulo: Paulus, 1997.
[ii] EPISTOLA DE BARNABÉ. In: Veritais Splendor. Disponível em http://www.veritatis.com.br/patristica/obras/1405-epistola-de-barnabe.  Acessado em 10/11/2013.
[iii] SANTO AGOSTINHO. De nuptiis et concupiscentia. Livro 1, Capítulo 15.
[iv] BETTENCOURT, Dom Estevão. São Basílio (+379) e a Defesa da Vida. In: Pergunte e Responderemos, n. 346, março 1991.
[v] SNOEK, Jaime. Aspectos biológicos, éticos e jurídicos do aborto. In: Revista Eclesiástica Brasileira, v. 31, fasc. 124, dezembro, 1971, p. 887.
[vi] SNOEK, Jaime. Aspectos biológicos, éticos e jurídicos do aborto. op., cit, p. 888.

sábado, 22 de março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

A chegada da primavera

 
 
A primavera está por toda a parte. Em nosso redor a natureza parece vencer a imobilidade do inverno e amontoa os traços insinuantes do seu reflorir. Há uma seiva que revitaliza a paisagem do mundo. Mesmo nos baldios, nos pátios e quintais abandonados, nos jardins mais desprovidos a primavera desponta com uma energia que arrebata. Penso muitas vezes nos versos do Cântico dos Cânticos, o mais primaveril poema da Bíblia: «Fala o meu amado e diz-me: “Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Eis que o inverno já passou, a chuva parou e foi-se embora; despontam as flores na terra, chegou o tempo das canções, e a voz da rola já se ouve na nossa terra; a figueira faz brotar os seus figos e as vinhas floridas exalam perfume. Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Minha pomba, nas fendas do rochedo, no escondido dos penhascos: deixa-me ver o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz; pois a tua voz é doce e o teu rosto, encantador”» (Ct 2, 10-14). Neste poema, a primavera do mundo é uma representação simbólica da primavera interior que nos desafia. Na verdade, o nosso coração não pode continuar eternamente sequestrado pelos impasses dos seus invernos gelados. A nossa vida está prometida à primavera – é a mensagem que o despertar da natureza (e aquele mais íntimo) nos parece segredar.
Mas também acontece que o renascimento do mundo nos parece incomparavelmente mais simples que o nosso. Por nossa parte, sentimo-nos soterrados e sem forças. Achamos que já passou demasiado tempo, que em algum momento do percurso nos perdemos e que talvez isso seja agora irremediável. Vamo-nos deixando ficar num conformismo tácito, insatisfeitos e adiados, a ponto de desistir. Certamente a voz da primavera não nos deixa indiferentes: ela há de sempre sobressaltar-nos. Mas olhamos para ela com mais nostalgia do que com esperança. Contemplámo-la à distância. Ou então defendemo-nos dela como podemos, fingindo não perceber o que significa. No fundo de nós mesmos, consideramos que a primavera já não é para nós. E no nosso coração andamos às voltas com aquela pergunta que também a Bíblia conserva e que não temos paz enquanto não conseguirmos responder: «Pode um homem, sendo velho, nascer de novo?» (Jo 3,4).
 
José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
Imagem: Vincent Van Gogh 
14.03.11 ! Atualizado em 20.03.14 

quinta-feira, 20 de março de 2014

Homenagem a Engº Ribeiro e Castro

 
É com grande consternação e tristeza que soubemos do falecimento do Engº Ribeiro e Castro, fundador e presidente da APFN -Associação Associação Portuguesa de Famílias Numerosas.
 
Era uma homem extraordinário e muito motivado em favor da famí...lia. Um arauto das famílias numerosas, um lutador incansável.
 
Tivemos a oportunidade de o ouvir há uns anos atrás, no auditório das Gambelas, na Universidade do Algarve. Portugal perde das poucas pessoas que, com autoridade, falava em defesa da família, sem papas na língua. Deus o receba no seu seio junto da maior das famílias numerosas que é a dos bem aventurados no Céu.
 
