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quarta-feira, 30 de abril de 2014

Todos somos chamados a contar as estrelas !





Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos contando estrelas, sim, nós estaremos contando estrelas

Vejo esta vida como uma videira que balança
Balanço meu coração além do limite
E meu rosto está dando sinais
Procure e você encontrará

Velho, mas não sou tão velho
Jovem, mas não sou tão ousado
Eu não acho que o mundo esteja vendido
Só estou fazendo o que nos disseram

Eu sinto algo tão certo
Fazendo a coisa errada
Eu sinto algo tão errado
Fazendo a coisa certa
Eu não poderia mentir, não poderia mentir, não poderia mentir
Tudo que me mata faz eu me sentir vivo

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos contando estrelas

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos, nós estaremos contando estrelas

Eu sinto o amor e sinto ele queimar
Ao longo deste rio, em cada curva
Esperança é uma palavra de quatro letras
Ganhe esse dinheiro, veja-o queimar

Velho, mas não sou tão velho
Jovem, mas não sou tão ousado
Eu não acho que o mundo esteja vendido
Só estou fazendo o que nos disseram

Eu sinto algo tão errado
Fazendo a coisa certa
Eu não poderia mentir, não poderia mentir, não poderia mentir
Tudo o que me derruba me faz querer voar

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos contando estrelas

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos, nós estaremos contando estrelas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Tudo que me mata faz eu me sentir vivo

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos contando estrelas

Ultimamente, eu tenho, eu tenho perdido o sono
Sonhando com as coisas que poderíamos ser
Mas, querida, eu tenho, eu tenho rezado muito
Disse, não mais contando dólares
Nós estaremos, nós estaremos contando estrelas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

Pegue esse dinheiro
Veja-o queimar
Afunde no rio
As lições são aprendidas

sábado, 22 de março de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

A chegada da primavera

 
 
A primavera está por toda a parte. Em nosso redor a natureza parece vencer a imobilidade do inverno e amontoa os traços insinuantes do seu reflorir. Há uma seiva que revitaliza a paisagem do mundo. Mesmo nos baldios, nos pátios e quintais abandonados, nos jardins mais desprovidos a primavera desponta com uma energia que arrebata. Penso muitas vezes nos versos do Cântico dos Cânticos, o mais primaveril poema da Bíblia: «Fala o meu amado e diz-me: “Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Eis que o inverno já passou, a chuva parou e foi-se embora; despontam as flores na terra, chegou o tempo das canções, e a voz da rola já se ouve na nossa terra; a figueira faz brotar os seus figos e as vinhas floridas exalam perfume. Levanta-te! Anda, vem daí, ó minha bela amada! Minha pomba, nas fendas do rochedo, no escondido dos penhascos: deixa-me ver o teu rosto, deixa-me ouvir a tua voz; pois a tua voz é doce e o teu rosto, encantador”» (Ct 2, 10-14). Neste poema, a primavera do mundo é uma representação simbólica da primavera interior que nos desafia. Na verdade, o nosso coração não pode continuar eternamente sequestrado pelos impasses dos seus invernos gelados. A nossa vida está prometida à primavera – é a mensagem que o despertar da natureza (e aquele mais íntimo) nos parece segredar.
Mas também acontece que o renascimento do mundo nos parece incomparavelmente mais simples que o nosso. Por nossa parte, sentimo-nos soterrados e sem forças. Achamos que já passou demasiado tempo, que em algum momento do percurso nos perdemos e que talvez isso seja agora irremediável. Vamo-nos deixando ficar num conformismo tácito, insatisfeitos e adiados, a ponto de desistir. Certamente a voz da primavera não nos deixa indiferentes: ela há de sempre sobressaltar-nos. Mas olhamos para ela com mais nostalgia do que com esperança. Contemplámo-la à distância. Ou então defendemo-nos dela como podemos, fingindo não perceber o que significa. No fundo de nós mesmos, consideramos que a primavera já não é para nós. E no nosso coração andamos às voltas com aquela pergunta que também a Bíblia conserva e que não temos paz enquanto não conseguirmos responder: «Pode um homem, sendo velho, nascer de novo?» (Jo 3,4).
 
José Tolentino Mendonça
In Diário de Notícias (Madeira)
Imagem: Vincent Van Gogh 
14.03.11 ! Atualizado em 20.03.14 

domingo, 16 de março de 2014

sábado, 1 de março de 2014

Cuidar que se ganha em se perder



Eu sei: tens medo de que não te retribuam; achas que se pensares nos outros eles não pensarão em ti; que poderás ficar diminuído por seres sempre tu a ceder…
Mas quem foi que te disse que o amor era um negócio?
Onde aprendeste que era uma actividade centrada em ti mesmo, destinada a dar-te satisfação?
O amor é um mau negócio: é, como escreveu Camões num soneto lindíssimo, “cuidar que se ganha em se perder”.
É uma loucura que leva a acreditar que enriquecemos quando nos damos; que só somos nós mesmos quando não queremos saber de nós.

