quinta-feira, 19 de março de 2026

Pensar Tornou-se Perigoso

 


“O problema do mundo é que os estúpidos têm certezas e os inteligentes estão cheios de dúvidas.”

— Bertrand Russell

Há algo de inquietante no tempo em que vivemos. Nunca tivemos tanto acesso à informação, tantas opiniões disponíveis e tantas plataformas para comunicar. No entanto, paradoxalmente, parece que pensar com liberdade e espírito crítico se tornou um exercício cada vez mais raro — e, em certos casos, quase desconfortável para a própria sociedade e para quem manda.

Durante muito tempo, o analfabetismo limitava-se à incapacidade de ler ou escrever. Hoje, existe uma forma mais subtil — e talvez mais perigosa — de analfabetismo: a incapacidade de questionar, analisar e pensar criticamente. A ignorância moderna não resulta apenas da falta de conhecimento; muitas vezes nasce da ausência de vontade de questionar aquilo que nos é apresentado como verdade. Onde a reflexão falha, a manipulação encontra terreno fértil, principalmente nas mãos de quem pensa que “manda em tudo e em todos.”

Vivemos numa sociedade onde a pressão para seguir a corrente se intensifica. Questionar a opinião dominante ou levantar dúvidas pode tornar alguém alvo de críticas, ou até marginalizado. Em vez de se valorizar o debate e a diversidade de pensamento, privilegia-se frequentemente a adesão rápida às ideias predominantes. Basta olhar para as redes sociais, onde um simples comentário divergente pode gerar ataques massivos, ou para certos media, onde opiniões discordantes são frequentemente ignoradas ou desvalorizadas.

Mais preocupante ainda é quando esta dificuldade em questionar começa a atingir espaços que deveriam estimular o pensamento livre, como a escola, a universidade ou os próprios meios de comunicação social. Quando o debate é substituído por narrativas únicas, e a dúvida passa a ser vista com suspeita, a sociedade perde uma das suas ferramentas mais importantes: a capacidade de pensar coletivamente.

Uma democracia saudável não se constrói com unanimidades artificiais nem com silêncios impostos. Constrói-se com cidadãos informados, curiosos e capazes de discordar com respeito. O progresso das sociedades sempre nasceu do confronto de ideias, da coragem de questionar e da liberdade de pensar para além do que é confortável ou dominante.
Uma sociedade madura precisa de debate, questionamento e pluralidade de ideias. Sem isso, o espaço público transforma-se num eco repetitivo, onde todos dizem o mesmo e poucos se atrevem a pensar de forma autónoma.
Resgatar o espírito crítico é, por isso, uma tarefa urgente. A educação, os meios de comunicação e o próprio espaço público devem incentivar a reflexão, a dúvida saudável e o confronto respeitoso de ideias.

Pensar de forma independente não é um problema para a sociedade. Pelo contrário: é uma das suas maiores riquezas.

Talvez o verdadeiro perigo do nosso tempo não seja a ignorância…, mas o medo de pensar.

Cláudio Anaia

sábado, 21 de fevereiro de 2026

De Fátima a Guaratinguetá: redescobrindo Frei Galvão


Durante a minha participação em workshops internacionais sobre turismo religioso em Fátima, deparei-me com representantes da prefeitura de Guaratinguetá, que me falaram sobre Frei Galvão.

 Eu já conhecia Frei Galvão como o primeiro santo católico brasileiro, mas esse encontro despertou-me o interesse em aprofundar o conhecimento sobre a vida e a história deste santo tão querido pelo povo brasileiro.

Nascido em 1739 em Guaratinguetá, Antônio de Sant’Anna Galvão cresceu em uma pequena vila colonial, marcada pela simplicidade, mas também por desigualdades sociais profundas. Desde cedo, aprendeu a olhar para os que mais sofriam, transformando sua fé em ação concreta ao longo da vida.

Ao entrar para a Ordem dos Frades Menores, Frei Galvão dedicou-se a visitar doentes, acolher famílias em dificuldade e aliviar a pobreza e a exclusão social que marcavam sua época. Fundou o Mosteiro da Luz, em São Paulo, que se tornou ponto de apoio para mulheres vulneráveis e para todos que precisavam de orientação ou conforto, provando que espiritualidade e ação social caminham lado a lado.

Durante o encontro em Fátima, fiquei sensibilizado com a forma como Guaratinguetá organiza a preservação do legado de Frei Galvão: a catedral, a catedral de Santo Antônio, a casa de Frei Galvão, o cinaro dedicado a ele, diversos santuários e o museu que conta sua história. As pessoas que representam a cidade junto à prefeitura trabalham para levar ao mundo a história de Frei Galvão e mostrar o que ele significa para o povo da cidade.

Em 11 de maio de 2007, Frei Galvão foi canonizado pelo Papa Papa Bento XVI em São Paulo, num gesto histórico: foi o primeiro santo a ser canonizado fora do Vaticano, reforçando o significado de sua santidade para o povo brasileiro e aproximando a Igreja Católica da realidade local.