De lá, passará a interceder por todos os que, por cá, ainda lutam no dia-a-dia do trabalho e da família. Descanse em paz ! À sua esposa, filhos e netos os nossos sentidos pêsames.Ver mais

quarta-feira, 19 de março de 2014

A crise da Natalidade em Portugal


 
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domingo, 16 de março de 2014

sábado, 15 de março de 2014

Educar em coligação

 
 
O grande desafio da educação dos filhos do ponto de vista das mães é que os filhos também são educados pelas pais e o grande desafio da educação dos filhos do ponto de vista dos pais é que os filhos também são educados pelas mães. Raramente um dos pais tem o poder absoluto. Qualquer pai é obrigado a educar em coligação, o que força necessariamente a acordos, negociações, cedências, discussões, amuos ou divergências profundas. Na educação, o acordo entre as partes é fundamental ou a criança desgoverna-se, o governo cai, a anarquia instala-se e não há manifesto, mesmo que sejam 700 os anciãos subscritores, que meta ordem na casa.
O principal fado dos pais é mesmo este: negociações permanentes. Começa logo com o nome. A escolha do nome é quase a mesma coisa que a escolha do ministro das Finanças num governo de coligação: quem tem mais força foi quem escolheu Vítor Gaspar, por exemplo. Com os pais é a mesma coisa: quem escolhe o nome do primeiro filho está em vantagem. O segundo já é como a escolha do ministro da Economia, por exemplo - é importante, mas pronto, é o segundo.
Mesmo quando não é combinado explicitamente, também entre os pais se distribuem pelouros. Nas regras do estudo manda um e nas regras da televisão manda outro; para dar palmadas há um com mais aptidão, mas para neutralizar as birras recorre-se ao mais pacífico; nas conversas sobre temas existenciais, depende dos temas; quando é para mandar para a cama, há sempre um que tem a palavra final e para as doenças há o pai que fala com o médico de forma racional e o outro encarregado dos mimos; também no que toca à generosidade há o mãos- -largas e o forreta.
Se cada um souber o seu lugar e se estiverem os dois dispostos a ceder e a negociar, a criança lá vai sendo educada; se não souberem, a criança prepara motins diários e a principal missão dos pais deixa de ser educar e passa a ser a manutenção da ordem doméstica. Instala-se o estado de sítio, portanto.
Ora para evitar a anarquia é por isso importante que os pais entrem em negociações e cedências permanentes. Estafante, é verdade, mas numa coligação nada é fácil.
Quando os pais discutem sobre os seus pelouros, ou seja, quando o pai das regras do estudo quer proibir a criança de jogar computador porque ela teve negativa a Matemática e outro está contra, os pais entram em conversações. E o melhor é fazer como os ministros que se fecham em Conselho de Ministros e só sai cá para fora o que interessa que se saiba. Também os pais devem conversar à porta fechada até chegarem a um entendimento e só depois comunicar à criança se ela pode ou não jogar computador apesar da negativa a Matemática. É fundamental que a criança não assista à discussão, porque se a decisão for em seu desfavor ela vai fazer tudo por tudo para denunciar o acordo alcançado usando os argumentos que a mãe ou o pai usaram em seu favor. E está tudo estragado. Deixar uma criança assistir a uma negociação entre os pais é a mesma coisa que um governo deixar a CGTP ou a comunicação social assistir a um Conselho de Ministros em que se discute o corte das pensões. É convidar o caos.
Os pais, ao contrário dos governos, não podem ser demitidos, demitir-se, romper coligações e nunca vão a eleições. Por isso, educar filhos é trabalhar em permanente coligação apesar das contestações, das birras e das tendências de cada um. É que nas famílias os pais não caem, quem cai são os filhos. A alternativa é fazer como eu: encontrar um marido que é um pai carismático, daqueles que raramente se enganam, nunca têm dúvidas mas confiam na sogra.
Inês Teotónio Pereira
ionline, 2014-03-15
 

Amar sem medida



 



«Amar sem medida quer dizer:
sacrificar-se sem lamentos,
dar sem recompensa,
perdoar sem rancor,
ajudar sem olhar ao descanso».

Josefina de J C | 1894 - 1948
Autobiografia, p. 639

As crianças belgas também são nossas

 
 