Paulo Geraldo

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Anti-Smartphones



Marcas de todo mundo vêm criticando o vício na mídia social nos últimos anos, pedindo para que as pessoas larguem o telefone e prestem atenção às pessoas ao redor.
O novo filme da Coca-Cola mostrou em tom de brincadeira, um produto que promete solucionar esse problema. O Guarda da Mídia Social, que é basicamente um cone vermelho (cor da marca) semelhante aos usados em cachorros, só que em tamanhos adaptados para os humanos.
As cenas explicam que o uso do apetrecho irá impedir os viciados de verificar seu telefone a cada oito segundos. Sem impedi-los, claro, de beber uma Coca-Cola.
"Você sabia que o mundo gasta 4000 mil anos on-line todos os meses?", aponta a marca. “Se você está vendo este vídeo em seu telefone móvel, é hora de colocá-lo para baixo. Olhe ao seu redor, provavelmente há alguém especial que você pode compartilhar um momento real. Aproveite-o com uma Coca-Cola gelada


Leia Mais: http://www.meioemensagem.com.br/home/comunicacao/noticias/2014/02/20/Cocacola-mostra-como-acabar-com-vicio-digital.html?utm_source=Facebook&utm_medium=Social&utm_content=&utm_campaign=links#ixzz2tuC3smIX
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segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os media que nos aspiram para a morte

 
A dita “sociedade da informação” é também a sociedade do encobrimento, do enviesamento e da des-informação e corresponde a uma poderosa máquina, mais ou menos lucrativa, que coloca os cidadãos diante de um filme que pouquíssimo lhes diz acerca do que se passa e que (mais do que tudo) cria acriticidade e hábitos perversos no modo de pensarmos o que realmente se passa à nossa volta. E de tal modo essa máquina é poderosa que nos desenvolve uma faculdade fundamental para quem não se deve pensar a si e aos outros, nem pensar o mundo em que está inserido: é uma gigantesca máquina de divertimento e de propagação do medo, travestida de “comunicação”; aspira-nos para fora da nossa realidade e fomenta a nossa capacidade de esquecer o (pouco que sabemos acerca do) que se passa e de fugir da nossa própria realidade, por vezes demasiado imprópria.
A imediatez substitui qualquer mediação, diz M. Augé. Comunica-se tudo e a todo o tempo; a comunicação constante e imediata torna o ambiente opressivo, irrespirável; mas o que se comunica na comunicação? O desastroso, o sangrento, a morte, os milhares de pontos de vista desconexos, a incapacidade de nos entendermos, o imediato, o live depressivo.
O modo de olhar o mundo quase só pela negativa (pela desgraça que acontece, pela facada e pelo sangue, pelo roubo espetacular e pelo assalto violento, pela bomba que explodiu), que todos os dias preenche os telejornais e alguns jornais, corrompe a visão do mundo e marca violentamente um modo sombrio de estar no mundo, descrente da vida e das pessoas (o síndrome do “mal do mundo” de que hoje se fala ou a “psicologia do túmulo” (A alegria do Evangelho, nº 83) que nos faz uns “desencantados com cara de vinagre” (nº 84)), como diz tão assertivamente o Papa Francisco.
E isso inscreve realmente no nosso exíguo espaço público um olhar negativo profundamente criador de significados e sentidos que nada interessam à vida, à solidariedade e ao bem comum.
O tempo real substitui o espaço real, diz P. Virilio, e o simbólico, tão decisivo na relação humana, foge do espaço social, que se estiola num espaço de fragilidade, de inquietação, sem laços. A realidade é expulsa da comunicação quotidiana (ainda que seja por excesso de realismo!) e com ela somos expulsos nós mesmos: há cada vez menos lugar para nós neste mundo. Somos uma gente demasiado humana, somos escandalosamente humanos, somos demasiado presente e sonho, incerteza e mistério. E será mesmo possível e “politicamente correto” continuarmos a desejar um mundo para nós humanos, na nossa incomensurável diversidade?
Os medos são agora explorados à exaustão pelos media e isso faz com que o real, os casos concretos e as pessoas concretas quase não existam, são irreais, uma ficção, fazem parte do “empilhamento arbitrário de casos concretos”, que impregna a realidade de “uma atmosfera realmente opressora” M. Augé). O real só regressa quando regressar a relação e o mistério. Aqui e agora.
Mais, a nossa mente desenvolve um modo de pensar o mundo e a vida focado sobre o que de pior nele ocorre (bad news, good news; good news, no news). E este convívio e até comprazimento com o ódio, o sofrimento, a violência e a morte dos outros, feitos espetáculo arbitrário quotidiano, não nos estarão a tornar cada vez mais insensíveis ao que de melhor tem este mundo e à própria vida humana? Que é que valem as coisas maravilhosas que todos os dias acontecem no mundo e em Portugal? E em nós mesmos?
 
Joaquim Azevedo
Professor da Universidade Católica Portuguesa (Porto)

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Onde é a nossa casa ?

 
 
Acho que foi Albert Camus que disse que a questão mais premente do nosso tempo é cada homem descobrir onde é a sua casa. Aparentemente é uma ideia estranha, pois a maior parte de nós não tem que se perguntar para onde deve voltar ao crepúsculo. Dia a dia há uma rota que voltamos a trilhar sem especiais hesitações, entre a fadiga e a esperança, cruzando as paredes do tempo: esse é o caminho para nossa casa. Cada um cumpre, mesmo sem especial reflexão, trajetórias e rituais que são seus: a estrada que escolhe para regressar (sempre a mesma, sempre a mudar…); a forma familiar que tem diariamente de rodar a chave; o modo (mais lento, mais repentino) de abrir para o que ali habita; aquela fração de segundo, absolutamente impressiva, antes da primeira palavra, em que a casa inteira parece que vem ao nosso encontro, ofegante ou em puro repouso.
Que quereria dizer Camus quando escreveu: «cada homem tem de descobrir a sua casa»? Muitas vezes, perante as questões fundamentais e o embaraço de não encontrarmos imediatamente para elas respostas conclusivas, a própria atualidade vem em nosso socorro, mostrando como a vida é sempre mais simples que as deferências e os reenvios com que a abordamos. Por vezes basta ver, apenas. Basta-nos tomar um exemplo, tocar uma única entre os milhões de imagens que processam o presente, acolher a breve chama de uma história para que o longo corredor até ao sentido se ilumine.
Que quereria dizer Camus quando escreveu: «cada homem tem de descobrir a sua casa»?
Penso que a frase longa esconde este repto mais essencial: cada pessoa não tem apenas a tarefa de descobrir uma habitação. Cada pessoa tem o irrecusável dever de descobrir-se, vivendo com paixão e sabedoria a construção de si, esse processo que, por definição, está em aberto e que ao longo da existência se vai efetivando. Nós somos a nossa casa. E poder dizer isso, com simplicidade e verdade, equivale a perpetuar aquilo que Albert Camus também escreveu: «no meio de um inverno, finalmente aprendi que havia dentro de mim um verão invencível».
 