Frei Galvão tornou-se o primeiro santo nascido no Brasil. Mas seu verdadeiro legado não está apenas nos altares: está na lembrança de que cada gesto de cuidado, cada apoio aos vulneráveis, é uma forma de continuar sua missão, ainda necessária nos dias de hoje.

Depois de estudar e conhecer como Guaratinguetá funciona atualmente, fiquei ainda mais impressionado: a cidade destaca-se pela sua natureza exuberante e pela religiosidade que marca toda a sua história. Fiquei com vontade de visitar e conhecer de perto o lugar que preserva a memória de Frei Galvão e a sua herança de fé e solidariedade.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

Esta Economia Mata

 


"A vossa linguagem deve ser: Sim, sim; não, não. O que passa disto vem do maligno”

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus


É uma revolta que não nasce de discursos inflamados, mas da vida real. Cresce sempre que se vê que os oportunistas se safam quase sempre, enquanto tantos outros íntegros pagam a factura. Cresce diante da repetição cansativa da injustiça normalizada, aceite, desculpada, esquecida.

Revolta ver, quem engana, foge, explora ou vive à custa dos outros, sair impune, muitas vezes promovido, aplaudido ou protegido. E revolta, porque essa impunidade corrói a confiança que ainda se tenta manter e mata a ideia simples de justiça. Quando o erro compensa e a decência penaliza, sente-se que algo está profundamente errado numa sociedade que devia proteger os seus valores.

Sente-se tristeza e revolta quando se vê amigos, pessoas trabalhadoras e íntegras, a contar tostões para garantir alguma dignidade às suas famílias. Em alguns casos, a humilhação é ainda maior: têm de recorrer à ajuda dos pais, já idosos, depois de uma vida inteira a trabalhar. Isto não é normal. Isto não é justo. Isto não é aceitável. E dói ver tudo isto de perto, todos os dias.

Quando se viaja de transportes públicos, observa-se a falta de respeito entre as pessoas, a agressividade gratuita, os olhares duros, a indiferença perante o outro. Cada um fechado no seu mundo, no seu telemóvel, na sua pressa. E pensa-se consigo: onde ficou a solidariedade entre os seres humanos? Sem empatia, sem cuidado, sem reconhecimento do outro como igual, sente-se que a sociedade se perde um pouco mais a cada dia.

Hoje, vê-se que a empatia e o companheirismo entre os seres humanos são ridicularizados. Quem se preocupa com o outro é visto como fraco ou ingénuo. Quem ajuda é suspeito. Quem escuta é ultrapassado. E isso assusta: sem empatia, abre-se espaço à brutalidade normalizada.

Nas cidades vêem-se grandes edifícios de luxo a subir, festas e eventos para animar a multidão, mas no meio deste brilho artificial, esquecem-se aqueles que vivem na rua. Celebra-se a cidade enquanto se abandona quem nela já não cabe. Investem-se recursos na imagem, mas não na dignidade. E isso magoa profundamente.
E revolta ainda mais ver as pessoas a embarcarem no discurso politicamente “correcto”, repetirem slogans e apoiarem quem promete mudança, mas continuarem a viver dia após dia sem fazer nada. Pinheiro de Azevedo dizia: “É só fumaça, é só fumaça, o povo é sereno”. E muitas vezes, a serenidade confundida com paciência, é para muitos, apatia que alimenta a injustiça, permitindo que a desigualdade e a ganância cresçam sem obstáculo.

Enquanto se escreve, ouve-se Sérgio Godinho: a paz, o pão, a liberdade, habitação para todos… Palavras que soam como uma miragem, diante do que se vê todos os dias. Sonhar com um mundo assim não é luxo; é necessidade humana, e é isso que inquieta, que faz crescer esta revolta.

Como alertou o Papa Francisco: “Esta economia mata”. E sente-se isso na pele, nos olhos de quem vive à margem, na vida de quem luta e continua íntegro, apesar de tudo. É neste contexto de desigualdade, exploração e abandono que a revolta cresce e se torna urgente.
A revolta não é apenas política. É humana e ética. Nasce quando se vê o sistema proteger os fortes e abandonar os frágeis, quando se percebe que se normaliza o cinismo e se ridiculariza quem ainda acredita em justiça, solidariedade e responsabilidade. Aceitar isto ou agir? A revolta só faz sentido se for o primeiro passo para reconstruir uma sociedade mais justa e mais humana.

Chega de ser apaniguado, desinteressado, conformado. Chega de assistir à injustiça sem reagir. A revolta de muitos pode ser a de cada leitor que se recusa a ser cúmplice do abandono, da ganância e da desigualdade. É hora de pensar, questionar, agir e exigir mais, pelo próximo, pela comunidade, pela própria dignidade. A democracia não se constrói com silêncio nem com indiferença: constrói-se com coragem, empatia e participação consciente. O momento de deixar de ser apático é agora.


Cláudio Anaia