Esta lei é iníqua e merece a rejeição por parte de toda a pessoa de boa vontade.
O projecto de lei recentemente aprovado no Parlamento belga provocou generalizadas reacções de rejeição e crítica. Todavia, também encontrou alguém que o defendesse, como a deputada socialista que descansou os opositores, pois, como declarou, ninguém deve temer esta lei, já que não torna obrigatória a prática de eutanásia em crianças doentes ou deficientes. Só faltava isso e teríamos regressado ao programa nazi de supressão da "vida sem valia para ser vivida"!
É necessário corrigir muitas das afirmações erradas que têm sido feitas a este propósito, mesmo por parte dos proponentes da lei, cujos erros poderão vir a ter consequências trágicas.
Na realidade, não se trata de "eutanásia infantil" ou "alargada a crianças", pela simples razão de a eutanásia ser, por definição, a indução da morte a pedido daquele que vai ser morto. Ora, ao permitir que seja dada a morte a crianças sem a faculdade de "discernimento" para a pedir (que seriam, em princípio, as de idade inferior a 12 anos, incluindo os bebés prematuros), o projecto de lei aprovado estabelece que serão os pais (ou representantes legais) e a equipa médica quem tomará a decisão fatal. De facto, o Parlamento belga aprovou a legalização do infanticídio ou homicídio a pedido não do próprio sujeito, mas de terceiros.
Claro é também que o facto de a própria criança dotada de "faculdade de discernimento" – conceito cujo conteúdo será determinado de forma puramente subjectiva – poder solicitar a morte não pode ser valorizado: se nem a lei nem o senso comum reconhecem maturidade a pessoas de idade inferior a 16 (ou 14, nalguns países), como se poderá argumentar que, em questão tão fundamental, o jovem ser terá experiência, conhecimento e ponderação para pedir que o matem? Serão sempre os adultos que o rodeiam quem tomará a iniciativa, sugerindo-a, propondo-a ou pressionando nesse sentido. O texto que acompanha a proposta de lei, paradoxalmente, admite que a morte da criança é importante para apaziguar o sofrimento da família, isto é, que pode funcionar como terapia para terceiros. Ora, os pais não são donos, apenas curadores e procuradores dos seus filhos; reconhecer aos pais o poder de entregar à morte os seus filhos é regredir, pelo menos, até aos primórdios do direito romano.
A premissa de que se poderá evitar sofrimento insuportável e intratável da criança, por exemplo em estado terminal de doença oncológica, é fraudulenta, pois a arte médica tem processos disponíveis para tratar toda e qualquer situação dolorosa; eventuais erros médicos (por obstinação ou por insuficiência terapêutica) têm de ser prevenidos e condenados.
Do ponto de vista ético, é inaceitável praticar qualquer intervenção sem consentimento expresso, esclarecido e livre do sujeito, vulgarmente designado por "consentimento informado". Nas crianças, o consentimento é prestado pelos pais ou por outros representantes legais, mas não será considerado como válido se estiver em oposição ao superior interesse da criança. Poderá entender-se que pedir a morte para uma criança e matá-la serve o seu superior interesse? Note-se ainda que, no caso vertente, não se pode falar sequer de consentimento, o que implicaria uma proposta ou pedido prévios: os pais não consentem num tratamento ou numa intervenção nos filhos, apenas solicitam que se lhes dê a morte.
Estas são as razões por que  consideramos esta proposta de lei como:
 – eticamente reprovável, por não existir consentimento informado e se ofender um direito humano primacial, que é o direito à vida;
 – moralmente repugnante, por reconhecer aos pais um poder de disposição da vida dos filhos;
 – juridicamente aberrante, por prescindir de garantias e violar direitos dos mais frágeis.
Por isso, no caso de vir a entrar em vigor, esta lei será um atentado contra a humanidade e uma vergonha para o país que a aprovou. E não se diga que devemos respeitar a soberania de um país que não é o nosso e abstermo-nos de juízos de valor sobre textos legais estrangeiros: quando se trata de direitos fundamentais, não há fronteiras, nem santuários políticos. As crianças belgas são também nossas.
Esta lei é iníqua e merece a rejeição por parte de toda a pessoa de boa vontade.
Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa
Professor aposentado da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto
 