José Tolentino Mendonça
In O Hipopótamo de Deus, ed. Paulinas

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

Organizar o esforço

Quando o nosso trabalho começa a ficar mais lento, devemos procurar a razão. Conforme a razão assim será o remédio. Se a causa é a fadiga, então temos de descansar. Se, por outro lado, é a preguiça, então temos de nos esforçar. Com efeito, quase sempre, se a nossa vida está bem regulada, o melhor de todos os remédios é o esforço. Mas é necessário variá-lo. Descansamos de uma tarefa começando outra. Uma mudança é suficiente, dado que são diferentes as forças exercitadas.
Seja como for, não se deve dissipar a energia espalhando-a por demasiados objetos. De outra forma, não nos daremos a nenhum e o gosto que daí extrairemos será apenas superficial, e nunca uma alegria profunda. A vida é necessariamente uma unidade: quanto mais estamos divididos, mais parecidos ficamos com a morte, que é essencialmente separação. Ao ir atrás de tudo, ficamos com nada. Ao mergulharmos profundamente numa coisa, descobrimos muitas outras. Acredito que se pudéssemos atingir a verdadeira profundidade de alguma coisa que fosse, haveríamos de encontrar tudo!
O esforço consiste no controlo das nossas faculdades. Em vez de as deixarmos à solta aqui e ali, concentramo-las no objeto que temos em vista. O esforço, contudo, é ajudado pelo distanciamento, que é a tranquilidade da mente. Precisamos de nos libertar de toda a preocupação, todos os pensamentos de sucesso, todo o desejo de vencer a luta, todas as considerações de castigo ou recompensa. Devemos voltar-nos total e serenamente na direção do nosso objeto e concentrarmo-nos no máximo da nossa força. Da mesma maneira, quando descansamos, devemos descansar com todo o coração e não pensar em mais nada.
Dar o melhor em qualquer coisa que façamos, usando todas as nossas faculdades, é o segredo de todo o verdadeiro desenvolvimento e de toda a verdadeira alegria.
 
Um Cartuxo
In Where silence is praise

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Consumismo



Um amigo americano, herdeiro de uma fortuna, resolveu este ano começar uma nova vida.
Fez uma lista de tudo o que era supérfluo, começando pelos vários carros, casas, relógios e outros objectos. Contava-me a rir que cada vez que punha um objecto na lista voltava a analisá-la para ver se realmente lhe fazia falta ou não, tal era o impulso consumista.
Dizia que mais de 50% das coisas que possuía não eram necessárias e quando decidiu fazer o inventário ficou surpreendido, especialmente com a quantidade de roupa, aparelhos electrónicos, sapatos, canetas e perfumes que nem sequer sabia que tinha.
Esta decisão fez-me pensar, pois, embora não seja um consumista e tenha muita consciência do que compro, confesso que me deparei com alguns aparelhos electrónicos, roupas e outras coisas que não só não sabia que tinha como não conheço explicação para os ter comprado.
Pensava eu que era anticonsumismo até ser confrontado com este facto.
Dizia-me o meu amigo que ter peso a mais é de facto uma forma de consumismo, no sentido de que se consome mais do que se necessita.
Assim, acredito que a maior parte da população sofre de uma forma ou de outra de consumismo.
É de facto uma perturbação psicológica, uma doença de que quase todos sofremos sem nos apercebermos disso e sem o aceitarmos.
É potenciada ou induzida pelo marketing agressivo e inteligente.
Uma das poucas coisas boas que as crises trazem é ajudar a tratar estas perturbações, pois sem dinheiro não há doença!
Aqui está uma boa decisão para 2014.
Ver se o que temos é realmente necessário, especialmente se tivermos peso a mais.

Presidente da Malo Clinic Health
& Wellness

Fonte: Jornal "i"

domingo, 26 de janeiro de 2014

O fim de um casamento

 
 
