DECO – DOIS PESOS E DUAS MEDIDAS?
A Associação Portuguesa Para A Defesa Do Consumidor, da qual sou associado, conhecida simplificadamente como DECO, desempenha um importante papel na nossa sociedade, como é sabido.
Para além da sua ação em vários níveis, no âmbito para que foi criada, apresenta ao público diversas publicações periódicas, com artigos muito interessantes e de grande utilidade.
E é comum reflectirem-se nessas publicações preocupações de ordem ética, designadamente no que diz respeito a aspectos ambientais, sociais e outros.
Na revista Proteste de janeiro de 2011, por exemplo, o artigo “Muros de silêncio” (páginas 16 e 17), revela críticas em relação a empresas que não respeitam os direitos dos trabalhadores e estabelece uma ligação entre baixos salários, excesso de horas de trabalho e ambiente opressivo numa empresa com a vaga de suicídios entre os trabalhadores da mesma. Aplaudo estas preocupações porque sou a favor de uma sociedade em que o ser humano seja respeitado e valorizado e não um mero objecto.
Ora, espanta-me, causa-me choque, decepção e até revolta, que os mesmos editores que demonstram a sensibilidade acima expressa em matéria de direitos humanos não sigam a mesma linha noutros artigos que publicam.
De facto, na revista já acima citada, o artigo “Pílula do dia seguinte” (páginas 42 e 43) não apresenta qualquer explicação sobre o potencial efeito abortivo da chamada “pílula do dia seguinte” ou do Dispositivo intra-uterino, nem sobre as desvantagens da iniciação sexual precoce, nem sobre as formas alternativas de abordagem em matéria de educação sexual que não a mera redução da sexualidade à fatalidade da sua assunção na flor da idade.
Ainda mais gritante foi o artigo baseado num Inquérito sobre aborto, publicado na revista Teste Saúde de Outubro/Novembro de 2010.
Neste artigo, o aborto, que, convém não esquecer, consiste na exterminação de vidas e na negação de um direito que devia ser respeitado – o direito à vida – é tratado com uma frieza inaceitável. Não se pode escrever um artigo sobre esta matéria usando o mesmo estilo que se utiliza num artigo sobre frigoríficos ou esquentadores. E ainda que o artigo apresente dados importantes e que merecem reflexão – por exemplo, a falta de informação sobre o período de reflexão obrigatório, os efeitos causados na mulher (não indicando contudo os efeitos a médio e longo prazo) – não vai ao âmago da questão: o aborto não é uma solução, as mulheres merecem outra alternativa.
O aborto corresponde à morte de inocentes e indefesos, causa traumas psicológicos e físicos às mulheres e envenena e enfraquece a sociedade. O sangue derramado neste ato atroz merecia outro respeito. O número citado no artigo, de 17518 abortos realizados em 2008 nos estabelecimentos autorizados para tal, é arrepiante. Seriam futuros portugueses, portuguesas, alunos, talvez até futuros associados da DECO, a quem foi negado o direito à vida.
Porque não é abordado no artigo referido o problema ético envolvido nesta questão? Porque não são ouvidas entidades pró-vida? Porque só são apresentadas entidades como a Direção-Geral da Saúde e a Associação para o Planeamento da Família favoráveis à legislação actual, a qual exclui os médicos objetores de consciência do processo de aconselhamento, impõe ao erário público o pagamento do aborto a mulheres que o repetem (ao mesmo tempo que são cortados os abonos de família…), e permite a uma mulher, sem qualquer condicionalismo, solicitar o aborto, mesmo contra a vontade de um pai que queira ter aquele filho?
Num tema que não é neutro, devia ter havido a preocupação por enquadrar eticamente esta matéria. Porque não foi incluída pelo menos uma citação à complexidade deste problema e às diferentes posições ideológicas sobre o mesmo?
Porque se preocupam – e bem – com os trabalhadores explorados na China e não se preocupam com a carnificina que ocorre em estabelecimentos públicos e privados em Portugal?
Porque têm dois pesos e duas medidas?
Luís Lopes
De acordo. Quando se perde o sentido da dignidade da pessoa humana presente no embrião trata-se do assunto como se fosse um produto (para não dizer outra coisa) descartável. Samuel R. Pinheiro
ResponderEliminarCada vez mais somos uma sociadade de consumo imediato, infelismente. O ser humano nem tão pouco se importa com a sua propria especie.O aborto tornou-se rotina num Pais de brandos costumes. O que levara uma mulher a matar aquilo que já faz parte dela como ser humano gestacional. Pura maldade desprezo completo pela vida humana.
ResponderEliminarMeu amigo Luís Lopes
ResponderEliminarÉ sabido por todos nós que às vezes levas quase ao limite das tuas forças esta cruzada (alguns diriam quase “obsessão”) quanto à condenação do aborto.
Contudo tenho que concordar contigo em muitas das coisas que tu escreves. Parabéns pela tua ousadia e clareza de pensamento. Julgo que no teu artigo de opinião colocado no Blogue “Algarve pela Vida” só falta uma citação de Martin Luther King e que diz “O que mais preocupa não é o grito dos violentos, nem dos corruptos, nem dos desonestos, nem dos sem ética. O que mais preocupa é o silêncio dos bons”.
Vou reencaminhar o teu e-mail de protesto a alguns dos meus contactos
Um abraço do Gabriel Pereira