Público,13/03/2014 

quinta-feira, 13 de março de 2014

MANIFESTO PRÓ-REFERENDO DA CO-ADOPÇÃO E DA ADOPÇÃO POR UNIÕES DO MESMO SEXO



No dia 17 de Maio de 2013 foi aprovado na Assembleia da República o Projecto-Lei nº 278/XII que consagra a possibilidade de co-adopção por cônjuge ou unido de facto do mesmo sexo. À inesperada aprovação desta proposta seguiu-se a discussão da mesma na especialidade. Durante as audições públicas na Iº Comissão a grande maioria dos especialistas ouvidos manifestou-se contra este projecto.
Considerando que o debate sobre este projecto-lei foi inexistente (na sociedade civil e nos programas dos Partidos) e tendo em conta o parecer dos especialistas ouvidos na Assembleia da República, decidiu o grupo parlamentar do Partido Social Democrata aprovar uma proposta de referendo sobre este tema.
As alterações propostas por este diploma modificam profundamente a posição do Estado em relação à família. Até hoje o Direito da Família tinha por fim conceder enquadramento e protecção legal à família, procurando assegurar os direitos desta como um todo e os direitos de cada um dos seus membros, especialmente os das crianças.
Com esta alteração a família perderia a sua autonomia pois o Estado estaria a instituir-se a si mesmo como fonte das relações familiares. A família deixaria de ser uma realidade própria, independente do Estado, anterior ao Estado, para passar a ser aquilo que o Legislador entendesse, ficando refém da doutrina ideológica daqueles que, a cada momento, governassem.
Uma tal inversão das relações entre Estado e família não pode ser feita sem um profundo debate público e sem um alargado consenso social.
Na verdade, este projecto apresentado por alguns deputados do Partido Socialista não estava previsto no seu programa eleitoral. Também não existiu nenhuma referência a este assunto nos programas eleitorais do PSD, do CDS/PP, da CDU e do BE. De facto esta matéria esteve ausente na campanha eleitoral para as eleições legislativas de 2011.
Acresce que, o Tribunal Constitucional no seu Acórdão de 19 de Fevereiro de 2014 (Acórdão n.º176/2014) vem reconhecer que a matéria é referendável, que o tempo é oportuno, que existe controvérsia legal que o fundamente, que co-adopção e adopção não são conceitos isolados, que o que está em causa é saber se a uma criança pode ser dada a parentalidade de duas mulheres ou dois homens.
Por isso consideramos que os deputados eleitos para esta legislatura não têm legitimidade para aprovar este projecto-lei. Uma decisão de tão grande alcance não pode ser tomada sem que o Povo, de quem os deputados são representantes, tenha a possibilidade de demonstrar nas urnas a sua vontade sobre esta matéria.
Se os proponentes desta lei não estão dispostos a discutir este projecto em campanha eleitoral, devidamente integrado num programa eleitoral, então o Povo tem o direito de exercer a sua soberania através de um Referendo.
Temos consciência da gravíssima crise que o país atravessa e sabemos que a realização de um Referendo comporta custos elevados. Mas este é o preço a pagar pelo desrespeito pelo processo democrático que os deputados que aprovaram este projecto-lei demonstraram. Aprovar esta lei sem ouvir o Povo é violar uma conquista de Abril: a Democracia baseada na Soberania Popular exercida através do voto livre. E por isso referendar este projecto é a melhor maneira de dignificar os 40 anos da Democracia em Portugal.
 
Lisboa, 4 de Março de 2014
 
 
 
 
 
A. Lourenço Martins/Afonso Cunha Duarte/Alfonso Fungairinho Bringas/Alice Maria Meyer-Pantin Cordovil/Ana de Seabra Menano Figueiredo Sanches/Ana Filipa Mestre Dias/Andre Pina Almeida/António Godinho Mónica/Antonio Pinheiro Torres/Artur Mesquita Guimarães/Carlos Alberto Apolo Lopes/Carlos Jorge Moreira Antunes/Carlos Manuel Ramos Leitão/Catarina Matos Correia de Nicolau Campos/César Bessa Monteiro, jr./Clemente Cardoso Pinto/Daniel Serrão/Diogo Pacheco de Amorim/Diogo Tovar/Duarte Brito Goes/Fernando Adão da Fonseca/Fernando Almeida/Fernando Maymone Martins/Fernando Soares Loja/Filipa Durães Conceição Rocha Mendes/Gonçalo Maleitas Correia/Graça Passanha/Inês Avelar dos Santos/Inês Quadros Fonseca/Joana Maria Brito Fontes/João de Paiva Boléo Tomé/João Luís César das Neves/João Manuel Pontes dos Santos/João Miguel Alexandre da Fonseca/João Miguel Aires de Campos/João Paulo Camilo Malta/José António Veloso/José Lobo Moutinho/José Maria Seabra Duque/Júlia Margarida Ramos Marçal/Lúcia Mittermayer Saraiva/Luis Manuel de Almeida e Castro/Luís Alves da Costa/Luis Vieira Duque/Luís Villas-Boas/Madalena Maymone Martins/Manuel Braga da Cruz/Manuel Faria Blanc/Margarida Pereira da Silva/Maria do Carmo Perestrello Diniz/Maria do Rosário Lupi Bello/Maria Francisca Vasconcelos e Sousa/Maria Isabel Rosa Renaud/Maria Isabel Vilaça Pessanha Moreira/Maria Isilda Pegado/Maria José Vilaça/Maria Luísa Osório de Castro/Maria Manuela dos Santos Alves/Maria Paula Padrel de Oliveira/Mariana Piteira Santos/Matilde Sousa Franco/Michel Renaud/Miguel Brito Correia/Miguel Nuno Reis Cunha/Nuno Álvares de Sá Potes Cordovil/Nuno Gonçalves Morgado/Nuno Magalhães Guedes/Patrícia Moraes Sarmento/Paula Pimentel/Paulo Adragão/Pedro António Vaz Cardoso/Pedro Vassalo/Pedro Vaz Patto/Ricardo Saldanha/Rosa Maria do Carmo Joaquim dos Santos/Rui Gonçalves/Simão Pedro Patrício Empis/Sofia Alegria Barahona de Lemos/Sofia Costa Guedes/Sofia Garrett/Teresa Tovar/Teresa Margarida Aires de Campos/Tiago Caires Teixeira/Vasco Mina