«Acabou!»
Com essa breve observação, muitas pessoas descrevem o final de seu casamento. Por trás desse verbo há crises, sofrimentos, desabafos e, não poucas vezes, discussões infindas.
 Em que lugar foram enterrados os sorrisos do dia do casamento e as promessas de fidelidade «até que a morte nos separe»?
Em que fase da vida se desvaneceu a certeza de que «ninguém será mais feliz do que nós dois»?
Como entender a amargura que tomou conta de um relacionamento que parecia tão feliz?...
Nenhum casamento termina “de repente”. Especialistas matrimoniais constatam que, normalmente, o caminho da desintegração tem quatro etapas, profundamente interligadas – isto é, cada etapa prepara e praticamente condiciona a seguinte.
Na primeira, começam a surgir comentários negativos, um a respeito do outro. Mais do que queixar-se do esposo ou da esposa (a queixa refere-se a um comportamento específico), multiplicam-se críticas que são sempre abertas, indeterminadas, gerais: «És um chato!»; «estás cada vez mais insuportável!». Há aqueles (ou aquelas) que sofrem calados: não aceitam o comportamento do companheiro, mas não verbalizam isso. O problema é que vão acumulando raiva no seu coração. Quando resolvem falar, não medem as palavras. As agressões – verbais ou de facto – parecem ser de inimigos mortais. Agora, o importante é humilhar o outro, para ficar claro que não há mesmo possibilidade alguma de reconciliação.
Para não se chegar a esse ponto, é preciso cultivar o diálogo. Mais do que escutar o outro, é importante ter a capacidade de se colocar no lugar dele, para ver o problema “do outro lado”. Um casal confidenciou-me que, quando se casaram, tomaram uma decisão que marcou as suas vidas: prometeram um ao outro que jamais dormiriam sem, antes, solucionar os problemas que pudessem ter surgido entre eles durante o dia. “Solucionar”, no caso, significava cultivar o perdão como atitude habitual. O perdão será menos difícil se cada um, em vez de atacar o outro de forma generalizada, chamar a atenção para erros concretos e para comportamentos que precisam de ser corrigidos.
Na segunda etapa, cresce o desprezo pelo outro. Desprezar é uma forma de ignorar, de insultar, de ferir. O desprezo é  sempre acompanhado da implicância, dos insultos, da ridicularização. O objetivo a alcançar é a destruição do outro. O importante é sair vencedor.
Só se supera essa fase quando ao menos um dos dois aceita não ver o outro como um inimigo, e passa a acreditar que não precisa provar que é o mais forte.
 
Na terceira etapa, quem foi vítima de desprezo começa a defender-se. Impõe-se a ideia de que a melhor defesa é o ataque. Ninguém mais escuta ninguém. Acabou-se a comunicação.
Consegue-se cortar essa situação somente com a disposição de escutar o outro, de prestar atenção a ele, demonstrando que é importante.
Na quarta etapa, domina o mutismo. Um dos dois passa a ficar em silêncio, talvez até com o desejo de não piorar a situação. Mas, nessa fase, não é por aí que se soluciona o problema. É preciso, sim, deixar claro que se está a escutar o outro. Ninguém consegue ficar indiferente diante de uma pessoa que lhe dá atenção. Escutar e prestar atenção com um coração pronto a acolher é uma maneira de criar pontes – pontes de diálogo e de perdão, pontes de comunhão.
Na terceira etapa, quem foi vítima de desprezo começa a defender-se. Impõe-se a ideia de que a melhor defesa é o ataque. Ninguém mais escuta ninguém. Acabou-se a comunicação.
Consegue-se cortar essa situação somente com a disposição de escutar o outro, de prestar atenção a ele, demonstrando que é importante.
Na quarta etapa, domina o mutismo. Um dos dois passa a ficar em silêncio, talvez até com o desejo de não piorar a situação. Mas, nessa fase, não é por aí que se soluciona o problema. É preciso, sim, deixar claro que se está a escutar o outro. Ninguém consegue ficar indiferente diante de uma pessoa que lhe dá atenção. Escutar e prestar atenção com um coração pronto a acolher é uma maneira de criar pontes – pontes de diálogo e de perdão, pontes de comunhão.
 
Murilo Krieger

domingo, 19 de janeiro de 2014

Ser Homem

Se és capaz de conservar o teu bom senso e a calma,
Quando os outros os perdem, e te acusam disso,

Se és capaz de confiar em ti, quando de ti duvidam
E, no entanto, perdoares que duvidem,

Se és capaz de esperar, sem perderes a esperança
E não caluniares os que te caluniam,

Se és capaz de sonhar, sem que o sonho te domine,
E pensar, sem reduzir o pensamento a vício,

Se és capaz de enfrentar o Triunfo e o Desastre,
Sem fazer distinção entre estes dois impostores,

Se és capaz de ouvir a verdade que disseste,
Transformada por canalhas em armadilhas aos tolos,

Se és capaz de ver destruído o ideal da vida inteira
E construí-lo outra vez com ferramentas gastas,
Se és capaz de arriscar todos os teus haveres
Num lance corajoso, alheio ao resultado,
E perder e começar de novo o teu caminho,
Sem que ouça um suspiro quem seguir ao teu lado,
 
 
Se és capaz de forçar os teus músculos e nervos
E fazê-los servir se já quase não servem,
Sustentando-te a ti, quando nada em ti resta,
A não ser a vontade que diz: Enfrenta!

Se és capaz de falar ao povo e ficar digno
Ou de passear com reis conservando-te o mesmo,

Se não pode abalar-te amigo ou inimigo
E não sofrem decepção os que contam contigo,

Se podes preencher todo minuto que passa
Com sessenta segundos de tarefa acertada,

Se assim fores, meu filho, a Terra será tua,
Será teu tudo que nela existe

E não receies que te o tomem,

Mas (ainda melhor que tudo isto)
Se assim fores, serás um HOMEM.

Rudyard Kipling (1865-1936)
Poeta britânico, prémio Nobel da literatura (1907

Um podem fazer muitos



sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Um mundo a dançar


segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Poema do Menino Jesus



Poema do Menino Jesus- Alberto Caeiro "Fernando Pessoa"

domingo, 29 de dezembro de 2013

domingo, 22 de dezembro de 2013

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Trabalhar sobre a debilidade

 
 
Muitas vezes, porque não alcançámos o ideal que almejávamos, pensamos que errámos tudo, que deitámos fora, que desperdiçámos a nossa vida inteira.
Tínhamo-nos proposto tornar-nos importantes na sociedade, na profissão; tínhamos imaginado uma vida ideal de casal; e perdemos de vista o que somos, a nossa especificidade.
As nossas limitações.
Nunca mais voltámos a nós próprios.
Não honrámos a nossa especificidade, investimos sobretudo no outro.
É naturalmente mais fácil. Menos doloroso.
A maior parte desta humanidade identifica-se acriticamente com os modelos culturais e sociais dominantes.
Modelos assumidamente inatingíveis para manter o habitante deste tempo insatisfeito, frustrado, para estar sempre pronto a consumir, a competir para reduzir o sofrimento.
Nós, pelo contrário, deveríamos dar valor à nossa conatural impotência, à nossa debilidade.
Conhecer e saber integrar as nossas limitações con­duz-nos a uma boa autoestima.
Nesta perspetiva, até os erros que fazemos se tornam indicações úteis para continuarmos a viagem da nossa existência.
Por educação, por história pessoal e pelo tipo de sociedade em que vivi, passei quase toda a minha vida sem perdoar a mim mesmo os erros que cometi.
E, no entanto, hoje compreendo bem tudo isso: os nossos erros devem servir para viver melhor e nunca para viver pior.
Por outro lado, quem não aceita cair, continua inconscientemente a acreditar que ainda é a criança omnipotente que foi.
Sentes-te em baixo?
Talvez te sintas assim porque, apesar de todos os teus esforços e das boas intenções, estarás sempre a cometer os mesmos erros.
Quantas vezes prometeste que mudarias para, logo depois, te aperceberes de que nada ou pouco mudou em ti!
Sobretudo no campo afetivo; por exemplo, querer deixar de ser ciumento, mas as feridas antigas reabriram-se.
A vivência, infantil ou da adolescência, de ser rejeitado, de não ser amado, ganha a dianteira e os bons propósitos desaparecem.
Então, livra-te do passado e lembra-te de que, se estás em baixo, deprimido, é porque estás a dar o poder de te fazerem mal a um período da tua vida ou a uma pessoa que nunca deveriam possuí-lo.
E tudo isto pode acontecer porque não tens poder sobre ti.
Não vale a pena mascarares-te de indiferença ou de superioridade; não adianta esconderes-te numa hiperatividade incessante e desatinada para manter distante o vazio interior.
Um vazio que leva à autodestruição, à vontade de fazer mal a ti próprio.
Só quando tiveres voltado a habitar plenamente no teu coração poderás viver serenamente e também poderás perdoar.
Só então, o perdão se torna um ato libertador e não de sofrimento.
Perdoo para libertar-me definitivamente do poder do outro.
A sociedade em que vivemos, porque não quer saber que tem de morrer, provoca depressão, insatisfação.
Não nos deixa viver a realidade. Provoca medo.
Medo de errar, porque se vivem os erros como fracassos da pessoa inteira.
Medo daquilo que não é controlável, previsível; medo de arriscar, medo de sofrer.
Quando não se quer saber que se tem de morrer:
- não se aceita o diferente, 
- não se aceitam as dificuldades, 
- não se aceitam as perdas, 
- não se aceitam as inseguranças, 
- não se aceitam as fragilidades, 
- não se aceitam as recusas nem as rejeições, 
- não se aceitam as incertezas, 
- não se aceita o que é desconhecido, 
- não se aceita a mudança, 
- não se aceita perder.
Precisamos de considerar que a vida não é bonita nem feia, nem clara nem escura, mas um alegre claro-escuro.
Enquanto as pessoas continuarem a ouvir quem as leva a acreditar que o sofrimento e a morte não são evidências que lhe digam respeito, nunca conhecerão a sua verdadeira humanidade.
O sofrimento e a morte fazem parte da vida.
A pessoa que aceita a sua mortalidade, a sua fraqueza, é ativa, aberta às mudanças; é vital, verdadeiramente otimista e com uma autoestima sadia.
Consegue transformar as situações porque conseguiu transformar a sua debilidade.
Quando erra, uma pessoa sadia sabe que é o momento de reconhecer as suas limitações. Esta atitude levá-la-á a errar cada vez menos, porque a pessoa cresceu em humanidade e não em perfeição.
Para este tipo de pessoa, um erro toma-se uma indicação importante, útil para compreender ainda mais profundamente a sua especificidade, a sua unicidade, para prosseguir mais facilmente ao longo do percurso da sua vida e, consequentemente, torna-se mais humana também em relação aos outros, mais acolhedora em relação a quem está em seu redor, capaz de respeitar a diversidade do outro.
Valerio Albisetti
Psicólogo, professor universitário 
In Felizes apesar de tudo, ed. Paulinas
 