terça-feira, 11 de março de 2014

Em Portugal, por cada 4 nascimentos, há 1 aborto !!

 
 
A Juventude Popular defendeu esta segunda-feira alterações à regulamentação da Lei do Aborto, nomeadamente a introdução de taxas moderadoras, considerando que o recurso à interrupção voluntária da gravidez «assume vertiginosamente a função de método contracetivo financiado pelo Estado».

Em comunicado a que a Lusa teve acesso, a Juventude Popular (JP) indica que, segundos dados publicados pela Direcção Geral de Saúde, realizam-se em média cerca de 19 mil Interrupções Voluntárias da Gravidez (IVG) por ano, ou seja, «por cada quatro nascimentos há um aborto por ano».

Da análise dos dados, acrescentam os jovens democratas-cristãos, «infere-se que o recurso à IVG assume vertiginosamente a função de método contracetivo financiado pelo Estado, existindo na sociedade portuguesa uma mentalidade irresponsável no que respeita ao planeamento familiar».

«Em face das evidências, manda a prudência e a coerência políticas, bem como as preocupações com a saúde pública, que se reveja a regulamentação da lei do aborto a partir das repercussões sociais, da ponderação dos resultados da lei e das experiências estrangeiras, em especial em países da União Europeia», lê-se ainda na nota divulgada pela JP.

Desta forma, a JP avança com duas propostas de alteração à regulamentação da Lei do Aborto, defendendo o fim do «aborto universalmente gratuito, financiado e subsidiado pelo Estado».

Nesse sentido, refere a JP, o Estado deve assegurar a verificação dos requisitos à sua prática, nomeadamente através da introdução de taxas moderadoras, agravadas no aborto recorrente.

«Não se aceita como solução equitativa e justa que tantos ctos médicos de natureza análoga ou semelhante sejam sujeitos a taxas moderadoras e a IVG esteja universalmente isenta, designadamente quando o País enfrenta um severo esforço de diminuição da despesa pública», sublinha a JP.

Os jovens democratas-cristãos propõem ainda a substituição do subsídio e licença de parentalidade pelo regime normal das baixas por saúde, na medida em que esta for necessária e com a mesma percentagem de subsidiação.
 
Fonte: Lusa e TVI

segunda-feira, 10 de março de 2014

Desmistificar a ideologia de género

 
style=" margin: 12px auto 6px auto; font-family: Helvetica,Arial,Sans-serif; font-style: normal; font-variant: normal; font-weight: normal; font-size: 14px; line-height: normal; font-size-adjust: none; font-stretch: normal; -x-system-font: none; display: block;">    
style="text-decoration: underline;" >Identidad de género por Ángela Aparisi Miralles by   style="text-decoration: underline;" >mrc71