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Viver é aprender a abdicar



Na vida humana nada está determinado à partida senão a liberdade com que nos é aberto um universo infinito de possibilidades. A sublime beleza e o absoluto valor da nossa existência residem na radical autonomia em que nos é dado elegermo-nos.
Não há destino, mas escolher é sempre preferir uma opção em desfavor de todas as outras. Cada homem escreve o seu próprio fado. Um só. Do princípio ao fim.
A existência humana é uma viagem feita de escolhas. A vida implica a necessidade de, a cada momento, decidirmos sempre cada um dos nossos passos. Podemos ir em qualquer direção, podemos até decidir não nos mover, seguir num rumo e depois noutro, até para trás... passos mais largos ou mais prudentes... podemos escolher tudo, menos deixar de escolher.
É sempre possível recomeçar. Sempre. Mas nunca do exato ponto onde já escolhemos e fomos. Seremos sempre novos a cada instante e ninguém se demora mais numa hora que noutra, nem pode vivê-la mais do que uma vez...
O tempo faz-nos voar e a trajetória revela a nossa identidade... na separação que introduz entre aquilo que preferimos e aquilo de que abdicamos.
Podemos conhecer o coração de alguém pelas suas afeições... mas talvez lá se consiga chegar melhor através de uma análise àquilo de que desistiu, o que decidiu não querer... afinal, o que é, e que valor tem, aquilo que abandonou para cumprir o que escolheu?
Tudo se complica muito mais porque as escolhas não são sempre feitas entre o bem e o mal... boa parte das vezes a vida exige-nos que escolhamos um de entre dois bens ou um de entre dois males... o erro e o arrependimento são fáceis e quase  garantidos... a felicidade parece impossível... ao homem nunca cabe o lugar de Deus, mas, ainda assim, sem saber distinguir essências de aparências, é possível escolher (o) bem!
A responsabilidade é a capacidade de assumirmos as razões e emoções que são ou foram causa de um ato nosso. Podemos revelar a nossa grandeza mesmo quando erramos e o assumimos de forma refletida. Somos tudo quanto preferimos e preterimos, somos as nossas faltas mas também a capacidade que temos de aprender com elas.
Podemos conhecer o coração de alguém pelas suas afeições... mas talvez lá se consiga chegar melhor através de uma análise àquilo de que desistiu, o que decidiu não querer...
Há quem nunca ceda à tentação suprema de considerar tudo absurdo e a felicidade impossível, há quem nunca desista de aceitar que tudo tem sentido ainda que a ele se possa aceder já... há quem faça o seu caminho daqui para o céu na certeza íntima de que este mundo não é o seu.
São muitos os que querem conhecer as modas para nunca se afastar do caminho da multidão, entram no comboio só por ver os outros a fazê-lo... mas há também quem escolha fazer um caminho por onde nunca ninguém foi... nenhuma das opções é certa, nenhuma é errada... só quem desiste de si é que nunca se encontrará.
Quem se aproxima de um destino, afasta-se da sua origem... troca o valor do que elege pelo valor do que resigna. Mas, o que move alguém que se encontra no caminho entre A e B? Será a vontade de B? ou o medo de A? Se o amor é um excelente motor das nossas ações, o medo também o é... o que resulta numa tremenda confusão: há quem finja amar com medo da solidão e quem viva na verdadeira solidão com medo do amor... há quem tema tudo... e quem ame sem medo de nada.
No amor, há quem encontre o sentido último da existência.
Por amor, há quem entregue a própria vida.
José Luís Nunes Martins
 

sábado, 9 de novembro de 2013

Enfrentar a morte

Na coletânea de ensaios e reflexões intitulada "Velai comigo - Inspiração para uma vida em Cuidados Paliativos", a autora, Cicely Saunders (1918-2005), explora a «relação entre a biografia pessoal, a vida espiritual e uma ética do cuidar».
«Narrada na primeira pessoa, recorrendo a uma série de influências religiosas e filosóficas, e apoiada numa motivação primária de cuidar dos que estão em fim de vida, “Velai comigo”, debruça-se sobre a experiência do sofrimento humano, a mortalidade e a busca de sentido».
«Este não é um livro apenas para especialistas ou profissionais de saúde. “Velai comigo” aborda como morremos no mundo atual. Nesse sentido, é um livro para todos nós.»
Apresentamos um excerto da obra prefaciada por Isabel Galriça Neto, médica de Cuidados Paliativos.
 