O aborto segundo o filósofo espanhol Julian Marias



La espinosa cuestión del aborto voluntario se puede plantear de maneras muy diversas. Entre los que consideren la inconveniencia o ilicitud del aborto, el planteamiento más frecuente es el religioso. Pero se suele responder que no se puede imponer a una sociedad entera una moral «particular». Hay otro planteamiento que pretende tener validez universal, y es el científico. Las razones biológicas, concretamente genéticas, se consideran demostrables, concluyentes para cualquiera. Pero sus pruebas no son accesibles a la inmensa mayoría de los hombres y mujeres, que las admiten «por fe»; se entiende, por fe en la ciencia.
Creo que hace falta un planteamiento elemental, accesible a cualquiera, independiente de conocimientos científicos o teológicos, que pocos poseen, de una cuestión tan importante, que afecta a millones de personas y a la posibilidad de vida de millones de niños que nacerán o dejarán de nacer.
Esta visión ha de fundarse en la distinción entre «cosa» y «persona», tal como aparece en el uso de la lengua. Todo el mundo distingue, sin la menor posibilidad de confusión, entre «qué» y «quién», «algo» y «alguien», «nada» y «nadie». Si se oye un gran ruido extraño, me alarmaré y preguntaré: «qué pasa?» o ¿qué es eso?». Pero si oigo unos nudillos que llaman a la puerta, nunca preguntarés «¿qué es», sino «¿quién es?».
Se preguntará qué tiene esto que ver con el aborto. Lo que aquí me interesa es ver en qué consiste, cuál es su realidad. El nacimiento de un niño es una radical «innovación de la realidad»: la aparición de una realidad «nueva». Se dirá que se deriva o viene de sus padres. Sí, de sus padres, de sus abuelos y de todos sus antepasados; y también del oxígeno, el nitrógeno, el hidrógeno, el carbono, el calcio, el fósforo y todos los demás elementos que intervienen en la composición de su organismo. El cuerpo, lo psíquico, hasta el carácter, viene de ahí y no es rigurosamente nuevo.
Diremos que «lo que» el hijo es se deriva de todo eso que he enumerado, es «reductible» a ello. Es una «cosa», ciertamente animada y no inerte, en muchos sentidos «única», pero al fin una cosa. Su destrucción es irreparable, como cuando se rompe una pieza que es ejemplar único. Pero todavía no es esto lo importante.
«Lo que» es el hijo puede reducirse a sus padres y al mundo; pero «el hijo» no es «lo que» es. Es «alguien». No un «qué», sino un «quién», a quien se dice «tú», que dirá en su momento «yo». Y es «irreductible a todo y a todos», desde los elementos químicos hasta sus padres, y a Dios mismo, si pensamos en él. Al decir «yo» se enfrenta con todo el universo. Es un «tercero» absolutamente nuevo, que se añade al padre y a la madre.

Cuando se dice que el feto es «parte» del cuerpo de la madre se dice una insigne falsedad porque no es parte: está «alojado» en ella, implantado en ella (en ella y no meramente en su cuerpo). Una mujer dirá: «estoy embarazada», nunca «mi cuerpo está embarazado». Es un asunto personal por parte de la madre. Una mujer dice: «voy a tener un niño»; no dice «tengo un tumor».
El niño no nacido aún es una realidad «viniente», que llegará si no lo paramos, si no lo matamos en el camino. Y si se dice que el feto no es un quién porque no tiene una vida personal, habría que decir lo mismo del niño ya nacido durante muchos meses (y del hombre durante el sueño profundo, la anestesia, la arteroesclerosis avanzada, la extrema senilidad, el coma).
A veces se usa una expresión de refinada hipocresía para denominar el aborto provocado: se dice que es la «interrupción del embarazo». Los partidarios de la pena de muerte tienen resueltas sus dificultades. La horca o el garrote pueden llamarse «interrupción de la respiración», y con un par de minutos basta.
Cuando se provoca el aborto o se ahorca, se mata a alguien. Y es una hipocresía más considerar que hay diferencia según en qué lugar del camino se encuentre el niño que viene, a qué distancia de semanas o meses del nacimiento va a ser sorprendido por la muerte.
Con frecuencia se afirma la licitud del aborto cuando se juzga que probablemente el que va a nacer (el que iba a nacer) sería anormal física y psíquicamente. Pero esto implica que el que es anormal «no debe vivir», ya que esa condición no es probable, sino segura. Y habría que extender la misma norma al que llega a ser anormal por accidente, enfermedad o vejez. Y si se tiene esa convicción, hay que mantenerla con todas sus consecuencias; otra cosa es actuar como Hamlet en el drama de Shakespeare, que hiere a Polonio con su espada cuando está oculto detrás de la cortina. Hay quienes no se atreven a herir al niño más que cuando está oculto -se pensaría que protegido- en el seno materno.
Y es curioso cómo se prescinde enteramente del padre. Se atribuye la decisión exclusiva a la madre (más adecuado sería hablar de la «hembra embarazada»), sin que el padre tenga nada que decir sobre si se debe matar o no a su hijo. Esto, por supuesto, no se dice, se pasa por alto. Se habla de la «mujer objeto» y ahora se piensa en el «niño tumor», que se puede extirpar como un crecimiento enojoso. Se trata de destruir el carácter personal de lo humano. Por ello se habla del derecho a disponer del propio cuerpo. Pero, aparte de que el niño no es parte del cuerpo de su madre, sino «alguien corporal implantado en la realidad corporal de su madre», ese supuesto derecho no existe. A nadie se le permite la mutilación; los demás, y a última hora el poder público, lo impiden. Y si me quiero tirar desde una ventana, acuden la policía y los bomberos y por la fuerza me lo impiden.
El núcleo de la cuestión es la negación del carácter personal del hombre. Por eso se olvida la paternidad y se reduce la maternidad a soportar un crecimiento intruso, que se puede eliminar. Se descarta todo uso del «quién», de los pronombres tú y yo. Tan pronto como aparecen, toda la construcción elevada para justificar el aborto se desploma como una monstruosidad.
¿No se tratará de esto precisamente? ¿No estará en curso un proceso de «despersonalización», es decir, de «deshominización» del hombre y de la mujer, las dos formas irreductibles, mutuamente necesarias, en que se realiza la vida humana? Si las relaciones de maternidad y paternidad quedan abolidas, si la relación entre los padres queda reducida a una mera función biológica sin perduración más allá del acto de generación, sin ninguna significación personal entre las tres personas implicadas, ¿qué queda de humano en todo ello? Y si esto se impone y generaliza, si a finales del siglo XX la Humanidad vive de acuerdo con esos principios, ¿no habrá comprometido, quién sabe hasta cuándo, esa misma condición humana? Por esto me parece que la aceptación social del aborto es, sin excepción, lo más grave que ha acontecido en este siglo que se va acercando a su final.

 

domingo, 9 de março de 2014

Nova geração de líderes precisa-se!

“A educação é a arma mais poderosa para mudar o mundo”, afirmava Nelson Mandela.
A frase, sobejamente conhecida, serve para dar o mote ao artigo que se segue, escrito por Christopher Gergen, CEO da Forward Impact, professor de Inovação e Empreendedorismo na Duke University e membro do Center for Creative Leadership e por Lyndon Rego, director global do Center for Creative Leadership’s Leadership Beyond Boundaries, uma iniciativa que tem como objectivo conferir uma maior escala ao desenvolvimento da liderança no mundo.
“O que é possível fazer para desenvolver uma nova geração de líderes competentes e com espírito empreendedor nas nossas escolas? São muitas as palavras ocas que utilizamos ao serviço de ideias como a “aprendizagem do século XXI” ou o “desenvolvimento da liderança empreendedora”, mas a realidade é que a vasta maioria das escolas não prepara, de forma adequada, os seus estudantes para liderarem e colaborarem entre si de forma a criar uma mudança positiva no mundo. Felizmente, existem exemplos brilhantes de escolas com as quais é possível aprender – escolas que chamam a si a responsabilidade de preparar todos os seus alunos para virem a ser líderes ‘fazedores da mudança’.
Um exemplo destas escolas reside em Ahmedabad, na Índia. Um grupo de alunos do 5º ano da Riverside School trabalha numa fábrica, enrolando, de forma entediante, os paus de incenso tradicionais, ao longo de oito horas. E isto não é uma forma de trabalho escravo, mas uma importante lição curricular idealizada pela escola para ensinar empatia. As crianças deixam a fábrica exaustas, mas também despertas para as necessidades do mundo e, muitas vezes, sentindo o peso de se comprometerem em fazer algo sobre o trabalho infantil.
Em Joanesburgo, na África do Sul, líderes emergentes de todo o continente participam em sessões laboratoriais na African Leadership Academy, onde lhes é ensinado os princípios do “design thinking”, ao mesmo tempo que apreendem, de forma aprofundada, as necessidades das suas comunidades locais e desenvolvem e implementam soluções sustentáveis através do Student Enterprise Program que a escola oferece.
Saltando para um outro continente, na Ravenscroft School, em Raleigh, Carolina do Norte, os estudantes entre os 5 e os 18 anos são expostos a lições ou experiências nas quais treinam as suas competências de trabalho em equipa e colaboração, inovação e execução, capacidades inventivas e persistência adaptativa, enquanto se empenham a colocar os seus projectos de mudança em acção.
Na WeSchool e na iFEEL, uma escola de negócios sedeada em Bombaim, na Índia, um programa de sete meses denominado Global Citizen Leader oferece, como trabalho aos seus alunos do primeiro ano, uma compreensão aprofundada no que respeita à vida dos pobres e a co-criação de soluções para o alívio da pobreza. Uma avaliação formal realizada no final do programa comprovou que 92% dos alunos afirmaram sentir uma consciencialização social muito maior, bem como níveis de empatia muito mais elevados. Adicionalmente, 80% destes mesmos estudantes indicaram ter disponibilidade para abordarem desafios sociais sentindo, ao mesmo tempo, que tinham adquirido capacidades para criarem a mudança.
Os esforços pioneiros destas escolas estão, propositadamente, a incorporar a liderança ‘fazedora de mudança’ na jornada educativa de todos os seus estudantes através da implementação de uma estratégia integrada, profunda e sistémica, a qual, ao envolver todos os estudantes, os prepara para serem líderes motivados e movidos pelos ‘resultados’. Adicionalmente, estas mesmas escolas reconhecem que preparar os estudantes para se tornarem líderes efectivos e esclarecidos é crucial para as suas possibilidades futuras de emprego, para terem vidas plenas de significado e para oferecerem o seu contributo efectivo para uma sociedade que vive tempos crescentemente difíceis.