Enfrentando a morte
A maior tristeza de um paciente moribundo é o fim das suas relações e responsabilidades. Vivemos em interação com os outros, e à medida que a fraqueza invasora leva à mudança das nossas funções, à medida que o assalariado já não pode trabalhar ou a dona de casa tem de passar as suas atividades de cuidado da família a outros, é difícil não nos sentirmos inúteis e humilhados.
A família aproveita, muitas vezes e prontamente, a oportunidade de saldar dívidas de amor e cuidados, mas não é fácil ser continuamente a causa da preocupação das outras pessoas, e, por isso, este processo de cuidados deve ser feito com sensibilidade. Pode-se aproveitar este tempo para curar amarguras e para promover reconciliações, o que, como em qualquer tempo de crise, pode acontecer surpreendentemente depressa. («Vivemos uma vida inteira em três semanas.») Mas para isto ser bem feito, pelo menos alguma da verdade sobre a situação tem de ser partilhada.
As famílias pensam, muitas vezes, que têm de proteger a pessoa moribunda da verdade, mas isto é, quase sempre, um engano. O paciente acaba por saber, por outros meios, e fica então ainda mais isolado, incapaz de partilhar a sua preocupação por outros e por ele próprio. Fingir continuamente inibe e é exaustivo para ambos os lados.
Por mais difícil que possa ser enfrentar a despedida, sermos verdadeiros tanto quanto possível ajuda a atravessar a ansiedade e a dor que esta causa. Algumas famílias partilham pouco uns com os outros, durante a sua vida. Há pessoas que passam toda a sua vida a evitar realidades desagradáveis. Estes ou outros grupos de pessoas nem sempre serão bem sucedidos. Não se devem apressar as revelações duras e podemos ter de esperar que verdades parciais sejam gradualmente absorvidas, mas é certo que partilhar um pouco destas verdades já facilitou, surpreendentemente com frequência, o crescimento familiar.
Os pacientes (e as famílias) podem continuar a ter esperança quando não há esperança, podem «tirar um dia de folga» da verdade concentrando-se numa viagem ou numa celebração e, ainda assim, conhecerem-se profundamente ao mesmo tempo.
A maioria das famílias que deixa o St Christopher Hospice com forças renovadas, após a morte de um doente, são aquelas que foram capazes de enfrentar a sua partida juntas. Continuará a ser difícil aceitar uma perda, fazer o luto, mas tais memórias ajudarão a fazer deste um processo criativo. A equipa de cuidados paliativos está pronta a trabalhar sozinha ou em grupos com aqueles que necessitam de ajuda especial nesta longa viagem dolorosa.
Enfrentar a morte implica enfrentar o fim de esperanças e de planos. A dor não é só física e social, é também profundamente emocional. De facto, a dor mental pode ser a mais difícil de tratar. A ansiedade causada pela doença e pelos tratamentos junta-se à depressão despoletada pela perda de capacidades. A maioria de nós tem razão para se sentir embaraçada ao revermos as nossas vidas, mas isto, nos doentes graves, é, muitas vezes, confundido com sentimentos vagos e irracionais de culpa. Há pessoas que têm ataques de raiva, perfeitamente compreensíveis, ou de desespero devastador. No entanto, a depressão clínica é comparativamente rara entre os pacientes de cancro e o suicídio é incomum.
A tristeza é adequada e devemos encará-la e partilhá-la. Requer alguém que ouça, mais do que de fármacos, se bem que a combinação dos dois pode ajudar a levantar um peso inibidor e a permitir que um paciente derrube problemas que pareciam impossíveis de gerir. Avaliar e rever este tipo de tratamento não significa manipular a mente, mas sim oferecer mais liberdade e força para se enfrentar a realidade. Os Sacramentos a anunciar o perdão de Deus podem apaziguar e a atitude de aceitação daqueles que rodeiam o doente pode confirmá-lo, sem palavras.
O maior receio é a perda de controlo. Ainda assim, mesmo sofrendo de um tumor cerebral avançado ou de uma falha nas capacidades mentais, pode ajudar-se a pessoa a focar-se e a encarar a situação, de acordo com a sua forma de ser. Uma filha, que descreveu a lenta deterioração da mente do pai com uma perceção amorosa, mas, ao mesmo tempo, científica, terminou a descrição tocante do seu último feito dizendo: «A mente e o corpo são inseparáveis, tanto quanto sabemos, mas a experiência sugere que não passam de ferramentas de valor inferior ao espírito, cujos propósitos servem».
O final desta história foi sereno e quando o seu pai, num momento notável de lucidez, comprometeu outros com o bem-estar da mulher que amava, «afundou-se numa demência tranquila, que se assemelhava a um sonho incoerente; a consciência nítida e a profundidade de sentimentos já não estavam presentes e nunca mais voltei a sentir angústia pelo seu mal-estar».
Lidar com a demência progressiva de alguém que amamos bastante, muitas vezes ao longo de anos, é uma das formas mais difíceis de enfrentar a sua morte. Quando o paciente está em casa, o que acontece a muitos, o cuidador ou o familiar que transfere o cuidado a profissionais, frequentemente apressados e sobrecarre­gados, enfrenta uma perda longa e difícil e frequentemente não recebe o apoio necessário.
Serão também alvo de ansiedade, depressão, raiva e desespero, e estes poderão ser exacerbados pela exaustão. A perda pode ser gradualmente aceite a nível intelectual, emocional e social e a agonia da separação reduzida também gradualmente, mas quando a morte finalmente chega, haverá ainda, quase de certeza, muito «trabalho de luto» por fazer.
Tal como o paciente que vai perdendo o controlo e que já não sente ser ele próprio, aqueles que perdem alguém têm um novo mundo por descobrir e aceitar. Não os podemos apressar a atravessar o entorpecimento, a dor emocional, a consciência progressiva do vazio da perda e a aprendizagem final de voltar a viver. Alguns necessitam de muita ajuda para expressar os seus sentimentos ao longo deste processo e podem precisar de autorização para pararem de se lamentar e de deixar que outros compromissos substituam esse vazio.
Aceitar uma perda intensifica a procura omnipresente do sentidos. O seguinte extrato de um diário ditado por Ramsey, que ficou cego e inibido de falar, devido a um tumor cerebral inoperável, mostra como se podem revelar novas perspetiva, e até mesmo novas fés, no ambiente de uma unidade de cuidados paliativos, e como morrer, assim como sofrer uma perda, pode, finalmente, conduzir a um novo crescimento:
«26 de Agosto de 1978: Surpreendentemente, acredito que vou encontrar um Deus. Não sei, exatamente, como é que isso irá acontecer, mas a sensação de que Jesus me encontrará e fará de mim tudo aquilo que eu sou, e mais ainda, não está distante e o facto de que Ele vem na altura em que mais preciso d'Ele, é igualmente surpreendente. Pensar que, em tão curto espaço de tempo e na minha situação, Jesus Cristo se aproxime de mim, para me cuidar, é da maior importância. Eu sei que será verdade. Annie está a escrever outra vez, assim como Jill. As pessoas que me conhecem amam-me e ficarão comigo para sempre. Todos me impressionarão. Apenas agora começo a aperceber-me, ao pensar em Deus, daquilo que Ele deve saber de mim e de quão significativo eu sou. Para mim, é bastante empolgante pensar no meu futuro e aperceber-me de que Jesus fará com que a minha vida funcione, de alguma forma, e isto é algo que eu gostaria de ter feito antes. Mas aquilo que me empolga ainda mais é a possibilidade de estender a minha vida neste mundo ou no próximo, de todas as formas que agora me são possíveis.
Viver a vida e viver a morte, pensei, era uma coisa estranha. Continuo a achar que o é. Quero tentar convertê-lo num espaço onde eu esteja com toda a gente, quando estiver morto ou vivo, um espaço que não irá mudar. Não sei como é que isto será feito, mas sei que assim vai ser. Não sei se vou morrer para sempre, mas sei que isso não interessa, pois as pessoas irão cuidar de mim e darei o meu melhor para cumprir tudo aquilo que Deus quer que eu faça. E isso é que interessa. Parece que estou a começar a minha vida com Deus e isso é fantástíco.»
A sintaxe de Ramsey perdeu-se mas aquilo que pretendia dizer é claro. Morreu duas semanas mais tarde, muito serenamente.
Todos nós precisamos de sentido nas nossas vidas e parece, a princípio, que enfrentamos a perda deste, quando enfrentamos a morte. A maioria das pessoas pensa sobre si própria através daquilo que fez, ao longo das suas vidas, e isso ajuda-as a perceber o seu lugar no mundo. À medida que as pessoas deixam de poder desempenhar o seu papel, tal como Ramsey não pôde continuar a ser produtor de televisão, grande parte da sua integridade parece desaparecer também. Como acontece a muitos outros, Ramsey, na sua resposta a uma situação completamente nova e extremamente dependente, encontrou uma nova identidade. O corpo parece ter uma sabedoria própria. Se seguirmos os seus ditames, à medida que os seus poderes diminuem, os do espírito podem encontrar novas forças e criatividade.
Aqueles que encontram uma verdade nova e duradoura nas suas vidas descobrem, tal como Ramsey o fez, que a vida pode ser entregue com esperança, não porque o eu seja indestrutível, mas sim pela confiança no Deus cujas mãos as seguram, tanto na morte como na vida. Aqueles que pensam que já não podem rezar por pura fraqueza podem apoiar-se na oração e no amor dos outros - «onde estou com toda a gente» - e, acima de tudo, podem confiar no Deus que conhece as nossas capacidades. O seu juízo, daqui em diante, é um «pôr tudo em ordem» e, acreditando que continuaremos a viver nas memórias daqueles que nos amam, podemos também acreditar que a nossa alma continuará a viver, seguramente, no amor invencível de Deus. E assim ganhamos confiança na comunhão de todos os Santos, a família de Deus.
Ramsey era invulgar, na medida em que conseguia exprimir isto na sua descoberta tardia de Deus. Muitos daqueles que não têm palavras, ou pelo menos nenhuma das expressões tradicionais, mostram, através da sua atitude, gestos e resposta aos que os rodeiam que estão a alcançar, confiadamente, aquilo que veem como sendo verdadeiro. Julgamos que este alcançar os aproxima da «Verdade».
Paula, jovem, loura e bela, tirou o crucifixo da cabeceira da sua cama e, no seu lugar, pôs um pequeno diabo vermelho e com chifres. Ofereceu-nos amizade e entretenimento durante semanas, mas, aparentemente, não tinha tempo para questões espirituais. Na sua última noite, perguntou à enfermeira em que é que ela acreditava. Quando esta lhe respondeu com uma simples declara­ção de fé em Cristo, Paula disse: «Não podia dizer que acreditava assim, não agora, mas será que posso dizer que tenho esperança?» Depois disto, removeu as pestanas falsas que usava durante o dia e a noite e entregou-as à enfermeira: «Já não quero mais isto.»
Mas o que acontece àqueles que não têm ou não aproveitam esta oportunidade? E aqueles que apenas sentem a ausência de Deus, quando estão fracos, ou sentem que perderam a sua fé? Alguns podem tomar as palavras do Nosso Senhor na Paixão, o «se for possível» de Getsemani e o «por que me abandonastes?» da Cruz, apoiando-se nelas, na escuridão. Outros, que não encontram a luz na vida, conhecê-lo-ão, certamente, na morte. (...)
«O fundamento mais importante para o St Christopher Hospíce é a esperança de que, ao zelar, ao cuidar dos doentes, devemos não só aprender a libertá-los da dor e da angústia, a compreendê-los e a nunca desiludi-los, mas também a estar em silêncio, a escutá-los e a simplesmente estar lá. Depois de aprendermos a fazer isto, descobrimos também que não somos nós os que fazemos o verdadeiro trabalho.»
Durante as duas décadas seguintes a isto ter sido escrito, o movimento de cuidados paliativos, um movimento que enfrenta a morte, doenças de evolução prolongada e o luto, progrediu muito. Os seus princípios básicos têm sido interpretados em muitos cenários diferentes e começou a ser integrado nos hospitais gerais e nos cuidados na comunidade. Esforça-se por acabar com a angústia terminal e o medo a ela associado, através da combinação de ciência clínica consistente e de atenção individual aos detalhes. Encara toda a família como a unidade de cuidados e tenta ajudar cada grupo a descobrir as suas próprias forças, à medida que partilham tanta verdade quanto possível sobre a situação.
Os profissionais deste movimento abriram-se às cóleras e aos medos que constituem a angústia dos moribundos e dos enlutados. Viram muitas pessoas fazer a viagem que começa com incredulidade, seguida de uma consciencialização gradual e, por fim, termina com a aceitação, e ofereceram-lhes a sua hospitalidade. Ao fazê-lo, compreendem que, muitas vezes, recebem mais do que dão, e que ganham novas forças e conhecimento, graças a estas pessoas. Enfrentar a morte é enfrentar a vida, e aceitar uma é aprender muito acerca da outra. Quando entendem isto, aprendem também que têm de partilhar, entre si, a sua própria experiência de perda e de mudança no trabalho.
 
Cicely Saunders
In Velai comigo, ed. Universidade Católica Editora
FONTE: SNPC