© DR
A necessidade de se pensar diferente no que respeita a preparar os mais novos para o futuro é estimulada por um conjunto de grandes forças. Uma é a da própria geração millenial. Cerca de metade dos habitantes actuais do planeta têm menos de 30 anos. Estas centenas de milhões de jovens nascidos na era digital são os mais informados e mais relacionados/interligados de sempre. Habituaram-se a viver numa era de democracia disseminada, com expectativas de liberdade e igualdade. Têm consciência e sentem-se angustiados devido ao estado ambiental, económico e político em que se encontra o mundo. A mudança é algo que ocupa significativamente a sua mente: o mundo que temos não é aquele que desejam. O interesse dos jovens em contribuir para a mudança está expresso no “surto” de programas de empreendedorismo social que existem em muitas universidades e no facto de irem, em massa, para as ruas, defendendo causas diversas: contra a disparidade económica no movimento Occupy nos Estados Unidos, pela representação política na Primavera Árabe, contra a corrupção em Lokpal Bill na Índia e pela educação acessível no Movimento Estudantil Chileno. Estes movimentos representam a prontidão dos jovens em se organizarem e vocalizarem as suas preocupações.
Todavia, e apesar de estes jovens desejarem e esperarem mais, as suas oportunidades são elusivas. O crescimento do emprego não está a acompanhar o ritmo das escolas e dos alunos com estudos superiores. O estado actual do desemprego jovem é igualmente dramático face à recessão económica que caracteriza muitos países europeus, com taxas de desemprego [jovem] superiores a 50% na Espanha e na Grécia, por exemplo.
A inexistência de empregos é agravada pela ausência de competências entre aqueles que têm bons níveis de educação. Os empregadores declaram, a nível global [veja o artigo no VER – Como sair do vale do desemprego – que se concentra exactamente nesta questão] que as instituições educativas não estão a preparar, de forma adequada, os jovens com as competências necessárias e exigíveis pelos empregos que se encontram disponíveis. E este défice é mais aprofundado na área das soft skills [também no VER, o artigo “O desencontro entre a oferta e a procura” foca também esta temática]. Em “Expanding the Leadership Equation”, um inquérito realizado pelo Center for Creative Leadership sobre as competências da força laboral, os executivos nomearam a automotivação, a comunicação, a agilidade na aprendizagem, o autoconhecimento e a adaptabilidade como as competências essenciais exigidas para o sucesso no ambiente laboral da actualidade. Adicionalmente, 90% dos entrevistados indicam que o desenvolvimento das competências de liderança deverá ser iniciado antes dos 18 anos.
Existe assim uma necessidade urgente de os jovens desenvolverem estas competências práticas exigidas pelos empregadores. Nas instituições educativas já mencionadas – tal como a Riverside School, a African Leadership Academy, a Ravenscoft e a WeSchool, - o enfoque é exactamente na agilidade em termos de aprendizagem e a aplicação prática dessa mesma aprendizagem. Mais importante ainda é o facto de estas escolas privilegiarem o envolvimento social como um meio de desenvolver a criatividade, a colaboração, a comunicação e a resiliência. Para os próprios estudantes, a “auto-clareza”, o relacionamento e a capacidade de colocar ideias em acção para uma mudança sustentável e positiva são as competências de que precisam para viverem uma vida bem direccionada e com significado.
Precisamos que mais escolas – ou melhor, que todas as escolas – se afastem dos modelos tradicionais de ensino “de cima para baixo”, com poucas oportunidades de experimentação de solução de problemas, autodescoberta e co-criação colaborativa. Precisamos de um novo futuro no qual o desenvolvimento de uma liderança empreendedora esteja integrado em qualquer que seja a faceta de aprendizagem, e para todos os alunos. As exigências do mundo são demasiado grandes para que se evite esta mudança. Temos já modelos que estão a funcionar bem. É tempo agora de interligar este trabalho e começar a implementá-lo, em grande escala e globalmente

Fonte: VER